O espírito do rio
Aquele
vuco-vuco acabou entrando para a minha memória como uma diversão, uma
inesperada folga nos costumes. Mesmo atinando para os medos e pareceres
assustados, achava legal aquela gente no meio da rua plena alta madrugada.
Muitos descontentes por pularem da cama, da rede ou dos braços da amada no
aperreado da pressa; outros desconfiados de que ainda coisa ruim poderia vir. Uma
banda mais séria que bode embarcado, sem entender nada. De certo, muitos
moradores testemunhavam a experiência. Este, zonzeira e anuviamento no
entressono; aquele, desequilíbrio no exato momento que se retirava aliviado da
retrete; aquel’outro, estranhamento por ver coisas e chão se mexendo do nada,
quando da visita à geladeira para tomar um gole d’água. Belém acabara de ser
atingida por um abalo sísmico. Eu não senti nada (mas no outro dia na escola
contei foi muita mentira. Fantasiei que só). Fui tirado do sossego no agoniado
do instinto de sobrevivência pela minha mãe. Zanzamos pelos escuros da Marquês
de Herval dos anos 70 por um tempo, como, acho eu, toda a população de Belém. Os
rádios ligados eram a esperança de notícias. Um noticiário do plantão
registrava a preocupação com o prédio mais alto da cidade. Havia relatos de
moradores do Manoel Pinto sendo evacuados só de pijama, dos apartamentos (Não
sei se foi verdade. Sei que desceram também para a rua). Todo mundo procurando
segurança no descampado das avenidas e praças. Burburinhos, diz-que-me-disse e
uma certeza entre os notívagos da Marquês. Foi um tremor de terra e já passou.
Aos poucos os moradores foram retornando. E eu, com uma vontadezinha de
usufruir mais um pouco o ar livre da madrugada...
Era
início dos anos 70, o clima político inspirava cuidados. Fenômenos eram
forjados, verdades ocultadas, milagre econômico anunciado sem uma prova sequer
de ser possível. Um bolo fazendo às vezes de galo duro de cozer, que dirá dividir.
Um tremor de terra, abalo sísmico que seja, teria a razão creditada aos
caprichos da divindade (foi porque Deus quis). Não tinha nem quê nem porquê de
acontecer nesta terra abençoada. E se aconteceu foi porque o Homi lá em cima
permitiu. Aquele balançado de terra seria um aviso.
Para
mim, chegado dos longes do Acre por aqueles dias, e com mina de invencionices e
histórias fantásticas a tiracolo, foi um isso para apimentar o cenário. Tinha
aquela herança dos ermos, a fácil explicação para tudo amparada nos mistérios e
nas crenças. (A minha invenção mais constante era a justificativa de ser tão
pequenininho, para a minha idade. Os moleques da escola não davam folga. Na
hora da fila, do menor para o maior, aproveitavam a escadinha para me bulinar.
E para me enfurecer mais ainda, se revezavam perguntando porque eu era tão
baixinho. No início eu até arranjava, com as palavras e versões que a idade me
permitia, uma justificativa pescada na genética, no calibre, nos hormônios...
mas depois de um tempo, me adiantava com um ‘porque Deus quis’ e pronto. Fechava
a cara, não dava mais papo. Quando me largavam de mão, eu me soltava e me
danava a contar causos do Acre. A chuva de peixe, a areia movediça do rio Ina,
os vampiros do seringal, o frio glacial que faz no Xapuri e as pedras
transparentes que calçam o leito do rio Acre). No dia seguinte ao terremoto,
ligeiro, eu acrescentei ao meu repertório uma razão para aquela tremedeira. Era
a água grande do Amazonas em combate com as margens, era o braço de águas pesando
sobre nossas ilhas baixas. Naquele início dos anos 70, a minha fantasia
mencionando a água grande errou por pouco.
A
Terra é um organismo que se realiza no equilíbrio. Ante qualquer alteração,
busca uma compensação. A quantidade extraordinária de água represada no lago de
Tucuruí sufocou o espírito do Tocantins. E de vez em quando ele se ajeita para
respirar sob a pressão daquele mundo de água. Por esses dias, se ajeitou. E a
terra tremeu por lá.