sábado, 3 de janeiro de 2026

crônica da semana - chove não me molha

 Chove não me molha

Deixa eu cravar a minha marca de cronista e registrar logo que no dia de Natal, 25 de dezembro de 2025, não choveu na grande Belém, deu-se o contrário, até abriu um solzinho do meio-dia em diante que se pôs na maior beleza escarlate, no horizonte lá pra de’tardezinha. Agora, na véspera, dia 24, foi aquele pinga-pinga, aquele puxa-encolhe o dia todo, e pra banda da noite se estirou num pampeiro federal. As ceias natalinas foram, sem dúvida, salpicadas de bênçãos úmidas.

Bem anotadinho fique para não acontecer o que aconteceu na noite de Natal. Todos em nossa reunião de família prestaram reparo naquela chuva caindo di’cunforça. Calhei de dizer que era normal, exatamente nestes entremeios natalinos, chover. Choveu foi mina de negação. Algumas opiniões certificavam que há anos não se via chuva deste calibre nos contornos do 25 de dezembro. Reinei provar por a + b que não era verdade e que iria buscar nas minhas anotações de cronista, provas de que a semana do Natal é por natureza e tradição, chuvisquenta. Dei foi com os burros n’água, cheirei na vara do batista. Não achei publicação nenhuma minha que dirimisse a dúvida do choveu-não-choveu, nos últimos natais. Um deslize imperdoável para um cronista que dá muita atenção a essas artes do clima, ainda mais por agora, em tempos de distúrbios globais. Esse ano de 2025 que se vê agora pelo retrovisor, está registrado. Choveu às pampas na véspera e aí, no dia 25, o tempo ensaiou, fez graças e arremedos, mas não caiu uma gota.

Para mim, é uma questão de honra situar no tempo, nossos traços culturais, naturais, nossas reações e vivências. Tanto que, no meu próximo livro, onde reproduzo crônicas que suscitam juízos temporais, faço questão de datá-los. E a chuva nossa de cada dia tem um espaço de destaque nas minhas composições. Bom, menos uma arenga para o ano novo.

Quem me dera, meu bom pai, que a gente inticasse um com o outro plena noite de Natal somente por causa de uma discordância factual situada nos dezembros plúmbeos da vida. Os ânimos estão é agitados. A convivência social tem se tornado antessala da discórdia. Por agora, até o vermelho da roupa do papai Noel resulta em jura de mal a morte entre membros das famílias mais tradicionais e outrora consideradas unha e carne, daquelas que nada desunia.

Qualquer deslize, mínima sugestão ou lampejo de tese é motivo capital para que se capitalizem beligerâncias e contra-ataques. Para melhor segurança, entre os nossos, e tantos outros pares, recomenda-se, nos tempos atuais que a gente pise em ovos nos caminhos que se nos apresentam compulsórios e compreendam temas de interação que não sejam inocentes discorrências sobre chuva intermitente ou dezembros.

Caso a mim me fosse dada a graça de controlar o tempo, na certa optaria por um dia 25 de dezembro varado por aquela chuvinha, vá lá que seja, em outras épocas, tida como a regra meteorológica do dia de Natal. Quereria um dia de Natal entorpecido, alçado ao limbo da morrinha, da ressaca e do RO. Sem chacoalhos domésticos, ou alaridos na rua. De agito, só a criançada desbravando corredores e os cômodos aquietados da casa com os brinquedos que ganharam de presente. Um dia se realizando naquela mansidão, em nevinha paraense caindo lá fora, e vindo refletir na irrigação necessária, do meu coração.

Não choveu no dia de Natal. Na véspera, choveu de entrar pela noite. Está registrado o fato. Sem zanga, sem débito nas gentilezas ou nos afetos.

E Quem me dera, meu bom pai, que a gente inticasse um com o outro somente por causa de vazios doces e de desidratados conflitos. E que tudo ficasse somente na superfície impermeável da contenda do chove-não-me-molha. Quem me dera!

E sim, sim, que um solzinho se abra de quando em vez, e no final das tardes se esconda pra’li, pras bandas da baía, no colorido que mais bem lhe parecer. No contestado rubro matiz do papai Noel, que seja.

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