domingo, 19 de julho de 2026

crônica da semana - não vai ter capa

 Não vai ter copa

Para alguns, até amanhã, ainda vai ter copa. Para nós apaixonados pela seleção canarinho, não. Apesar da fé, não adiantou. Caímos fora foi cedo. E põe cedo nisso. Conforme a atualização da tabela, e também a depender de uma comparação entre os modelos de classificação adotados ao longo das edições anteriores, podemos sair da competição com a pior colocação do escrete brasileiro em todos os tempos de copa do mundo. Após uma passagem discreta e sem empolgação pela fase de grupos, ainda nas oitavas de final fomos tomados por uma certeza: para a imensa torcida brasileira, não vai ter copa. Este torneio mundial foi para a nossa seleção um 7 a 1 sem trauma, um fiasco sutilmente fracionado, diluído em sonhos que, sabíamos, não se realizariam. Diria que, ao menos, foi um fim piedoso, sem o choque e o baque bruto provocados por uma goleada. Ao contrário. Nossa atuação nos preparou, nos deu perceber um revés se anunciando aos poucos, carregando a frustração crescente e se desenhando a cada passe mal resolvido, a cada jogada ineficaz, a cada arremedo tático executado dentro das quatro linhas. Um fracasso a passos lentos. Não nos restou o consolo da nobreza na derrota nem há vez para a dignidade na tragédia. Toalha ao chão, não nos interessa o discurso da queda com a cabeça erguida. Magoamos. Queríamos mesmo era o caneco!

A saída precoce da seleção brasileira da copa do mundo tem conseqüências para um país que respira futebol. O ar benfazejo e salutar das conquistas nos faltou. Mas não foi só esta perda que nos abalou. Prejuízos foram acumulados. Calendários comerciais foram redimensionados, um número incontável de camisas amarelinhas foi posto ao largo tão logo o artilheiro nórdico nos imobilizou com aquele chute um tanto displicente, selando o placar que nos mandaria de volta pra casa. Dali, parte dos torcedores desligaram a atenção do campeonato e foram cuidar da vida. Até sem dor, é possível admitir. O Brasil não prometia tanto. Embora nomes consagrados compondo a equipe, técnico com histórico de vencedor, e uma empafiazinha residual vingando, os números não abonavam a cega confiança. Além das crises no comando do futebol brasileiro, o próprio time no período preparatório para a copa, não deu sinais que teria um bom desempenho. Encarreirou resultados desfavoráveis, repetiu erros de convocação e de esquema tático, não adensou o conjunto. Chegou à copa sem personalidade e sem corpo. E abonado por um, tempo atrás impensado, quinto lugar alcançado no aperreio das eliminatórias pela zona sul-americana, na fase de classificação para o campeonato mundial. Avaliando sem paixão, a equipe não estava com essa bola toda mesmo.

É uma desconfortante realidade. Desde a última conquista, em 2002, não houve um respiro aliviado. O futebol brasileiro vem pelejando à margem das grandes equipes. Mesmo no âmbito dos clubes. Observamos uma organização no futebol internacional que concentra talentos. O Brasil, na contramão, dispersa os bons valores que aparecem por aqui. O resultado é um elevado padrão competitivo encontrado na Europa e até Oriente Médio e Ásia, enquanto que no Brasil, o futebol caminha nos limites do tecnicamente razoável.

Amanhã não vai ter copa para o Brasil. Daqui a quatro anos, porém, esperamos disputar a final. Urgem medidas que garantam a certeza de uma vitoriosa participação no próximo mundial. Movimentos imediatos que compreendam a efetivação de um técnico competente, uma agenda de convocações racional. Ainda, oportunidade a jogadores que se destaquem no cenário doméstico e que possam compor planos de amistosos e treinamentos mais freqüentes. Necessário também, paciência. Baixa pressão na cobrança por resultados, em um primeiro momento. O trabalho deve crescer e aparecer a partir da integração dos fatores que favoreçam e reanimem a excelência do futebol brasileiro. Talento, ginga, calendário, gestão e sim, sim, paixão.


sábado, 11 de julho de 2026

crônica da semana - sapato da hermes

 Pisante marrom

O sapato, no original, nem era preto. Era marrom. Mamãe ganhou numa daquelas premiações que a Hermes dava para as vendedoras que se destacavam no mês. Podia escolher, no catálogo, os produtos que satisfizessem a pontuação que ela alcançara nas vendas. Como eu estava na pira de sapatos, largou mão de outras precisões e me autorizou escolher um par do meu agrado. Bati o olho no marronzinho com o bico saliente, costura em relevo nas laterais, sem cadarço, em modelo só de enfiar o pé mesmo; e que quando chegou, valorizou minha escolha porque o bichinho era macio, confortável que só ele. Me dei.

Era comum, naqueles anos 80, diante dos aperreios diários, a família se agarrar a qualquer oportunidade de faturar um numerário. Teve a fase dos catálogos, ou como enfatizado na corruptela de mamãe, ‘catálago’. Pra tudo em quanto a gente tinha uma revistinha apinhada de ofertas. Mamãe oferecia seus préstimos empreendedores a todas as franquias da onda. O custo era ter o catálogo. Tivesse, estava dentro. Batia esta Pedreira velha todinha, fizesse sol, chuva fizesse, com a sacola debaixo do braço, sortida de amostras grátis de batons, perfumes, e ainda, acrescida de peças íntimas femininas, e toda a sorte de estímulos visuais contidos nos mostruários ilustrados.

Calhou que dessa arrumação toda de artigos e produtos, me saísse um alento que me acompanhou até eu me formar. Não foi assim de prima. Houve a alteração da cor. A Escola Técnica tinha seus controles e não admitia desvio no uniforme. Era a tradicional bata azulzinha, com o bolso identificando semestre e curso, calça preta e sapato preto. Eu segurei o que pude o meu Bamba na lida. Aliás, durante o reinado do Bamba, fui beneficiado com a vista grossa dos inspetores, pois que não podia. Era preto com detalhe branco na biqueira e no solado. Tive que ser muito rapaz umas quantas vezes para poder entrar na Escola com ele, apesar das bacanagens dos bedéis. A linha era dura. Até que o pobre rasgou de não ter jeito. Eu tinha lá o meu sapato da Hermes, mais que depressa consegui uma graxa preta com minha pariceirada da rua e dei-lhe uma mão dupla da pasta até o pisante tisnar por inteiro. Ficou no jeito.

Estava na reta final da Escola, dois ou três semestres para encerrar o curso. Exatamente a pior fase de grana na família. Sustentar quatro bocas não estava sendo fácil. Mamãe ainda ficou na venda dos catálogos, mas acumulou outras fontes de renda. Conseguiu uma barraca na feira. Lá era o nosso ponto de apoio, a matriz das nossas marretagens. Revezávamos os turnos da barraca, a venda nas ruas, ocupações no lar e os deveres escolares. Ainda assim, na viração intensa em escala 7 x 0, a maré banzerou pro meu lado. Nessa época, as atividades no curso ganharam componentes mais técnicos e caros. Papel vegetal, tintas e canetas Nanquim, papel milimetrado, cópias fotostáticas de mapas e imagens de radar landsat, além de viagens de campo com parte do custo jogada nas nossas costas. Tudo ia muito além das minhas posses. Eu não dava mais conta. Faltando tão pouco, desvaneci.

É nessa hora que a gente sente que não está só. Os inspetores, meus colegas de turma, professores e simpatizantes do meu jeito de ser e ter fé na vida uniram-se e seguraram a minha onda. Do meio pro fim, eu não gastava mais era nada com os trabalhos ou uniforme. Cheguei a ter mais batas que os meus colegas porque dona Joaquina, que era a inspetora do nosso bloco, recolhia de cada turma que se formava o que desse de material e uniforme e me dava. Terminei o curso como um pequeno Frankestein, construído com a bata de um, a calça de outro, a caneta nanquim daquele, o papel vegetal deste... A única posse que me era original, não na cor, era o sapato que mamãe resgatara da Hermes.

Essa semana,vi na reportagem que os milionários jogadores brasileiros da copa usam os produtos da Hermès. Comentei com a família: temos algo em comum.

 

 

 

 

sábado, 4 de julho de 2026

crônica da semana - último romântico

 O último romântico

Há um mundo imenso espalhado, salpicado de escondidos e surpresas. De forma tal que até espanta. Ainda mais quando vêm dos reinos amazônicos, os assombros. Criam abalos por vezes tristes, tingidos de descaso com a nossa gente. Formam realidades que, em nosso mundo (Rai)mundinho, nem maldamos existir, mas existem.

O encontro se deu num acampamento temporário, por isso, desprovido do básico. Para mim, aquele jeito precarizado das acomodações, com barraco coberto de lona sobre débeis estruturas de madeira, já me dava gastura, pois que minhas jornadas no campo eram sempre em locais de estrutura razoável, equipe robusta e com este ou aquele apoio. Daquela vez foi diferente. Era, como diz o outro, tudo no bruto, na base do imperioso improviso. O cozinheiro não se podia dizer que era um cozinheiro de verdade. Era aquele um que apanhava lenha, completava a equipe de cortador de mata quando necessidade havia ou ainda ajeitava um curativo, um cuidado a alguém acometido de uma bifede ou algum tipo de passamento. O chefe era um geólogo romântico. Achava ele que aquelas dificuldades eram sinônimos de fortes emoções. Acreditava que os resultados, os indicadores, os avanços na pesquisa validavam toda e qualquer mazela própria daqueles abrigos mal-ajambrados. Eu heim, estranhei. A campanha era dinâmica. A equipe armava o acampamento aqui, passava uma semana, as frentes de trabalho iam-se distanciando. Então, era hora de desarmar tudo, colocar as tralhas nas costas, caminhar o tanto que fosse mata adentro, e erguer os barracos novamente mais adiante para mais uns diazinhos de peleja. Quando da minha vez de entrar para esta campanha, cismei logo. Só para chegar à área, ali, do ponto em que o carro nos deixava, era uma caminhada que batia perto de duas horas em ritmo acelerado. Entrei junto com o rancho e a equipe estava toda lá pra carregar os mantimentos. Inclusive o geólogo e o cozinheiro. No caminho fui orientado a prestar atenção nas árvores próximas, de tronco linheiro e alto. A elas deveria me acudir caso aparecesse uma onça. Neste caso, a orientação era largar a carga, correr, subir na árvore e esperar a bicha, desesperançada de rango farto, bater em retirada. A equipe era diferenciada. Aquele tipo de serviço era quase um castigo. Havia um entendimento de que a turma que ia para aquela campanha era formada pelos caras mais péssimos de comportamento e humor. Encarar aquela missão era quase um castigo para os brabos. Encarei a parada. Cada qual pegou seu fardo e tomou rumo torcendo para não precisar de árvores linheiras. Um pequeno me chamou a atenção. Era o puro louro do olho azul e fala estranha. Bem dizer um alemão ali no meio da peãozada amazônida.

Era rústico de dar na vista. Ao passar do tempo e pelos sinais que ele emitia, me interessei em saber mais. Vinha dos abandonados rurais do Paraná para ocupar a intacta floresta amazônica. Não sabia ler, nem escrever; contar, contava muito pouco e o que me pareceu mais assustador. Era descolado do tempo. Não dominava a sequência dos dias da semana, do mês. Pra ele todo dia era qualquer dia naquele enfurnado de mata. Nem a idade sabia no certo. Vinha de costumes sem eira de modos ou moral. A turma dava corda e nas noites, se esmerava em detalhar relações, diria não naturais, que estabelecia com os animais da fazenda que os pais mantinham ao pé da serra dos Parecis. Era um exemplar incivilizado. Protocidadão. Hábitos e conceitos forjados no abandono. Nunca pensei na vida, eu mesmo um pedreirense das baixadas, carente dos bens do mundo, encontrar um semelhante com pendores e valores tão minguados.

E aí, me inquieta ainda hoje, o tamanho do mundo e seus escondidos. Realidades que nem maldamos existir, mas existem.

Depois que saí da campanha, soube que numa entrada de rancho, entrou também uma caixa de conhaque, clandestinamente, para o acampamento. Não sobrou nem o barraco, que dirá o romantismo.

 

 

 

 

 

sábado, 27 de junho de 2026

crônica da semana ´meu signo é onça

 Meu aparentado iauaretê

O meu signo é onça... E o fluxo inimputável de informações da Internet fez parar na minha caixa de mensagem, nos últimos dias, umas quantas notícias contendo passagens espetaculares relatando a ocorrência de onças em áreas urbanas e em vilas rurais isoladas. Um dos vídeos jura de pé junto que uma Pintada bem porruda desfilava felinamente impávida pela margem da recém-inaugurada Avenida Liberdade, bem aqui, no ao pegado da Grande Belém.

Dando os descontos às imagens criadas artificialmente, ligeiro me veio o exercício do crivo. Uma oportunidade também se achegou, tendo como inspiração a canção sinteticamente reveladora de nossas misturas culturais e ecológicas ‘bichosgentesamazônidas’. Com a referência poética contida no verso de Pedrinho Callado, inicio esta crônica avisando logo: meu signo é onça. Tenho, no rol de minhas valências, uma sintonia, penso que parental, e faço gosto por uma interação que procure ser equilibradamente positiva, ao contrário de temerária, com o maior felino das Américas.

Havendo verdade nas aparições registradas, temos um sinal. Um anúncio de arredores desequilibrados. Porque não é de interesse das onças exposições e publicidades levianas. Dou até meu testemunho. Em mais de dez anos me embrenhando pelos insondáveis escaninhos da floresta, nunca, em ocasião ou repente nenhum, vi uma onça. Embora as tenha sentido em presenças, odores e esturros alhures, nos afiançamos em harmonia, os nossos cada quais de território. Tenho em conta para contar, se muito, três ou quatro casos em que as onças rondaram em paz, o lugar em que eu estava. E destaco um caso bem típico quando o desequilíbrio acontece enredando surpresa e tensão. Foi em Rondônia.

Havia por lá um camarada posudo, tido e assumido como grande caçador. Trabalhava na lavra de cassiterita. Rondônia ainda não exibia esta faixa enorme de terra nua, devastada que tem hoje. Estava ainda, no início da década de 80, no caminho de, segundo algumas fontes, ser o Estado da região norte com maior perda de floresta nativa para os projetos de desenvolvimento pautados na intensiva atividade agropecuária. As onças ainda minavam por lá.

O caçador era peão de mina, e nas raras horas dos contraturnos, de posse de uma lustrada espingarda, ganhava a mata a espreitar os bichos andantes. Gostava de se valer da soberbia colonialista. Sentia-se um conquistador. Tez branca, envergadura esticada, dizia ser diferente das gentes da terra em tudo, inclusive na coragem. Passava horas no mutá até uma paca gorda aparecer. Bom de mira, quando voltava pra casa ostentando como troféu um animal morto, era como se se confirmasse superior aos naturais da região.

Certa vez, ao margear o lago artificial que acumulava água de serviço para as minas, a uma distância dos movimentos e maquinários não recomendada para se andar sozinho, no que contornou um balseiro que fora produzido pela derrubada de grande quantidade de árvores e que ali jaziam esturricadas, deu numa picada larga, antes utilizada por tratores no transporte de madeira. Distraiu-se avaliando uma ponta de mato batido e quando ergueu os olhos à frente, deparou-se com a bichona. Ela estava com os filhotes. Apontou na picada de repente, relatava sempre que lhe era solicitado, o causo. A Pintada demorou-se em fitar-lhe com os olhos brilhantes. Ele, destemido caçador, aprumou a 12, fez a mira. Nunca soube explicar, mas naquele momento, olhando no fundo dos olhos da onça ali adiante, percebeu-se paralisado, tomado por um torpor, um transe insuperável. Não atirou. A seguir a onça atravessou a picada, as crias enfileiradas, atrás. Neste momento, um medo descomunal se apossou dele. Chorou, cedeu ao descontrole, sofreu desmanche e humilhação.

Andei por esta mesma picada algumas vezes com minha equipe. Ao longe, ouvíamos o esturro do aparentado iuaretê nos alertando sobre nossos cada quais ‘bichosgentesamazônidas’.

 

sábado, 20 de junho de 2026

crônica da semana - terremoto... lago de tucuruí

 O espírito do rio

Aquele vuco-vuco acabou entrando para a minha memória como uma diversão, uma inesperada folga nos costumes. Mesmo atinando para os medos e pareceres assustados, achava legal aquela gente no meio da rua plena alta madrugada. Muitos descontentes por pularem da cama, da rede ou dos braços da amada no aperreado da pressa; outros desconfiados de que ainda coisa ruim poderia vir. Uma banda mais séria que bode embarcado, sem entender nada. De certo, muitos moradores testemunhavam a experiência. Este, zonzeira e anuviamento no entressono; aquele, desequilíbrio no exato momento que se retirava aliviado da retrete; aquel’outro, estranhamento por ver coisas e chão se mexendo do nada, quando da visita à geladeira para tomar um gole d’água. Belém acabara de ser atingida por um abalo sísmico. Eu não senti nada (mas no outro dia na escola contei foi muita mentira. Fantasiei que só). Fui tirado do sossego no agoniado do instinto de sobrevivência pela minha mãe. Zanzamos pelos escuros da Marquês de Herval dos anos 70 por um tempo, como, acho eu, toda a população de Belém. Os rádios ligados eram a esperança de notícias. Um noticiário do plantão registrava a preocupação com o prédio mais alto da cidade. Havia relatos de moradores do Manoel Pinto sendo evacuados só de pijama, dos apartamentos (Não sei se foi verdade. Sei que desceram também para a rua). Todo mundo procurando segurança no descampado das avenidas e praças. Burburinhos, diz-que-me-disse e uma certeza entre os notívagos da Marquês. Foi um tremor de terra e já passou. Aos poucos os moradores foram retornando. E eu, com uma vontadezinha de usufruir mais um pouco o ar livre da madrugada...

Era início dos anos 70, o clima político inspirava cuidados. Fenômenos eram forjados, verdades ocultadas, milagre econômico anunciado sem uma prova sequer de ser possível. Um bolo fazendo às vezes de galo duro de cozer, que dirá dividir. Um tremor de terra, abalo sísmico que seja, teria a razão creditada aos caprichos da divindade (foi porque Deus quis). Não tinha nem quê nem porquê de acontecer nesta terra abençoada. E se aconteceu foi porque o Homi lá em cima permitiu. Aquele balançado de terra seria um aviso.

Para mim, chegado dos longes do Acre por aqueles dias, e com mina de invencionices e histórias fantásticas a tiracolo, foi um isso para apimentar o cenário. Tinha aquela herança dos ermos, a fácil explicação para tudo amparada nos mistérios e nas crenças. (A minha invenção mais constante era a justificativa de ser tão pequenininho, para a minha idade. Os moleques da escola não davam folga. Na hora da fila, do menor para o maior, aproveitavam a escadinha para me bulinar. E para me enfurecer mais ainda, se revezavam perguntando porque eu era tão baixinho. No início eu até arranjava, com as palavras e versões que a idade me permitia, uma justificativa pescada na genética, no calibre, nos hormônios... mas depois de um tempo, me adiantava com um ‘porque Deus quis’ e pronto. Fechava a cara, não dava mais papo. Quando me largavam de mão, eu me soltava e me danava a contar causos do Acre. A chuva de peixe, a areia movediça do rio Ina, os vampiros do seringal, o frio glacial que faz no Xapuri e as pedras transparentes que calçam o leito do rio Acre). No dia seguinte ao terremoto, ligeiro, eu acrescentei ao meu repertório uma razão para aquela tremedeira. Era a água grande do Amazonas em combate com as margens, era o braço de águas pesando sobre nossas ilhas baixas. Naquele início dos anos 70, a minha fantasia mencionando a água grande errou por pouco.

A Terra é um organismo que se realiza no equilíbrio. Ante qualquer alteração, busca uma compensação. A quantidade extraordinária de água represada no lago de Tucuruí sufocou o espírito do Tocantins. E de vez em quando ele se ajeita para respirar sob a pressão daquele mundo de água. Por esses dias, se ajeitou. E a terra tremeu por lá.

sábado, 13 de junho de 2026

crônica da semana - vai trabalhar...

Vai trabalhar...

Não era o céu que espalhava cores e horizontes sobre mim. Era canção. Não era a porta dos tempos a abrir-se generosa à minha frente. Era um desejo. Não era o poder das coisas e das gentes me arengando a toda hora, a todo instante, a todo suspiro aperreado. Era fogo pelejando com a água por paz.

Daí que eu me mexi e quase caí da rede. Havia um rio lá embaixo. A cada embalo na rede, rio. A cada embalo, rio. A cada embalo... Desatei os punhos da escápula, enrolei a rede e pulei nas águas melodiosas do rio que corre em mim. E cantei banzeiros inquietos, pororocas nervosas, marés sem tento.

O canto não era o samba que excitava, nem o carimbó que até é da minha natureza. Era um vago na memória e no gingado. Não era o andamento romântico acariciando meus pertos. Era a dúvida que reina em mim. Quero, não quero. Quero, não sei se quero.

Atei a rede de novo. O rio me espiando e umedecendo a aridez que arde lá de dentro de mim:

(Acionei os músculos nos aparelhos da academia ao ar livre da grande avenida. Três séries de 15 movimentos. Peito agitado. Coração tuco-tuco acelerado. Puxa a respiração. Solta devagar. Uma gotinha de suor se anima rés à fronte. Trânsito pesado nos dois sentidos da avenida. Entre uma puxada de ferro e outra, reconheço o estresse dominando o movimento da rua. Do nada, mas do nada mesmo, um motorista passa no limite de velocidade que a avenida permite, num relance vira o rosto, mira as pessoas que utilizavam os aparelhos da academia, lá em cima no canteiro e ordena agressivo: “vão trabalhar bando de vagabundos”. Todos nós que nos exercitávamos tentando ganhar mais um isso de vida com qualidade, cabeça branca, ali de boa com a idade. Todos arrumando um tempo depois de uma lida de anos e anos, na intenção de recuperar a força nas pernas, nos braços, melhorar a respiração, arejar a cuca. Fazendo por onde não cair, éramos vagabundos, para aquele motorista de espírito hostil).

Era manhã. A canção, pluft, sumiu do meu pensamento e das minhas intenções. Água e fogo decidiram-se pela arenga, pelos inconciliáveis conflitos. Vagabundos!

Caí da rede. Emboletei os punhos. Esmerilei a escápula até não restar uma fagulha sequer. Aridez. Não há lirismo neste rio vagabundo.

Anos e anos madrugando, despertador obediente à chamada desde às 4 e meia. Escuro estrelado lá fora. Viv’alma na rua. Mais de 45 anos batendo ponto. Sem tempo nem vagas para um isso de extravagância. Compromisso, dedicação, humilhação, engolindo sapo, perereca, gafanhoto, lesminhas gosmentas, sem lavar os pés, sem rir, sem falar, sem as mãos para negar, sem a voz para sugerir, sem alma para decidir. Quase meio século de botas e disposição para acordar às 4 e meia da manhã e seguir o rumo das valias, dos valores.  Cabeça branca, e olha só no que deu. Procurei oxigenar a vida, desopilar o fígado, irrigar as veredas do coração. Saí para embalar dicunforça a rede da rotina, despistar as dores das juntas e da alma. Era minha intenção desfazer dúvidas. Sim, eu quero. Eu sei que quero. Aí me vem o cidadão irritado, sem amor pelo que faz, provavelmente, no seu carro turbinado de ódio e me rotula a mim e a turma que estava comigo na academia pública, de vagabundos, porque era manhã e nossos cabelos estavam brancos e tínhamos dedicado uma vida ao trabalho. E aí me chega o consciente leitor de conjuntura e nos taxa de vagabundos.

Não era um sonho. Era o rio dentro de mim secando. Era a voz emudecendo. Era o remorso deitando e rolando no meu cocuruto, meus Deus, estamos todos errados, vilipendiamos os credos e costumes quando  empregamos a nossa pouca força nestes aparelhos de academia. Temos que calçar as botas e sair para o mundo dos lucros e das oportunidades. Temos que dar um agrado ao espírito daquele motorista atormentado que passou pela avenida no limite da velocidade permitida.

Não era sonho. Era um pesadelo. Gente do céu! É hora de acordar.

 

sábado, 6 de junho de 2026

crônica da semana - a vida imita a arte - Altamira

 A vida imita a arte

Para mim, o filme Bye Bye Brasil tem um sentido especial. Boa parte foi filmada aqui no Pará, com cenas rodadas às margens do rio Guamá, no Veropa, nos ermos da Transamazônica e nos pontais do rio Xingu. É arte próxima da gente. Faz menções, traz lembranças, emoções.

Foi produzido no final dos anos 70. E, verdade, estivemos bem próximos. Na minha turma da Escola Técnica, tinha um aluno que fazia figuração, dizia aparecer em cenas rodadas na Condor. De prima, ninguém acreditou nele. Achávamos que era lorota. Um calouro de Mineração no cinema? O filme estava em cartaz. Dava corda pra gente assistir. Ele fornecia detalhes e argumentava que tinha sido selecionado por atuar no teatro. Se dava com atores, diretores, grupos tradicionais com atividades em Belém. A turma foi conferir. Tiramos um dia, demos um desdobro nas últimas aulas e corremos para a sessão das 5 no Iracema. E não era o pequeno mesmo, dividindo o take com a musa Betty Faria! Assanhado que só ele, em agarra-agarra no salão com as meninas, nos relances das aparições, entregue às seduções da Condor. Tenho pra mim que ganhou o mundo e seguiu carreira porque fez só o primeiro semestre com a gente. Dali pra frente, não apareceu mais na Escola.

Bye Bye Brasil sempre esteve disponível pra gente ver na TV, nas plataformas grátis da internet, em casas de exibições alternativas. É um clássico. Nunca mais tinha me abalado. Daí que semana passada topei com o reclame dele. Cliquei e olha, fiquei bestinha. Uma qualidade! Definição de som, de cores. Uma produção beirando 50 anos e a padronagem  dá de se pensar que foi feita ontem. A tecnologia é fera mesmo.

Deixei dito que o filme traz uma carga de emoção. Por nos mostrar dentro da nossa casa. Senti mesmo uns estremecimentos e afetos quando percebi que estive em todos os lugares que a trupe da Caravana Rolidei aprontou das suas e, em alguns casos, aprontando também das minhas e vivenciando as mesmas aventuras e desafios. Veropa e aquela beirada da Condor, nem falo nada, até hoje dou minhas bandas por ali. Agora a Transamazônica e Altamira têm lá seus merecimentos mais aqueles de distintos. Duas cenas em especial se alinharam aos meus dias passados naquelas paragens.

Destaco como a mais legal, a mais acarinhada nas minhas lembranças, aquela em que o personagem do José Wilker desce do caminhão com um macaquinho no ombro, na parte alta da estrada imediatamente anterior à entrada da cidade e lá de cima apresenta Altamira, o rio Xingu. Que fofura no meu coração! Foi por ali, acho que uma ladeira antes, que morei durante um tempo. E aquele ponto era também a hora que a gente tinha um alívio. Já via a cidade. Estava perto. Uma visão muitas de conforto porque, chegar até ali pela Transamazônica, na maioria das vezes, não era nada fácil. Quando não era vencendo um infinito horizonte empoeirado, era ao custo de luta selvagem contra os atoleiros. Ali, naquele ponto estávamos, bem dizer, sob os auspícios da cidade.

A outra passagem tem a ver exatamente com os atoleiros. É quando a caravana se encontra com um grupo de indígenas e ouve da matriarca que ela quer andar de avião. Ainda se virando com os atoleiros Wilker alerta que avião só passa lá em cima no céu, e o céu era longe pacas.

Foi o mesmo desalento que ouvi na vez em que voltava do campo, estava saindo de férias, passagem comprada, voo saindo às sete da noite. Pelas quatro da tarde travamos no fim de uma fila imensa. Era um movimento de caminhoneiros obstruindo a cabeça de uma ponte. Protestavam contra os atoleiros invencíveis da Transamazônica. Perderia o voo se não liberassem. Saí lá do fim da fila, fui me puxando com lama no joelho, localizei o líder. Expliquei que iria perder meu avião que estava marcado para daqui a poucas horas. “Avião?!”, ele me voltou nervoso. “Avião só passa lá em cima no céu, e o céu era longe pacas”, e me apontou o fim da fila.