sábado, 4 de abril de 2026

crônica da semana

 O alpendre

Nem era assim, minha amiga de rocha mesmo. A coisa foi acontecendo aos poucos. Fazia parte de outra turma. Vez em quando nos topávamos pela noite, no restaurante da japonesa, ali pela beira do rio, no balneário do Pedral. E assim, nessa batidinha, fomos nos envolvendo. Mesclamos as turmas. Dava até de nem maldarmos, e de repente, um estava na programação do outro sem combina. Formamos uma terceira via. Mais diversa, bem mais liberal, avançadinha, diria, para os prazeres mundanos. Um grupo que discutia política, apreciava alguma arte, e fazia questão de se perder pelos escondidinhos alternativos por ali, pelas ruas descendo a Manoel Umbuzeiro. Fechávamos bares, na superação; ainda, fazíamos trilhas, explorávamos cachoeiras, cavernas, acordávamos uns aos outros jogando pedra na janela do quarto e depois é que pampampam, batíamos na porta. Quando dei fé, já tomava conta do sofá da casa da minha amiga, comparecia na horinha certa do almoço, e de manhã, me enxeria para dizque, experimentar as combinações de jerimum com leite e aquelas tapiocas grossonas que a mãe dela fazia. Nos tornamos unha e carne. Tinha ciúmes dela com um sujeito que ela, aqui, ali, namorava. Do sul e que fazia parte daquela outra turma. Calhou que ele não se deu com as novas composições, com a terceira via, daí ela se saiu e namorou um amigo chegado meu. Menos pior.

Foi a primeira a chegar a minha casa, de tardezinha, já a noite caindo.

A casa era um brinco. Um refinado traçado na arquitetura de Altamira. Alugada pela empresa, abrigou o engenheiro residente, depois o administrador e já o projeto em risco, fomos nós, da área técnica pra lá. Com pouco mais, veio uma onda de demissão, e levou o bocado que morava comigo. Fiquei morando sozinho um bom tempo naquela mansão. Eu, na companhia do cachorro e do Verdugo, que era o vigia da noite e passava o turno no alpendre. Um tempo suficiente para roteirizar dias e noites de folgas e folguedos pra lá de animados. Verdugo ficava piriricas diante das liberdades exageradas oficiadas em nossas contumazes celebrações. O detalhe é que esta casa de extremado bom gosto era de um dos primeiros garimpeiros a enriquecer em Serra Pelada. Voltou pra cidade que era o puro ouro, o homi. Contratou engenheiros, arquitetos. Tinha quatro quartos, a casa, jardim, e um simpático alpendre de onde eu via Helena passar todo início de noite. O primeiro dono garimpeiro torrou toda a grana, perdeu a casa, foi morar na Brasília e por fim, trabalhava como cozinheiro do meu acampamento no Xingu. Era baixo, gordinho, cara redonda e ganhou um apelido lá no campo, indo lá e vindo cá no recato, de toda sorte, impublicável.

Naquele meu último dia, a casa esteve foi movimentada. Antes do anoitecer, a turma chegou. Os convidados trouxeram salgadinhos, bebidas e alguns instrumentos. Nos acomodamos na sala, fizemos brindes, iniciamos uma cantoria. Érica logo se desinibiu. Foi se achegando pro lado de Pedro. A moça era bela. Parecia uma boneca. Pele aporcelanada. Pose de miss. Namorava com Júlio, um dos mais cobiçados herdeiros da cidade. Pedro era bonito e pobre. Não deu nem a conta de mais um brinde e os dois sumiram lá pra dentro.

Já a noite se instalara. Minha melhor amiga pediu que eu largasse o violão um instante e fosse lá fora. Era Júlio atrás da Érica. Não entrou, não passou além do alpendre. Era distante da gente, de outra laia. Eu disse que não sabia dela, andava com esta galera mesmo, mas por aqui, não está não, afirmei. Não voltei pra sala. Fiquei no alpendre esperando Helena passar na sua motinha. Quando ela chegou, viu aquela arrumação e deu pra trás. Nem desligou o motor. Falou pra eu me arrumar.

Conheci Helena revelando filmes da minha Olympus Trip 35. Trabalhava numa loja da Sete. Me engracei. Não era bonita, nem sedutora, nem espevitada como as meninas da nossa turma. Tinha um olhar triste, e um jeito extraordinariamente acolhedor. Vivia num mundo muito, mas muito distante do meu. E isso me encantava. Morava ali na estrada do aeroporto, pros meus lados. Quando estava na cidade, todo dia a esperava para nosso namoro de porta. Sempre parava, desligava a moto e se demorava. Falava pouco e se denunciava em banalidades e medos. Não aprofundava assuntos, nem enxerimentos. Jamais ousou avançar o sinal, nunca se adiantou além do alpendre...

Verdugo chegou e isso era sinal de que já estava na hora. Com a ajuda de minha melhor amiga encerrei a festinha de despedida. Fomos recolhendo a turma que estava lá pra dentro. Pedro e Érica estavam exaustos, curtindo a convalescência daquela aventura proibida. A galera foi embora, minha melhor amiga foi com eles, com cara de choro. Depois, peguei minha mochila, fechei a casa e dei a chave para Verdugo. Mandei um tiau pro cachorro e desci pra calçada.

Helena foi me buscar e me levou pro aeroporto na mobylette dela. Nunca arriscou avançar além do alpendre.

 

 

 

 

sábado, 28 de março de 2026

crônica da semana - vinte anos

 Meus vinte anos

Por uma beiradinha de tempo não publiquei esta crônica na justa data daquela primeira vez, posto que foi no dia 27 de março de 2006, um dia como ontem, que estreei aqui na coluna. E daqui não desapreguei. Bati a conta dos 20 anos num repente de admirar. Quem diria. Todo sábado, durante tanto tempo!

Nesses vinte anos, me dou é por satisfeito por manter uma coluna fiel aos meus pendores literários; e por me encontrar consciente de uma possível representatividade. Na humildade, porém, botando fé no meu fraseado.

Tenho pra mim que, na minha vez, posso dar voz a uns quantos escritores, poetas, criadores da nossa terra. Considero que trago a marca da Academia de Letras que me acolheu, e tento, com o meu baquezinho, com o estilo que dou às minhas prosas, homenagear uma mina de gente que veio antes de mim, que abriu caminhos para um contar próprio regional, ou belemense, que seja. Puxo a brasa do regionalismo para minha sardinha.

Eu me sinto, de vera, uma pessoa afortunada, enriquecida da graça ao manifestar minha arte, imprimir meu talento nas páginas do jornal. Fosse aqui ou ali, já seria uma senhora duma lisonja, imagine só por esses longos vinte anos. Vale que só uma pavulagem.

Passados esses vinte anos, também me imponho reflexões mais práticas, coladas às realidades nada fáceis que vivemos (nunca que iria imaginar que a minha escrita fosse dar de encontra com guerras tão ameaçadoras neste mundo espremido em interesses, nem se bater com a beligerância de zap, neste nosso Brasil varonil que a insanidade engoliu).

Da parte da lida criativa, o cenário nos aponta que os desafios enfrentados pela cultura são inúmeros. Destaco então que a existência de uma coluna, um espaço destinado à literatura, especificamente à crônica, ocupado por escritores da terra, incorporado à rotina editorial de um jornal, por anos e anos, chega a ser uma profissão de fé, um compromisso ousado, sério, em favor de uma tradição estilística. Por aí a gente tira... Escrever é sim, libertar a alma, entregar-se ao lirismo, ao sentimento, às fantasias, à poética erudita ou mundana, mas é também, uma responsa.

Quando penso dessa forma, dando tino à produção literária, os meus primeiros dias na coluna, lá em 2006, me voltam contextualizando.

Naqueles dias, a coluna era minada de bambas. Jornalistas, escritores de primeira linha. Um dia pra cada. Peguei a terça-feira. Dali em diante, fui me enxerindo entre as estrelas. E que bom, fui bem aceito. Embora houvesse uma turma aquilatada, com qualidades literárias expressivas e eu, um desconhecido no meio, não tive um melindre sequer. Muito pelo contrário, fui acolhido e me dei conhecer os outros trabalhos, os estilos, as técnicas. E vi que poderia cavar espaço para o meu jeitinho de escrever. Havia vaga.

E fui varando, rente como pão quente. Passei pro sábado. Fazendo a conta no justo da matemática e no desfolhar da folhinha do Sagrado Coração de Jesus, seriam 960 crônicas publicadas. Dando o desconto de umas ausências programadas e participações especiais de outros escritores; vamos estimar publicadas mesmo no jornal impresso, umas 900 crônicas. Vá lá que seja. Um número que considero porrudo já. Temas diversos, umas crônicas mais aquelas, outras nem tanto; umas tímidas e outras até premiadas. Em tudo por tudo, e por fim, é minha obra. Que me envaidece e, olha só, dizque arranca deste filho de seringueiro uma lasquinha de orgulho. Um acreaninho que correu o risco de nem aprender a ler, naquelas lonjuras ocidentais, e como dizia a mamãe, perigava não vingar porque sofreu com uma paralisia infantil e teve um tempo que nem andar andava... Pr’aquele Raimundinho amofinado, marcar as páginas de um veículo de comunicação de nome, atingir leitores em todos os cantos, provocar empatia com histórias comuns, em tantos anos encarreirados, são artes que dão uma teba duma forra, uma monstra duma valência.

 

 

sexta-feira, 27 de março de 2026

crônica da semana

 Escala 6 x 4

 

... A empresa nos apertou em um nó que levou muitos anos para ser desatado. Como parte desta manobra ‘na calada da noite’, constava a mudança imediata da tabela de turno. Item de negociação devidamente referendado no novo Acordo Coletivo, agora celebrado com o nosso novo representante.

O resultado dramático para nós foi que trocamos a dinâmica de nosso trabalho de turno, admitindo uma tabela de ritmo absolutamente cruel. Passamos a trabalhar na malfadada escala    9 x 9 x 6, composta por apenas quatro turmas e, consequentemente, com período de folga reduzidíssimo. Trabalhávamos 7 dias, folgávamos 1dia. Mais 7 dias, folgávamos 1 dia; Mais 7 dias, folgávamos 2 dias. Sendo os horários de trabalho de até 9 horas para as jornadas diurnas e vespertinas e de 6 horas, para o turno da noite.

A relação de dias trabalhados para dias de folga era no patamar asfixiante de 5,25/1. Um ritmo que denunciamos insistentemente, como desumano. Só como comparação, hoje a nossa tabela, bem mais humanizada, compreende jornada de 6 dias, seguidos de 4 dias de folga, perfazendo uma relação de 1,5/1. Anos mais tarde, quando recuperamos a tabela francesa, o que conquistamos, verdadeiramente, foi a retirada de um fardo pesadíssimo das costas do trabalhador.

Aquela tabela inicial imposta, com a fábrica ainda se ajustando, com manobras operacionais exaustivas e jornadas longas provocava um desgaste enorme nos trabalhadores. Vivíamos praticamente para a fábrica e depositando lá boa parte de nossas energias. Aguentávamos porque éramos fortes e precisávamos, mas fácil, fácil, não era.

A mudança impositiva da tabela foi o item mais traumático quando da independência da empresa, mas outros benefícios ou foram diminuídos ou foram retirados, como por exemplo, a concessão de tíquetes alimentação, que sumiu do novo Acordo; as progressões salariais, que seriam, ainda definidas desvinculando-se do padrão anterior; o valor das horas extras, que por ser normativo foi adotado pelo mínimo; e a ausência de representante da fábrica no sindicato, entre outras tantas perdas.

Iniciávamos a nossa relação de trabalho com a empresa, quase que do zero. Ao contrário de nos desanimar, a investida mexeu com nossos valores. A luta, mesmo sem sindicato presente, e com uma categoria ‘até aqui’ de trabalho, dedicada quase que exclusivamente à rotina fabril, não nos arrefeceu. Era a hora de reiniciar tudo. Partir do zero. Contabilizar as perdas e tentar reaver direitos e benefícios. Começamos a nos organizar...

domingo, 22 de março de 2026

crônica da semana - confraria do vinho

 Confraria do vinho

Outra prenda não era sugerida senão comparecer àquele encontro com uma garrafa de vinho de rótulo bem bonito.  Era este mesmo o critério. Não era preciso vinho caro, de marca famosa, suave, seco, translúcido ou encarnado num avinagrado simpático. O que importava era estarmos juntos e apreciarmos ainda o atrativo da etiqueta que a garrafa exibia. E, reconhecendo: eu me amarro mesmo na estética dos rótulos. Curto explorar as prateleiras só para admirar esta arte. Em nossa confraria, o fino da estampa era componente de valor.

(Vivia um momento de transição. Estava na biqueira de voltar para Belém depois de 15 anos morando na Vila dos Cabanos. Nos últimos tempos, me batia com a solidão. Família já havia mudado. Ficava pouco em casa. Passava o dia todo no trabalho, só parava ali para dormir. Na folga do final de semana, me picava para Belém na primeira lancha do sábado. Mas antes, na sexta de noite, tinha a nossa confraria.

A casa já se mostrava naquela fase de despedida, um tanto descuidada, marcada pela minha ausência. Lembranças mofadas rolavam pelos cantos. Teias de aranha enredavam eternas felicidades, móveis adormecidos convertiam-se em confissões e saudades, o ranger do vai e vem da rede fazendo a trilha de minhas insônias, soluçava lembranças na escápula. Um azulejo subversivo, intrometido na arquitetura padrão de habitação operária, azulava-se desolado.  Compreensível não haver mais o animus de permanência. Minha casinha me anunciava a distância que nos espreitava, no estalar misterioso do telhado e no cricrilar dos grilos ali fora no alpendre. De saída, ainda me valia da palavra entoada e das amizades que ia deixando por ali. Dos versos da sexta, regados a vinho barato, de rótulo vistoso... e da companhia).

Na certa, ali na reuniãozinha, como sem falta, fizesse noite estrelada ou a chuvarada grassasse, éramos três. O operário, o professor e o economista. Fiéis guardadores do compromisso com a poesia. Toda sexta era contado como garantido, nosso encontro. Com o tempo o reconhecemos com a confraria do vinho. Naquela noite, a casa se iluminava, o silêncio compulsório dava vaga às declamações, às canções, ao ritual de sacar a rolha da próxima garrafa de vinho amigo.

O arranjo era praticamente o mesmo. Cada participante levava uma ou duas ofertas para a partilha. Levantávamos as taças e celebrávamos nossa amizade com um brinde. Uma canção ao violão, alguém recitava um poema que sabia de cor, quando não, acudia-se a um livro, sempre perto; outra pessoa sugeria mais música, levantávamos as taças, outro brinde. O violão, as canções, os poemas.

Por vezes a confraria recebeu convidados e convidadas, e muitos, e muitas, de não ter cadeira pra todo mundo e nos espalhávamos pelo alpendre a fora. Por aí a gente tira quantas garrafas, quantos rótulos bonitos para a nossa coleção. E quantas canções, quantos violeiros e poetas. Quando aparecia muita gente assim, o encontro ganhava envergadura, havia coro, outros instrumentos, além do violão; fazíamos arranjos abonáveis para músicas famosas, jograis melódicos com poemas longos, a mesa se enchia de petiscos, queijinhos. A casa se renovava em carinhos.

Era um tempo que eu estava me despedindo da minha casinha de operário, na Vila dos Cabanos. E, intimamente, entendíamos que cada encontro encenava esta despedida. Por isso, nossa confraria se realizava com intensidade, emoção e também com a sutil intenção de ser semente.

O futuro me mostrou que aconteceu sim, um apartamento. Do ambiente, do ingrediente geográfico casinha operária; mas do componente sugestivo garrafa de vinho com rótulo bonito e da palavra, não. Tenho pra mim que nossos encontros, que poderiam ter passado por coisas vãs desprovidas de razão, deram causa a tantos e belos poemas que hoje nos aprazem, e de maneira igual, nossa confraria é legado que me leva ainda a explorar prateleiras... 

 

sábado, 14 de março de 2026

crônica da semana - os últimos serão os primeiros avião

 Os últimos serão os primeiros

A cena é comum. Passageiros se agitam, conferem os pertences e se preparam para entrar no avião. Um funcionário levanta a voz e expõe a ordem de embarque. De imediato, as prioridades legais. Nesse momento sopra uma brisa de compromisso com a inclusão. Passada esta simpática ventarola, a tempestade da segregação arria.

A chamada para o embarque é a partir da importância imputada ao passageiro. A escolha é amparada, imagino eu, em critérios baseados no preço pago pela passagem, no contrato de fidelidade ou outros que me fogem. Ou seja, vai do bolso do freguês. E ainda tem mais esta já, quedada a presunção: a discriminação é ilustrada pelas designações de classes aplicadas aos diversos padrões de passagens, não raras, elaboradas com títulos emprestados do inglês (tal as estirpes “business class”, “first class”, “tal e coisa e coisa e loisa class”). Uma gabolice só, de caráter anglicista, bestice exagerada no simples ato de admitir o passageiro na aeronave. Este método hierarquizado resulta ainda em um trânsito caótico no corredor do avião, já que o modelo não favorece o fluxo tanto na localização das poltronas, quanto na acomodação da bagagem. Naquela horinha avexada, ali na boca da boiúna, é uma bagunça só. Se um único passageiro der com a poltrona dele logo na frente da cabine, até ele decidir sobre qual ou quais gavetões usar, arrumar as malas, e se posicionar no seu lugar, alguns tantos outros são represados à porta do avião sem poder se adiantar no trajeto. É só um estressezinho a mais. Esta ocupação aleatória potencializa humores já alterados de passageiros e, pode provocar atrasos na decolagem. E é um pé para criar um clima tenso no meio de gente que, ora veja, forma fila ainda no salão de embarque, na frente do portão da companhia, ainda que sequer o horário do voo esteja confirmado. Ali naquele momento se move a névoa do dolo, da luta para superar o outro, para entrar primeiro, para dominar o gavetão de bagagem, para dar um soninho de boca aberta antes do carrinho do minguado lanche passar. E se o voo dá aquela velha atrasada, é só mais lenha na fogueira das vaidades.

Para amenizar os pitis, outras medidas que permitam um embarque descolado de vergonhas, sentimentos de inferioridade e repentes beligerantes, e que ainda, transformem a localização dos assentos e a acomodação do cliente em momentos de alívio e conforto, penso eu que podem ser consideradas. Note-se que, ainda há um tempo não muito distante, havia um modelo mais eficaz para a operação de embarque. A entrada era sim organizada por grupos, porém, não era pautada em critérios de posse ou diferença social. Era de forma ordenada, seguindo a numeração das poltronas identificadas nos bilhetes. E valorizava o corredor desimpedido. Assim, embarcavam primeiro, os passageiros do fundo, ocupantes do último terço de poltronas; a seguir, o terço do meio da aeronave, e depois o restante dos passageiros da frente. Dessa forma, a cada sequência, os passageiros da vez tinham sempre um bom espaço do corredor sem movimentação agoniada ou alguma trava. O tempo de embarque também era bem otimizado.

Num outro viés, evidenciava-se que os números frios das poltronas não acusavam discriminação outra senão a de uma sequência obediente à inócua sucessão dos números nos terços a serem ocupados.

Tinha-se então, com uma medida sequencial, a abreviação de permanência no solo, a distensão e o abrandamento de humores já comumente alterados por outras causas, nas viagens de avião.  

Este jeito de embarcar, de trás pra frente, foi ao ar e perdeu a vez. Deu lugar à pataquada atual. Método talvez pressionado por um tilte de uma elite que não achou bacana, mesmo comprando passagem na primeira classe, embarcar por último. Por este motivo deve ter julgado que a honra lhe caía. Mesmo sabendo que os últimos serão os primeiros na hora de desembarcar.

sábado, 7 de março de 2026

crônica da semana - nosso doutor

 Nosso doutor

Rogério vez em vez me visita em memórias carregadas de significados, umidade matinal da floresta e mais ainda, em filosofias do raso mundano tão densas que sobrevivem por anos, dando causa às mais diversas vivências que experimentei nas caminhadas por esta Amazônia de meu Deus! Rogério era de Humaitá, no Amazonas, um habitante das beiras.

Era meu papo de início de trabalho, diário. Os pequenos se aviando nos preparos, gerando material, praticando o bruto da missão. Enquanto isso, eu acompanhava Rogério arrumando as suas simples tecnologias. Duas batéias, uma imensa e outra pequenina. Uma peneira, um fogareiro artesanal, o talento. O escritório dele era uma tina enorme de metal que todos os dias abastecíamos de água, às vezes, dependendo da característica do material, até duas vezes por dia. A água não podia ficar estragada, como dizia ele.

Rogério avaliava, dava a conta da qualidade da água que ele operava. Era um risco que ele assumia. O ideal era a tarefa dele ser realizada em água corrente ou à margem dos igarapés, com fluxo lento mas renovável; e quase sempre afastado do local da geração. Isso o levava a um trabalho solitário longe da equipe. Preferia se realizar ali nos seus saberes e na companhia dos parceiros. No pé da obra, podia ajudar, forcejar quando a força dele fosse necessária, ralhar com um, com outro mais afoito que lhe passava medições duvidosas. Também, naquele ambiente de esforço e alguma técnica, poderia trocar uma prosa comigo antes do grosso do trabalho começar, picando um fumo, tecendo um fininho e depois preservando o porronca em brasa mansa, quase apagado, nos pitos cadenciados de canto de boca, por um tempão. Podia também, naquele papo de manhãnzinha, tirar onda comigo, das vezes em que a força de todos era demandada e eu me metia no meio da empreitada. Nosso equipamento era uma coisa primitiva, arte de prover desumanidades, engenho bruto. Rompedor de solo absolutamente manual, com tubos pesados, chaves atracadoras de pegadas frágeis, manobras dependentes de muito jeito de corpo. Quando a tubulação prendia, era um sofrimento.

Todo mundo se juntava para liberar a tubulação. Nessa leva, subíamos numa plataforma para pôr força até a veia do pescoço tufar. Eu e Rogério que lidávamos noutras paradas, também. A turma dava sangue, mas eu, nem chegava a tufar a veia do pescoço. Na primeira tentativa, pegava o beco e me arriava por ali no mato suando frio, na baba. E esta era a reflexão que eu fazia toda manhã quando da resenha matinal com o Rogério. Ele me identificava como um esforçado mas acima de tudo, um beneficiado pelo grau de instrução que eu tinha e que não me exigia a força física para sobreviver. Avaliava com muita razão, e afirmava que se eu não estudasse um pouquinho, estaria era ferrado, porque aguentar o trampo bruto, eu não aguentava não.

Rogério engatava nas palavras, mal sabia escrever o nome, divisava poucos horizontes do conhecimento. Mas na batéia, era um gênio. Eu parava com ele, de vez em quando para a prosa, mas muitas e muitas vezes, para admirar a elegância, a altivez com que ele dominava os segredos da separação de minerais usando a propriedade da densidade. Praticava, no tino puro, a ciência. Aprendi um pouco com ele. Se me der uma batéia, ainda hoje, arraso. Embora sem elegância nenhuma.

Aqui, ali, deixava escapar uma confissão, uma frustração. Se reconhecia pessoa de poucos recursos, ralo entendimento. No entanto, recorria a um escape, uma compensação. Dizia ter nenhum estudo, saber quase nada, mas a irmã dele, não. A irmã dele, que morava  em Humaitá, era tilógrafa.

E lá daquele inconsciente criativo, disseminador de exatidões doloridas, Rogério impõe os rasantes de razões em minhas vivências. Não alcancei canudo, graduação ou avanços formais, mas agora neste 12 de fevereiro, após uma defesa brilhante, ganhamos um tilógrafo na família. Parabéns, doutor!

sábado, 28 de fevereiro de 2026

crônica da semana - Abert Camus

 Se fazendo de Albert Camus

Numa das minhas caminhadas matinais, batida a meta da aeróbica,  ali pelas oito da manhã, dei com uma cena curiosa. Sentado em um banco protegido do sol pela sombra das árvores, no canteiro da Duque de Caxias, um homem, se não da minha idade, um pouco mais ou um pouco menos, com o baque que nem o meu, de aposentado, apreciava a movimento da avenida, ao lado de uma latinha de cerveja. Plena de manhãzinha e já tomando uma, na manha. Colhi a imagem, guardei e dediquei o tempo restante da caminhada pensando nela. Naquela cervejinha. A conclusão viria do ensopado da minha camisa. Cada aposentado, com seu cada qual. Uns, optam suar em exercícios e pequenas carreiras, no canteiro da Duque. Outros se dão observar o alvoroço dos carros, a pressa das pessoas, a desenvoltura das aeróbicas, do ponto de vista de um sombreado acolhedor e um golinho aqui, outro ali de uma cerveja amornando sobre o banco.

Durante a reflexão me peguei a um fato de destaque. Pensei que seria um aposentado igual, sem horário, ordem, nem lei que me regrasse a vontade de tomar uma. Até pelo meu histórico de bom apreciador de uma gelada. Ainda às vésperas da minha despedida do mundo do trabalho, a regra era clara. Todo final de semana, tinha que fazer um derrame de cervejas. Tão logo batia a porta ao chegar em casa, na sexta, já abria a primeira. E assim varava os dias até a batida da campa do domingo. Aqui, ali, abrindo uma latinha. Desse jeitinho, assim, seguindo esta batidinha, ao me aposentar, pensava que seria um bebedor bem mais voraz e constante, já que me permitiria sextar todos os dias. Quite. O que se dá é que bebo hoje, bem menos que antes. Enfastiei-me.

Tirando em tudo por tudo, nunca fui mesmo um bebedor dos graúdos. Fazia das minhas nos fins de semana, mas era ali aos saltos. Na sexta, para despressurizar da jornada semanal; fazendo o almoço no sábado (me apraz picar uns temperos ao pegado de uma gelada) ou no ócio do domingo, de meio dia pra tarde ouvindo música paraense no rádio. Mas era uma cota mínima de efeito certeiro. Quatro, cinco latinhas, no máximo. Logo me dava um sono ou pegava o violão, tocava as minhas de sempre, me emocionava de chorar quando cantava canções que me lembravam mamãe e nesse momento, a família dava as dicas. Estava na hora do homi se aquietar.

Entendo que por me libertar deste argumento provocado pela distensão do trabalho (e que prega em nosso inconsciente que o álcool é a redenção para nossas broncas com os chefes, com os processos, com as companhias nem sempre cordiais... com a torturante missão de madrugar), me desapeguei das terapias baseadas no suporte etílico.

Deixo escapar, que, morando ao pegado do Caripi, já fui chegado à máxima adaptada: “escritor não vai à praia, escritor bebe”. Tinha até uma foto que fiz diante da minha Olivetti que expressava um pouco essa versão do chirrado inspirado. A foto me apresenta com uma caneta no canto da boca (que pela correlação, arremeda uma imagem famosa de Albert Camus com um cigarro aparado no flanco dos lábios), e uma garrafa de uísque sobre a mesa. Tive esse costume mesmo de escrever bebendo um uisquinho. Um dia, estava era animado, caneta no canto da boca para possíveis anotações, produzindo e bebendo bem, and rocks. A última coisa que lembro foi que levantei para pegar um gelinho na cozinha. Quando tornei, estava no hospital. O mais impressionante é que, ao acordar, vi meu amigo Evelino deitado na cama ao lado. Uma piração total considerando que Evelino era amigo de Escola Técnica que não encontrava há anos e até onde sabia, morava em Paragominas. Pronto, morri, deduzi, atordoado. Estou no céu dos ex-alunos da ETFPA.

Meu amigo estava em visita técnica em Barcarena, teve uma indisposição e ficou em observação junto comigo. Desfeito o malentendido, não morri, e desde aquela passagem, tenho medo que me pelo de uma garrafa de uísque.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

crônica da semana - matinas carnaval anita

 A chuva belemense, as matinas e o bloco da Anita

O calendário que determina o carnaval, uma envolvente defesa de tese (sim, temos um doutor na família), e o aniversário da netinha justificaram minha vinda ao Rio de Janeiro neste início de ano. Tempo este, rente os movimentos da folia. Cheio de detalhes e surpresas.

Destaque para o clima, ou melhor, os humores do clima. Eu já tinha cantado a pedra, revelando, dizque, meu poder sobrenatural de ensejar extremos por onde passo. Especialmente as minhas duas experiências no Rio, atestam esta presunção. Nesta mesma época, o ano passado evidenciou-se em um dos verões mais quentes já registrados, com sensação térmica de 46 graus em algumas regiões. Também no dito ano passado, em junho, houve de minha presença ser necessária para as prendas de vô de novo. E não é que o Rio bateu recorde de dias encarreirados de frio! Tive então experiência cariocas, que me levaram a dois amofinamentos capazes de me prender em casa, o frio contínuo e o intenso calor.  E eis que topei com os caprichos do clima, por agora. Desde o início de fevereiro, o Rio  é a pura Belém. Céu nublado, pinga-pinga o dia todo, pampeiros pródigos em coriscos, medos; e volume suficiente para deixar bairros inteiros debaixo d’água. Que nem a nossa  Belore, de vez em vez submergida. Agora, chegando o carnaval é que a chuva deu um tempo e os dias se dão de esturricar, mas até então, o ano já tinha sido marcado por uma variação considerável com relação ao mesmo período de 2025. Naquela ocasião, ao deixar os dias tórridos do Rio e voltar para Belém, saí dizendo não ter visto chuva, uma gota sequer, por aqui. Este ano vi e ela se mostrou foi dicunforça. Na versão belemense.

Não tínhamos data certa para viajar, dependíamos da confirmação da defesa de nosso doutor, das promoções de passagens... daí que, perdemos a oportunidade de comprar os ingressos para o desfile na Sapucaí. Sequer, como aconteceu no ano passado, fomos aos ensaios, que já fazem as vezes. No dia que nos assanhamos, foi tanta chuva que nos arredores de casa, a água deu no joelho. Para cumprir a missão de buscar a netinha na escola, nos pegamos com mina de santos, Iemanjá, Iansã e com as energias boas das águas. A gente não é da barra, né. Não pode encarar os desafios de um quarteirão todinho alagado, sem as múltiplas proteções.

Se de um lado, deu uma banzo por perdermos a chance de ver de perto o espetáculo das grandes escolas, da estreante Acadêmicos de Niterói, da verde e rosa do coração, Mangueira; por outro lado foi a vez de conhecermos a graça, a alegria, espontaneidade e a personalidade singular dos blocos de rua.

Os blocos são bem organizados, muitos históricos, tradicionais, acarinhados pelos bairros de origem. De pitoresco, as matinas. No ano passado, teve circuito que iniciou às 5 horas da manhã (lembro do recorde de temperaturas altas de 2025. Procuraram driblar o calor). Agora, não madrugaram. Saem às 7 horas. Acompanhei o legendário “Cordão do bola preta”, que é mesmo limitado por um cordão, até a afogueada apoteose, ao meio dia. Lembrei do nosso “Crias do Aguenta o tombo”, que botávamos na rua, pela manhã, no vácuo dos bambas da Mauriti, e que também se organizava entre cordinhas emendadas umas nas outras. A natureza insurgente dos blocos se exibe nos looks dos foliões. Saem de casa, andam na rua, cruzam a cidade, de boa, montados na sunga, os rapazes; biquínis, as moças. E brilho. Não vi ninguém maldizer os cortejos de jovens, animados nos ensaios das coreografias mesmo que nos apertados nichos do metrô, e também ninguém implicar com os figurinos pra lá de desinibidos. O carnaval enseja a tolerância.

Passados os desfiles oficiais e o “circuito Belém” de dias chuvosos, reina o céu sem nenhuma nuvem. Amofinei em casa aperreado de calor. Os blocos continuam nas ruas do Rio. Hoje a matinas é com a Anita. Começou às 7 horas e vai até o afogueado do meio dia.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

crônica da semana - buraco

 O buraco é mais embaixo

Todo mundo, uma horinha ou outra, já se viu num encalacre doce, assim desse jeitinho. Pode prestar reparo. Ao escrever, falar, ou até mesmo ouvir uma palavra comum, do vulgo e do vago dos dias, por questões além da nossa compreensão, exatamente naquele momento, estranha. Sem qualquer explicação, acha aquela palavra diferentona, dissonante, sem razão der ser ou estar. Sem um quê teórico que a valha, questiona a etimologia, a grafia, a tônica, a sonoridade, a incompreensível existência daquela palavra no mundo das relações verbais... Todas as intransigências emergem nessa hora, e a gente se inquieta por ali e pelos dias adiantes, na desconfiança...

Aconteceu comigo. Depois daquele inusitado curto circuito, desarrazoado de juízos e medidas, o buraco para mim, é sempre mais embaixo.

Fazia um trabalho de descrição de solo, em poços de inspeção. Tudo que via, tinha que registrar, mas o que exigia zelo e detalhamento era a ocorrência de buracos nas paredes do poço. Um item delicado por causa da dinâmica da água subterrânea. Pode indicar potencial de contaminação de mananciais urbanos e também de fuga indesejada de água, no caso de barragens ou diques.

Desci no poço, na boa, fiz as paradas nos horizontes orientados, caderneta e lápis na mão, tudo anotadinho, quando, eita eita, deu-se o tilte. Vi a marca na parede, sondei. Identifiquei. Quando fui descrever, simplesmente travei. Não compreendia uma palavra na língua portuguesa tão deselegante, tão despudorada. “Buraco!” Não. Não poderíamos ter produzido um termo de expressão tão impactante, que me chegava tão mal ao toutiço. Naquele momento não vi estética, nem arte, nem futuro, muito menos simetria linguística entre mim e o buraco. Por um momento, estacionado em um andar do poço, paralisado, caderneta na mão, pressão para terminar aquele trabalho, não conseguia dar sequência à minha atividade porque encasquetei com a palavra ‘buraco’. Num repente de despressurização, em uma tentativa de reconciliação comigo e com o mundo construído à base de erros, acertos e subversões, rabisquei na minha caderneta algo como “observada a ocorrência de ‘boracos’, na parede norte” e coisa e loisa, mariposa. Meu coração acusou um alívio, a alma desceu para o chão da realidade. Estava de bem comigo mesmo e com a minha capacidade de lidar com bugs linguísticos. Sei que aquela foi uma ação preconceituosa, intolerante. Negava ali as palavras como elas efetivamente são e o quanto contribuem, resistentes e indultadas na vocal, para a nossa evolução enquanto seres humanos limitados e metidões a besta. Foi porém, uma alternativa, senão ainda estaria em transe ali dentro daquele poço, que no final das contas, era um inofensivo e técnico buraco cavado no solo.

Superei esta incompatibilidade gratuita com o buraco. Hoje nos acertamos. E admito uma certa cumplicidade entre a gente. Embora a desconfiança não nos deixe e produza boas pautas.

O humorista Gregório Duvivier é artista que pauta o amplo espectro da língua num monólogo de abraços, transes, inconformismos semânticos, desafetos estéticos e declarações de amor pelo nosso bom e amigo português nas suas mais variadas coordenadas espaciais e temporais. Tira onda, corta e ara na familiaridade com a língua, num espetáculo de quase duas horas carregado de humor. Meu ídolo maior, Luís Fernando Veríssimo também era craque na reflexão sobre nossos conjuntos lexicais. Para mim, se supera na crônica “Defenestração”, um clássico no domínio dos significados e significantes.

Fui ver a peça, e a seguir, na entre amigos, me liguei ao io do Veríssimo e  ao chio de Duvivier, ilustrei a prosa contando que no bojo deste tema, também já me insinuei em umas crônicas metalinguísticas. Pera! “Insinuei!” Agorinha bateu que nem da vez com o supracitado buraco. Eita... As desconfianças... O tilte. O insinuante e desarrazoado curto circuito. Reinei trocar vogais.  

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

crônica remix - live earth

 Live Earth

Se for para salvar o planeta, pode contar comigo pra tudo.

Mas tem que mudar o idioma.

Não é por nada não. Mas Terra, em inglês, não tem combate. Para mim é uma palavra indizível, impronunciável, inarticulável (e ao mesmo tempo, silenciosa, tímida, perigosamente inexata). Duvido que um falante aqui das nossas bandas, com o conjunto de suas cordas vocais no lugar, tudo bem direitinho, afinadinho, acostumado a respeitar a forma e o conteúdo de vogais e consoantes, consiga pronunciar a palavra Terra em inglês sem correr o risco iminente de ter uma síncope por falta de respiração. Duvido.

No mínimo, vai passar por um cruel constrangimento.

Ô palavrinhazinha difícil de pronunciar. Não acredito que alguém, mesmo neste mundo americanizado, digo, globalizado, se desenrole na boa em uma prosa, quando entra na parada a tal da ‘earth’. Para mim, acaba o papo aí mesmo. Até porque não acho que uma palavra que tem duas vogais juntas capitaneando o som possa conter a força do discernimento.

Pior não é nada, depois, o indisciplinado vocábulo, mesmo amparado num desenxabido érre, na seqüência, não desata. Fica no mesmo lugar. E, quase desfalece, quase que desaparece no espaço das ondas sonoras, no final, quando se apega num tê-agá pra tirar a bronca. A fonética, lá deles, ainda complica pregando que este tê-agá tem som de éfe. Assim, não propaga. Não propaga! Para mim, a palavra quando me chega pelas ondas globalizadas, em vez de me levar à segurança, aos encantos e aos mistérios de nosso planeta, parece representar mais uma situação de inquietante instabilidade. Antes que uma palavra, earth, para mim, parece mais um espasmo. Um soluço. Um desacerto na respiração, que seja.

O nosso planeta, em inglês, me chega indeciso, indefinível, com sérios problemas de identidade (mas como então já, um tê com som de éfe...Ainda mais!)

Tá bom, tá bom. Tô sendo injusto. Tô sendo parcial. Quero porque quero mudar o idioma da resistência ecológica porque sou anti-americano, anti-isso, anti-aquilo, anti-aquil’outro. Então vai lá, vê se cola: a gente, no calor da luta, como um bom falante da última flor do Lácio, acostumado com um Tesão ali, firme, decidido, fortalecendo, encorpando, dando graça à nossa Terra. Vamos nós, lá no furdunço de uma manifestação de protesto lá pelas terras geladas de Davos, gritar uma palavra de ordem assim ‘save the earth, ‘save the earth’. Mas quando que rola! Vão é trazer oxigênio pensando que já somos umas das sofridas vítimas do aquecimento global. Vão pensar que estamos tendo um piripaque. Que estamos lá só arfando, agonizando. O coro não dá o grau da indignação. Em inglês, não pinta o clima de revolta.

Agora, se a gente der uma levada latina...valorizando o Tê linguodental (daquele jeito como em tacacá, tipiti, vatapá, matapi. Daquele jeito, fiel ao som da letra, como prevê a estimada fonologia brasileira) já era: Seria uma coisa assim, do tipo “ salve a Terra’, ‘salve a Terra” ou ‘Tierra’, mesmo, vá lá que seja. Aí sim, aposto como o Bush logo, logo não ia se aviar para assinar o tratado de Kyoto (e outros tantos que houvessem).

Live Earth foi um evento realizado no início de julho com o objetivo de chamar a atenção para o problema do aquecimento global.

Achei bacana a idéia

Se for para salvar o planeta, pode contar comigo pra tudo.

Mas tem que pôr legenda.

Olha, não é querer falar mal da língua de ninguém, mas, Terra, em inglês, para mim é uma palavra indizível, impronunciável, inarticulável (e ao mesmo tempo, silenciosa, tímida, perigosamente inexata).

 

 

 

sábado, 7 de fevereiro de 2026

crônica da semana - rosquinhas de Abaeté

 Rosquinhas de Abaeté

A uma atenção e outra para os autógrafos, passava o pano no ambiente. Notava uma disposição, uma ocupação do espaço que lembrava de alguma forma uma pintura daquelas famosas retratando encontros ou mesmo pequenas aglomerações. Uma cena entre moderna e renascentista. Prosas nucleadas, pertinentes cada uma a seu cada qual de afinidades. Ali, o grupo dos aquilatados jornalistas; acolá, a militância política, social e minha turminha salesiana; adiante, a família e meus companheiros das lidas operárias; um pouco além, o saber acadêmico e os fiéis leitores. Todos reunidos naquela sexta chuvosa de lua cheia para dar aquele peso emocional ao lançamento do meu nono livro de crônicas. Sobre a mesa onde fazia os autógrafos, os livros disponíveis. E uma terrina até a borda de rosquinhas de Abaeté.

Era promessa de campanha. Nos convites divulgados para a sessão de autógrafos, me comprometi com um pequeno coquetel em que os atrativos principais seriam o velho e sentimental Q-suco de groselha e um punhado de rosquinhas de Abaeté. Resultou que a ideia do açucarado e colorido refresco foi, em boa hora, descartada por questões de novos hábitos e também porque, nesses outros tempos acho que nem existe mais no mercado (pelo menos eu, em favor das dietas, não tenho feito procuração). Agora, os circulinhos de massa salgada, afamados e queridos, que têm o sistema de geração e produção creditado às terras abaetetubenses, estes fizeram a alegria dos presentes.

A proposta de inserir as rosquinhas no cardápio da merenda que programamos à guisa de um coquetel veio como uma reverência, sinal de respeito a este acompanhante essencial que tive sempre comigo nas quantas travessias que fiz da baía do Guajará. O produto é vendido à larga no atacado, em barracas e bancas específicas, diria até, especializadas, não é em qualquer banca não, do Ver-o-Peso. Mas tem uma função social imensa mesmo, quando vendido em pequenas porções pelos ambulantes em sedutoras embalagens transparentes, na hora do embarque para a travessia.

Já foi meu almoço.

As rosquinhas me deram valência na broca várias vezes. Principalmente numa fase extremamente afogueada que passei durante o período que morei em Barcarena. Meu dia contava muito mais que 24 horas. Tinha vez, que nem de comer tinha tempo. Nessa época eu me dividia em várias personalidades. A maioria das vezes, eu era operário. Uma parte, pai de família e cidadão do bem. Em outra, dirigente sindical dos mais agendados e, entremeando tudo, estudante temporão do curso de Geologia na UFPA. E sim, sim, escritor. Já tinha a coluna aqui no jornal. A conta do espaço e do tempo não fechava.

(Aí eu me vejo, hoje, diante de um debate ordinário sobre meritocracia e outras asneiras, capitaneado por ungidos que não têm ideia do que seja uma jornada noturna de trabalho. Essa gente não sabe o que é um couro!).

Havia uma sequência especial de dias que era particularmente desgastante. Acontecia a partir de duas jornadas noturnas que eu completava no trabalho. Aproveitava e durante o dia, me mandava pra UFPA. Era tempo certo de assistir às aulas da manhã e que eu tinha pouca chance de frequentar. Isso resultava em mais de 36 horas sem dormir direito, naquele picado do sono agoniado e cheio de sustos, e ainda, se tornava uma virada que me fazia comer pouco. Nessa aventura, como eu tinha que correr e dar adiantos, saía voado da aula. Quando chegava no Veropa pra atravessar, dizque já almoçava por ali. O menu: um saquinho de rosquinhas ou um completo no JR ou ainda, cinco pupunhas. Comia rápido e me avexava para dormir um picadinho na viagem, porque do outro lado, outra missão me esperava.

A rosquinha e Abaeté durante um tempo cumpriu a função psicológica, nutricional que me proporcionou chegar, na sexta-feira passada, ao meu nono livro. A terrina têi têi, ali na mesa compôs com brilho aquela cena meio moderna, meio renascentista

sábado, 31 de janeiro de 2026

crônica da semana - amor impresso

 Amor impresso

Amar a cidade significa também, enfeixar razões que creditem à Belém motivos de sobrevivência e formação de personalidade.

O meu feixe se compõe a partir daquela visão (inesquecível) das torres do mercado de ferro do Ver-o-Peso, quando despontamos no horizonte da baía do Guajará, depois de uma fantástica viagem do rio Acre até aqui.

E foram tantas as interações, incontáveis e incríveis os aprendizados em Belém! Com o tempo, o DNA da cidade foi se acomodando em mim, meus compartimentos foram criando forma ante esta planície úmida, desafiadora, cativante.

Uma definição de como me vejo hoje, e como o amor entre mim e a cidade se atualiza, começou a tomar jeito mesmo, ali pela metade da década de 70, no condado da Mauriti. Era o tempo de olhar o mundo e pensar no futuro. Nesse período, penso que iniciei meu processo de tomada de consciência. Mirei para um sentido e uma conivência com Belém. Este movimento resultaria no que hoje realizo como arte. Minha arte é, nos indos e nos vindos, nos modos e termos, nos cantos e recantos, um dengo à cidade; o que produzo de literal ou sentimental, mesmo que às vezes aparente ser uma peça distante, ou descolada da minha Belém, é, tenho plena certeza, a reiterada confissão de minha paixão por esta terra. Ainda que anuviada pelas metáforas da vida, minha palavra tem sempre a missão de homenagear, de reverenciar esta cidade que me seduz, me mundia, me inspira e que a cada dia me convence que aqui, aqui é o meu lugar.

Houve de naquele tempo, quando o futuro se desenhava nos horizontes da Mauriti, havia um movimento expressivo no trecho que eu morava. Tínhamos as patotas. Já à época eu fazia as minhas classificações. Havia a turma dos grandes. Era o grupo que já se adiantava na idade. Exibiam a voz já definida, facultavam-se ter barba. Uma parte já namorava de porta. Organizavam reuniões embaixo da castanhola, não todo dia, que fazia as vezes de confessionário. Em combinas especiais marcavam competições elaboradas de petecas. Coisa grande. Duzentas, trezentas petecas no triângulo, o que no final nunca produzia um vencedor. As partidas terminavam sempre na algazarra do ‘alaúça’. Eles mesmos avacalhavam. Vez ou outra formavam na bola da tarde nas disputadas peladas da Marquês. E quando eles iam, era muito firme!

No outro extremo, tínhamos a petizada. Os pequenos da Aparecida, do Donatila. A criançada. Estes não apareciam sob a castanhola. A mãe não deixava. Orbitavam os outros grupos com discrição. Ficavam mais na deles, brincando de pira alta, pira s’esconde e fura-fura neném, nos terrenos baldios agregados às vilas ou invadiam os quintais pelos buracos das cercas.

A minha turma era aquela intermediária. Adolescentes, voz rouca, hormônios por acolá. Já ganhávamos o mundo sozinhos para bater bola no gramado da Duque ou nas areias infindáveis do Areal. Da sombra da castanhola, apreciávamos com indisfarçável interesse, as meninas passarem para o Justo. Batíamos ponto toda noite na frente do Paraíso para entabular vulgares conversas, e desafiar a sisudez da madame que controlava a roleta do cinema, com afrontosas gaiatices. Deu-se que fui pra Escola Técnica, outros migraram para o segundo grau em outros bairros. Nos deparamos com a diversidade, outras realidades além da Pedreira. De nossas experiências, passamos por aquela fase em que todo mundo queria inventar uma moda bandeada para a criação artística. O violão foi a febre da rua. Grassou desafinado, passou. Eu me dei com a coisa da arte. Na ETFPA, um mundo de opções se abriu para mim. Os livros da biblioteca, o teatro do Barradas, a banda do Nery Filho. Um dia, fiz um poema...

Anos mais tarde, escreveria minha primeira crônica nascida, listada e catalogada em Altamira. Falava sobre... a saudade de Belém. Por agora, outros tantos anos além, ontem até, observo, lancei meu nono livro individual de crônicas.

Meu amor por Belém, impresso.

sábado, 24 de janeiro de 2026

crônica da semana - calçada partilhada

 Calçada partilhada

Uma perda, meu pai! Deixamos a frasqueira com parte da nossa aviação para aquele passeio, dentro do táxi...

Amar Belém, hoje em dia, também significa ter intimidade com seus estirões e ter jeito de corpo pra contornar encalacres, desfazer anuviamentos e certeza de perdas lá pr’acolá praquelas bandas que não são as nossas. Por agora, temos a internet, os aplicativos de localização, ônibus indo e vindo. Em tempos atuais, nos achamos fácil, no amor.

...Nem sei com que posses e decisões, mamãe arrumou aquele passeio pro Guamá. Tinha mesmo uma amiga que morava por lá. Vibrava na sintonia de mamãe. Era da marretagem. Vivia sozinha com a filharada, se virava no empreendedorismo de rua e contava sempre com as amizades que fazia pelo caminho. Lembro dela muito claramente e me vem o detalhe de ter sido das primeiras mulheres que conheci, dada a colorir os cabelos com cores outras se não aquela natural. Era desprendida. Moderna. A batidinha dela era aqui pela Pedreira. Tinham negócios juntas. Coisas ali da parte de vendas e cobranças. Deu-se então que dessa vez, convidou mamãe e toda a tropa pra passar um dia na casa dela. Concentramos na missão. Mamãe reservou o numerário (pro táxi e outras precisões), fez uma comprinha básica no Sandra, nos pôs todo mundo na pinta, com nossas melhores peças de roupa, deu o beabá do comportamento e nos largamos para o Guamá.

A casa era numa daquelas ruinhas que varam no rio. A amiga esperava a gente num ponto combinado. Descemos do carro, o motorista deu a partida e nos ajeitamos para atravessar a rua. Naquele instante, sentimos a falta da frasqueira (ai, meu Deus, a frasqueira!). Era uma provisão boa para o dia. Até suco em pó tinha. Lamentamos, pesamos o prejuízo, mas no repente, a amiga nos animou dizendo que o táxi voltaria por ali, na mesma pisada. Não tinha como passar adiante dos limites da UFPA. Aquele trecho estava interditado para o término da construção da Perimetral. Voltar para a Pedreira só pela José Bonifácio mesmo.

Amar a cidade é se encontrar no espaço e no tempo. E recuperar a frasqueira perdida do banco detrás do Aero Willys. Segundo o chofer, ele nem maldou que tinha alguma coisa ali atrás.

O Guamá foi a minha primeira experiência nos longes da Pedreira. Aquele passeio me mostrou a extensão do meu território. E também que, assim como na Pedreira, aquela parte da cidade era minada de pontes. A casa da amiga da mamãe era na beira da rua, mas montada sobre estacas em plano elevado pra se livrar dos humores do rio Guamá ali ao pegado. Passamos o dia brincando dentro da casa porque não tinha terra firme na rua que garantisse qualquer diversão. Amar a cidade é se entregar a sentimentos de amizade, de cumplicidade e superações. A amiga da mamãe era uma lutadora. Não tinha marido ou apoio da família. Tínhamos desafios em comum. Passamos o dia lá no Guamá. Folgamos pacas. Consumimos com gosto tudo que levamos na frasqueira e mais ainda o que a amiga tinha preparado para nós. Amar a cidade é se irmanar nas boas lembranças, Guamá.

O traçado final da Perimetral foi concluído ali pelo ano de 1973. Eu era um molequinho bem gito à época. Só andava pras partes com a mamãe.

Dia desses, fui dar uma volta pra’queles lados da Augusto Montenegro. Como mudou tudo ali. Sou do tempo que a Augusto Montenegro nem era asfaltada. Bem mais taludinho, desbravei com meu time do Internacional da Mauriti, o longe da cidade oposto ao Guamá. Completava, no meu mapa sentimental, a ampla territorialidade de Belém que me cativa até hoje. Naquela época, palmilhávamos a Augusto Montenegro uns tantos quilômetros, só para jogar bola. Quando tínhamos jogos em lugares diferentes, tirávamos o estirão entre um campo e outro, no pé.

Amar a cidade é também se indignar por não poder tirar um estirãozinho assim no pé, na Augusto Montenegro, hoje, nem pela calçada. As motos, e até mesmo os carros, não deixam

sábado, 17 de janeiro de 2026

crônica da semama - seu mindinho

 Maior de todos, seu mindinho e o fura-bolo

Vai da conta do pelo dito e do pelo certo de, no janeiro de cada ano, eu me cuidar, me ajeitar na cadeira, passar um talco, um extrato, fazer o pelo sinal, pedir a companhia dos mais inspiradores Orixás, da nossa Santinha, dos cândidos anjos, e procurar as justas palavras produzidas nas combinações possíveis aqui do meu teclado e do meu cocuruto para escrever sobre Belém (também conhecida como ‘capital paraense’ ou ‘capital do Estado’). Palavras que abraçam, acariciam, fazem dengo. Alertam.

É o mês de aniversário da cidade. Uma data de um simbolismo imenso. Um 12 de janeiro que se estende desde antes e que vai bem além no mês, animando aquele orgulhosinho belemense, potencializando afetos, mimando a cidade. Reivindicando cidadania.

Venho então, tareando aqui e ali, em direções diversas. Elogiei, fiz versos, declarei amor, critiquei, revelei esperanças de dias melhores para a cidade. Ocorreu em um ano aí, que foi bem bacana. Explorei a urbanização desta minha Pedreira querida. Fiz um traçado temporal e localizei lá atrás um bairro minado de áreas alagadas. Era um tempo em que as casas ficavam em cima dos cursos d’água ou mesmo erguidas nos arredores alagados. As ruas e passagens eram formadas por pontes de madeira, muitas vezes instáveis, apodrecidas e inseguras. Um cenário que gerava ações absurdamente populistas como políticas públicas, tais como as urgentes ‘reformas das pontes’. Prefeitos regozijavam-se por entregarem à população estirões sem fim de estivas com aquele cheiro azedo de madeira nova descascada.

Conta-se a altura de um mindinho projetado ali pras lonjuras da Guajará, lá onde o rio encontra o céu, o salto que Belém deu em benefícios urbanos, desde o agrado daquelas pontes talhadas defronte das nossas casas. Certo é que ainda temos carências estruturais e principalmente no campo do saneamento básico, caso contrário, nossa medida não seria o mindinho e sim, o maior de todos. Temos muito a dedilhar.

O bolo de aniversário, independente do populismo da vez, deve ser cortado às ligeirezas, sob a pressão de uma chuva fina de Janeiro, com o Ver-o-Peso ao fundo ou mesmo em nossa imaginação; e um fura-bolo se adiantando no meio dos outros, para aquela famosa prova.

Residem cá dentro de nós, as motivações, os íntimos prazeres, as expectativas modestas, as lembranças pueris, as aventuras diárias que justificam o que, ao vento, declaramos como nosso amor por Belém. Vai da gente.

Por mim, sou da parte das lembranças. Apegado sou e apegado me assumo, a uma Belém lá detrás. Essa é forte. Imbatível. Domina todo meu arrazoado de afetos. Venho de uma Belém construtora e se construindo de mãos dadas com seu povo. Uma cidade cheia de cantinhos enriquecidos de significados. Em cada espaço admirado, vivido, uma paixão...Um encanto, um revinventar histórico, uma ratificação de valores essenciais, fundamentais para nossa formação como amantes de Belém. Olhando para trás, admito que os meios procuraram e ainda perseguem os fins neste presente possível que vivemos e no futuro de toda sorte desafiador que temos à frente. Fazemos por onde quando nos reconhecemos como nos construindo junto com a cidade, em nossos ésses chiados, nos tacacás d’tardezinha, em apertados nas ruinhas do centro nos período de festas, em pores do sol à beirada da baía, em ousados chamegos breados de terra úmida da planície. E quando nos entregamos a este amor que tanto alardeamos. Assim, fazemos juras para que, mais adiante, a nossa medida seja feita pela projeção ao longe horizonte, do maior de todos.

Deixa estar que eu, vicici em atavismos, quedo-me às paixões do presente e, pelas combinações do teclado, intento explicar as formas comuns de amar a cidade. Aceito a ideia de rever posição, desgrudar dos idos, fitar à frente, desejar e lutar cada vez mais por uma Belém, que na justa medida ao horizonte, se eleve amada.

sábado, 10 de janeiro de 2026

crônica da semana - amigo é pra essas coisas

 Amigo é pra essas coisas

A gente se mete em cada uma, né, que parece duas. E a parada é variável, pode ser mais ou menos traumática, quando vem da amizade, ou que seja, quando reflete o grau, o limite da amizade. Vem da parte das harmonias na convivência, dos entendimentos, das ações e das concessões no trivial e ordinário que se operam no convívio.

Famoso aquele caso de dois amigos que partilhavam o almoço. Dois bifes são servidos. Um bifão e um bifinho. Na hora de comer, um deles se avia e fisga o bife maior. O outro se manifesta em educada indignação. Aquele um, desprovido de culpas, tenta reverter o incômodo e pergunta ao outro qual dos dois bifes escolheria, caso fosse o primeiro a se servir; no que o outro, conscientemente responde: o bife menor. Então, justifica aquele um, fica o teve pelo não teve, o dito pelo não dito, a certeza pela incerteza. Peguei o bifão que na certa, no indo e no vindo, seria meu. Sem crise na amizade.

Este é caso batido nas prosas de bar, principalmente na hora dos petiscos, mas que revela o domínio, o conhecimento do calibre de cada um. Diz sobre a tolerância, embora evidencie arroubos circunstanciais compulsórios, do amigo menos guloso, só pra dizer mesmo, pra fazer uma cena. Só para provocar o outro, mas sem intransigir, sem arengar. Reconhece, e lhe é sabida a verdade. Não seria capaz de dar conta do bifão. Isso é amizade sedimentada. Cultivada e vivida nos detalhes. As ações são realizadas para abonar o alcance no controle de caráter e das dimensões do estômago de cada um.

Mas tem ocasiões que, embora ela exista, a gente nem percebe a boa intenção.

Foi numa noite morninha, em Porto Velho. Era um feriado religioso, todo mundo da nossa turma que morava na cidade, estava nas desobrigas. Nós, eu e um amigo do trabalho, não. Estávamos de boa. A fim de aproveitar nossa folga de dois dias na capital. Era comum, todo mês, durante a folga, a gente virar, mexer, pintar os canecos pelos claros e além deles, pelos escurinhos da cidade.

No adiantado da noite, estávamos era no modo ‘escurinhos’, já que para a parte dos claros sociais não apareceu ninguém da patota. Nos batemos para um bar tradicional, caracterizado pelo detalhe de ser a opção de fim de noite. Todas as tribos baixavam lá na alta madrugada. Quase um deserto, se comparado aos dias foguentos fora dos recatos religiosos. Pouca gente. Ocupamos uma mesa, pedimos uma bebida e nos demos apreciar o pouco movimento. Duas pequenas chegaram, puxaram uma prosa. Comentaram que a cidade costumava mesmo respeitar aquele dia santo. Quem saía para a noite era somente a tribo de empedernidos e nós que vivíamos no mato e tínhamos a folga justo na época da penitência. Papo vai, papo vem, a animação com os petiscos, a bebidinha, a música, alguém sugeriu: vamos dançar!

É nessa hora que a gente conhece os amigos, afere o grau de empatia e consideração. Tinha uma garota do meu top e outra bem mais alta, na parelha do meu amigo. Pois ele não pegou foi a pequenina e saiu a riscar o salão, ficando a menina grande pra mim. Ah, sacrista! Eu imaginei a cena. Eu, com o meu desnivelado metro e cinquenta, marcando um som do Nonato do Cavaquinho com uma parceira que dava duas de mim. Nem me levantei. Dei uma desculpa, fechei a cara, emburrei e reinei foi logo ir embora. Pra desopilar, puxei uma prosa fácil com a pequena, e acabamos nos animando na mesa, sem dançar mesmo.

Duas ou três partes depois meu amigo voltou, queixou-se de uma dor no joelho e decidimos encerrar a noite.

No caminho para casa, me percebendo chateado, explicou que fez aquela ‘distroca’ com as meninas porque sabia que eu poderia me assanhar, ele realmente estava com dor no joelho, queria voltar pra casa, mas não queria que eu ficasse só com quem mal conhecíamos, num bar onde baixava todo mundo. Pra adiantar, provocou a zanga.

É aquilo, a parada é da parte das ações e das concessões nas penitentes noites mornas.

 

 

 

sábado, 3 de janeiro de 2026

crônica da semana - chove não me molha

 Chove não me molha

Deixa eu cravar a minha marca de cronista e registrar logo que no dia de Natal, 25 de dezembro de 2025, não choveu na grande Belém, deu-se o contrário, até abriu um solzinho do meio-dia em diante que se pôs na maior beleza escarlate, no horizonte lá pra de’tardezinha. Agora, na véspera, dia 24, foi aquele pinga-pinga, aquele puxa-encolhe o dia todo, e pra banda da noite se estirou num pampeiro federal. As ceias natalinas foram, sem dúvida, salpicadas de bênçãos úmidas.

Bem anotadinho fique para não acontecer o que aconteceu na noite de Natal. Todos em nossa reunião de família prestaram reparo naquela chuva caindo di’cunforça. Calhei de dizer que era normal, exatamente nestes entremeios natalinos, chover. Choveu foi mina de negação. Algumas opiniões certificavam que há anos não se via chuva deste calibre nos contornos do 25 de dezembro. Reinei provar por a + b que não era verdade e que iria buscar nas minhas anotações de cronista, provas de que a semana do Natal é por natureza e tradição, chuvisquenta. Dei foi com os burros n’água, cheirei na vara do batista. Não achei publicação nenhuma minha que dirimisse a dúvida do choveu-não-choveu, nos últimos natais. Um deslize imperdoável para um cronista que dá muita atenção a essas artes do clima, ainda mais por agora, em tempos de distúrbios globais. Esse ano de 2025 que se vê agora pelo retrovisor, está registrado. Choveu às pampas na véspera e aí, no dia 25, o tempo ensaiou, fez graças e arremedos, mas não caiu uma gota.

Para mim, é uma questão de honra situar no tempo, nossos traços culturais, naturais, nossas reações e vivências. Tanto que, no meu próximo livro, onde reproduzo crônicas que suscitam juízos temporais, faço questão de datá-los. E a chuva nossa de cada dia tem um espaço de destaque nas minhas composições. Bom, menos uma arenga para o ano novo.

Quem me dera, meu bom pai, que a gente inticasse um com o outro plena noite de Natal somente por causa de uma discordância factual situada nos dezembros plúmbeos da vida. Os ânimos estão é agitados. A convivência social tem se tornado antessala da discórdia. Por agora, até o vermelho da roupa do papai Noel resulta em jura de mal a morte entre membros das famílias mais tradicionais e outrora consideradas unha e carne, daquelas que nada desunia.

Qualquer deslize, mínima sugestão ou lampejo de tese é motivo capital para que se capitalizem beligerâncias e contra-ataques. Para melhor segurança, entre os nossos, e tantos outros pares, recomenda-se, nos tempos atuais que a gente pise em ovos nos caminhos que se nos apresentam compulsórios e compreendam temas de interação que não sejam inocentes discorrências sobre chuva intermitente ou dezembros.

Caso a mim me fosse dada a graça de controlar o tempo, na certa optaria por um dia 25 de dezembro varado por aquela chuvinha, vá lá que seja, em outras épocas, tida como a regra meteorológica do dia de Natal. Quereria um dia de Natal entorpecido, alçado ao limbo da morrinha, da ressaca e do RO. Sem chacoalhos domésticos, ou alaridos na rua. De agito, só a criançada desbravando corredores e os cômodos aquietados da casa com os brinquedos que ganharam de presente. Um dia se realizando naquela mansidão, em nevinha paraense caindo lá fora, e vindo refletir na irrigação necessária, do meu coração.

Não choveu no dia de Natal. Na véspera, choveu de entrar pela noite. Está registrado o fato. Sem zanga, sem débito nas gentilezas ou nos afetos.

E Quem me dera, meu bom pai, que a gente inticasse um com o outro somente por causa de vazios doces e de desidratados conflitos. E que tudo ficasse somente na superfície impermeável da contenda do chove-não-me-molha. Quem me dera!

E sim, sim, que um solzinho se abra de quando em vez, e no final das tardes se esconda pra’li, pras bandas da baía, no colorido que mais bem lhe parecer. No contestado rubro matiz do papai Noel, que seja.