Amigo é pra essas coisas
A
gente se mete em cada uma, né, que parece duas. E a parada é variável, pode ser
mais ou menos traumática, quando vem da amizade, ou que seja, quando reflete o
grau, o limite da amizade. Vem da parte das harmonias na convivência, dos
entendimentos, das ações e das concessões no trivial e ordinário que se operam
no convívio.
Famoso
aquele caso de dois amigos que partilhavam o almoço. Dois bifes são servidos.
Um bifão e um bifinho. Na hora de comer, um deles se avia e fisga o bife maior.
O outro se manifesta em educada indignação. Aquele um, desprovido de culpas,
tenta reverter o incômodo e pergunta ao outro qual dos dois bifes escolheria,
caso fosse o primeiro a se servir; no que o outro, conscientemente responde: o bife
menor. Então, justifica aquele um, fica o teve pelo não teve, o dito pelo não
dito, a certeza pela incerteza. Peguei o bifão que na certa, no indo e no
vindo, seria meu. Sem crise na amizade.
Este
é caso batido nas prosas de bar, principalmente na hora dos petiscos, mas que
revela o domínio, o conhecimento do calibre de cada um. Diz sobre a tolerância,
embora evidencie arroubos circunstanciais compulsórios, do amigo menos guloso,
só pra dizer mesmo, pra fazer uma cena. Só para provocar o outro, mas sem intransigir,
sem arengar. Reconhece, e lhe é sabida a verdade. Não seria capaz de dar conta
do bifão. Isso é amizade sedimentada. Cultivada e vivida nos detalhes. As ações
são realizadas para abonar o alcance no controle de caráter e das dimensões do
estômago de cada um.
Mas
tem ocasiões que, embora ela exista, a gente nem percebe a boa intenção.
Foi
numa noite morninha, em Porto Velho. Era um feriado religioso, todo mundo da
nossa turma que morava na cidade, estava nas desobrigas. Nós, eu e um amigo do
trabalho, não. Estávamos de boa. A fim de aproveitar nossa folga de dois dias
na capital. Era comum, todo mês, durante a folga, a gente virar, mexer, pintar
os canecos pelos claros e além deles, pelos escurinhos da cidade.
No
adiantado da noite, estávamos era no modo ‘escurinhos’, já que para a parte dos
claros sociais não apareceu ninguém da patota. Nos batemos para um bar
tradicional, caracterizado pelo detalhe de ser a opção de fim de noite. Todas
as tribos baixavam lá na alta madrugada. Quase um deserto, se comparado aos
dias foguentos fora dos recatos religiosos. Pouca gente. Ocupamos uma mesa, pedimos
uma bebida e nos demos apreciar o pouco movimento. Duas pequenas chegaram,
puxaram uma prosa. Comentaram que a cidade costumava mesmo respeitar aquele dia
santo. Quem saía para a noite era somente a tribo de empedernidos e nós que
vivíamos no mato e tínhamos a folga justo na época da penitência. Papo vai,
papo vem, a animação com os petiscos, a bebidinha, a música, alguém sugeriu:
vamos dançar!
É
nessa hora que a gente conhece os amigos, afere o grau de empatia e
consideração. Tinha uma garota do meu top e outra bem mais alta, na parelha do
meu amigo. Pois ele não pegou foi a pequenina e saiu a riscar o salão, ficando
a menina grande pra mim. Ah, sacrista! Eu imaginei a cena. Eu, com o meu
desnivelado metro e cinquenta, marcando um som do Nonato do Cavaquinho com uma parceira
que dava duas de mim. Nem me levantei. Dei uma desculpa, fechei a cara,
emburrei e reinei foi logo ir embora. Pra desopilar, puxei uma prosa fácil com
a pequena, e acabamos nos animando na mesa, sem dançar mesmo.
Duas
ou três partes depois meu amigo voltou, queixou-se de uma dor no joelho e
decidimos encerrar a noite.
No
caminho para casa, me percebendo chateado, explicou que fez aquela ‘distroca’
com as meninas porque sabia que eu poderia me assanhar, ele realmente estava
com dor no joelho, queria voltar pra casa, mas não queria que eu ficasse só com
quem mal conhecíamos, num bar onde baixava todo mundo. Pra adiantar, provocou a
zanga.
É
aquilo, a parada é da parte das ações e das concessões nas penitentes noites
mornas.
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