sábado, 17 de janeiro de 2026

crônica da semama - seu mindinho

 Maior de todos, seu mindinho e o fura-bolo

Vai da conta do pelo dito e do pelo certo de, no janeiro de cada ano, eu me cuidar, me ajeitar na cadeira, passar um talco, um extrato, fazer o pelo sinal, pedir a companhia dos mais inspiradores Orixás, da nossa Santinha, dos cândidos anjos, e procurar as justas palavras produzidas nas combinações possíveis aqui do meu teclado e do meu cocuruto para escrever sobre Belém (também conhecida como ‘capital paraense’ ou ‘capital do Estado’). Palavras que abraçam, acariciam, fazem dengo. Alertam.

É o mês de aniversário da cidade. Uma data de um simbolismo imenso. Um 12 de janeiro que se estende desde antes e que vai bem além no mês, animando aquele orgulhosinho belemense, potencializando afetos, mimando a cidade. Reivindicando cidadania.

Venho então, tareando aqui e ali, em direções diversas. Elogiei, fiz versos, declarei amor, critiquei, revelei esperanças de dias melhores para a cidade. Ocorreu em um ano aí, que foi bem bacana. Explorei a urbanização desta minha Pedreira querida. Fiz um traçado temporal e localizei lá atrás um bairro minado de áreas alagadas. Era um tempo em que as casas ficavam em cima dos cursos d’água ou mesmo erguidas nos arredores alagados. As ruas e passagens eram formadas por pontes de madeira, muitas vezes instáveis, apodrecidas e inseguras. Um cenário que gerava ações absurdamente populistas como políticas públicas, tais como as urgentes ‘reformas das pontes’. Prefeitos regozijavam-se por entregarem à população estirões sem fim de estivas com aquele cheiro azedo de madeira nova descascada.

Conta-se a altura de um mindinho projetado ali pras lonjuras da Guajará, lá onde o rio encontra o céu, o salto que Belém deu em benefícios urbanos, desde o agrado daquelas pontes talhadas defronte das nossas casas. Certo é que ainda temos carências estruturais e principalmente no campo do saneamento básico, caso contrário, nossa medida não seria o mindinho e sim, o maior de todos. Temos muito a dedilhar.

O bolo de aniversário, independente do populismo da vez, deve ser cortado às ligeirezas, sob a pressão de uma chuva fina de Janeiro, com o Ver-o-Peso ao fundo ou mesmo em nossa imaginação; e um fura-bolo se adiantando no meio dos outros, para aquela famosa prova.

Residem cá dentro de nós, as motivações, os íntimos prazeres, as expectativas modestas, as lembranças pueris, as aventuras diárias que justificam o que, ao vento, declaramos como nosso amor por Belém. Vai da gente.

Por mim, sou da parte das lembranças. Apegado sou e apegado me assumo, a uma Belém lá detrás. Essa é forte. Imbatível. Domina todo meu arrazoado de afetos. Venho de uma Belém construtora e se construindo de mãos dadas com seu povo. Uma cidade cheia de cantinhos enriquecidos de significados. Em cada espaço admirado, vivido, uma paixão...Um encanto, um revinventar histórico, uma ratificação de valores essenciais, fundamentais para nossa formação como amantes de Belém. Olhando para trás, admito que os meios procuraram e ainda perseguem os fins neste presente possível que vivemos e no futuro de toda sorte desafiador que temos à frente. Fazemos por onde quando nos reconhecemos como nos construindo junto com a cidade, em nossos ésses chiados, nos tacacás d’tardezinha, em apertados nas ruinhas do centro nos período de festas, em pores do sol à beirada da baía, em ousados chamegos breados de terra úmida da planície. E quando nos entregamos a este amor que tanto alardeamos. Assim, fazemos juras para que, mais adiante, a nossa medida seja feita pela projeção ao longe horizonte, do maior de todos.

Deixa estar que eu, vicici em atavismos, quedo-me às paixões do presente e, pelas combinações do teclado, intento explicar as formas comuns de amar a cidade. Aceito a ideia de rever posição, desgrudar dos idos, fitar à frente, desejar e lutar cada vez mais por uma Belém, que na justa medida ao horizonte, se eleve amada.

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