Não vai ter copa
Para alguns, até amanhã,
ainda vai ter copa. Para nós apaixonados pela seleção canarinho, não. Apesar da
fé, não adiantou. Caímos fora foi cedo. E põe cedo nisso. Conforme a
atualização da tabela, e também a depender de uma comparação entre os modelos
de classificação adotados ao longo das edições anteriores, podemos sair da competição
com a pior colocação do escrete brasileiro em todos os tempos de copa do mundo.
Após uma passagem discreta e sem empolgação pela fase de grupos, ainda nas
oitavas de final fomos tomados por uma certeza: para a imensa torcida
brasileira, não vai ter copa. Este torneio mundial foi para a nossa seleção um
7 a 1 sem trauma, um fiasco sutilmente fracionado, diluído em sonhos que,
sabíamos, não se realizariam. Diria que, ao menos, foi um fim piedoso, sem o
choque e o baque bruto provocados por uma goleada. Ao contrário. Nossa atuação nos
preparou, nos deu perceber um revés se anunciando aos poucos, carregando a
frustração crescente e se desenhando a cada passe mal resolvido, a cada jogada
ineficaz, a cada arremedo tático executado dentro das quatro linhas. Um
fracasso a passos lentos. Não nos restou o consolo da nobreza na derrota nem há
vez para a dignidade na tragédia. Toalha ao chão, não nos interessa o discurso
da queda com a cabeça erguida. Magoamos. Queríamos mesmo era o caneco!
A saída precoce da seleção
brasileira da copa do mundo tem conseqüências para um país que respira futebol.
O ar benfazejo e salutar das conquistas nos faltou. Mas não foi só esta perda
que nos abalou. Prejuízos foram acumulados. Calendários comerciais foram
redimensionados, um número incontável de camisas amarelinhas foi posto ao largo
tão logo o artilheiro nórdico nos imobilizou com aquele chute um tanto
displicente, selando o placar que nos mandaria de volta pra casa. Dali, parte
dos torcedores desligaram a atenção do campeonato e foram cuidar da vida. Até
sem dor, é possível admitir. O Brasil não prometia tanto. Embora nomes
consagrados compondo a equipe, técnico com histórico de vencedor, e uma
empafiazinha residual vingando, os números não abonavam a cega confiança. Além
das crises no comando do futebol brasileiro, o próprio time no período
preparatório para a copa, não deu sinais que teria um bom desempenho.
Encarreirou resultados desfavoráveis, repetiu erros de convocação e de esquema
tático, não adensou o conjunto. Chegou à copa sem personalidade e sem corpo. E
abonado por um, tempo atrás impensado, quinto lugar alcançado no aperreio das
eliminatórias pela zona sul-americana, na fase de classificação para o
campeonato mundial. Avaliando sem paixão, a equipe não estava com essa bola
toda mesmo.
É uma desconfortante
realidade. Desde a última conquista, em 2002, não houve um respiro aliviado. O
futebol brasileiro vem pelejando à margem das grandes equipes. Mesmo no âmbito
dos clubes. Observamos uma organização no futebol internacional que concentra
talentos. O Brasil, na contramão, dispersa os bons valores que aparecem por
aqui. O resultado é um elevado padrão competitivo encontrado na Europa e até
Oriente Médio e Ásia, enquanto que no Brasil, o futebol caminha nos limites do tecnicamente
razoável.
Amanhã não vai ter copa para o Brasil. Daqui a quatro anos, porém, esperamos disputar a final. Urgem medidas que garantam a certeza de uma vitoriosa participação no próximo mundial. Movimentos imediatos que compreendam a efetivação de um técnico competente, uma agenda de convocações racional. Ainda, oportunidade a jogadores que se destaquem no cenário doméstico e que possam compor planos de amistosos e treinamentos mais freqüentes. Necessário também, paciência. Baixa pressão na cobrança por resultados, em um primeiro momento. O trabalho deve crescer e aparecer a partir da integração dos fatores que favoreçam e reanimem a excelência do futebol brasileiro. Talento, ginga, calendário, gestão e sim, sim, paixão.