segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Conto da Danny

Garoto do café

Estava voltando do trabalho em uma sexta-feira comum. O entardecer estava frio e resolvi parar em uma cafeteria que ficava no caminho de casa. O engraçado é que eu passo por ali todos os dias e nunca tinha reparado nesse lugar tão bonitinho e aconchegante. A música do ambiente era Belle & Sebastian o que me cativou mais ainda e fiquei feliz porque o cara do balcão, que acabara de acenar para mim, gostava desse tipo de música. Estava atolada de trabalhos extras dentro da minha bolsa Louis Vitton vintage comprada em um brechó de Londres. Tirei da bolsa o livro que estava lendo “Mensagem” do Fernando Pessoa, o moleskine, uma caneta e comecei a ler, parando apenas para fazer pequenas anotações. O balconista resolveu trabalhar e veio me perguntar o que eu desejava. “Um cappuccino com canela, por favor”, respondi, mas ele ficou estático ao lado da minha mesa como se estivesse hipnotizado. “Um cappuccino com canela, por favor” repeti. E como se saísse do transe, o rapaz se afastou e voltou para o balcão. Depois disso, todas as vezes que tirava os olhos do livro, olhava para o balcão a fim de descobrir o motivo da demora do meu pedido, cruzávamos os olhares, eu e o garoto. Fiquei incomodada. Não gosto que pessoas desconhecidas fiquem me olhando muito atentamente.
Um cara alto de cabelos grisalhos entrou na cafeteria. Acompanhada de um cigarro amigo, sentou-se à mesa ao lado da minha. O cheiro de tabaco exalava por todo o lugar. Ele me cumprimentou e eu sorri de modo murcho, voltando minha atenção para a leitura. Estava cheia de trabalho e sem a mínima paciência para homens (depois do último babaca). Comecei a achar que o balconista tinha ido colher o café na Nicarágua. Das duas, uma: ou o garoto estava querendo me prender sentada ali ou a cafeteira tinha quebrado. Fiquei com a primeira opção depois que olhei, novamente, para o balcão e percebi que a cafeteira do lugar reluzia de tão nova que era. Comecei a reparar nas mesas à minha volta e percebi que vários clientes que chegaram depois de mim já estavam tomando seus cafés, inclusive, o homem de cabelo grisalho.
O garoto do balcão veio em minha direção com meu pedido, finalmente. Percebi que aquele era o último pedido, uma vez que a cafeteria já ia fechar. Deixou o café juntamente com um lencinho de papel, totalmente desnecessário, em cima da mesa. Fiquei fitando-o até o momento que alcançou de novo o balcão. Tomei o primeiro gole e, como sempre, deixei um gotinha escapar e sujei a blusa (talvez aquele lencinho de papel não fosse tão desnecessário). Peguei o lenço, limpei o canto da boca e, o que pude, da blusa. Assustei-me quando percebi que havia algo escrito à caneta no papel úmido de café: “você parece meio tensa. Quer dar uma volta?”. Ri baixinho. O garoto do balcão se aproximou.
- Deseja mais alguma coisa? – perguntou. Olhei dele para o bilhete e do bilhete para ele. O garoto ficou sem graça.
- Tudo bem, já entendi o seu não. – e se virou.
Ei garoto! – gritei sorrindo e ele voltou-se surpreso – um café por favor, mas quero um do Fran’s, o daqui demora muito para chegar. Ele sorriu e me respondeu: “espere cinco minutos, é o tempo que fecho esse lugar”. Dez minutos depois, eu saía ao entardecer friorento conversando e rindo com o cara do balcão. Sei que ele é só mais um cara, que pode ser mais um babaca que mais cedo ou mais tarde, vai me fazer chorar. Mas por enquanto, ele se restringe a um café e, talvez, seja nesse café que eu afogue as mágoas do café anterior.
 
(Daniele Lima) 

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Crônica da semana - além do

Além do horizonte
É. Sou assim, meio tantã mesmo. Tenho as minhas esquisitices.    

Semana passada, fiz uma pequena palestra para os alunos do Projeto Revisão Solidária, aqui de Barcarena. Falei sobre o fenômeno das marés. O objetivo era mostrar para os meninos que um evento astronômico com este status não se reduz à solidão sideral. Muito pelo contrário, a maré vazante ou enchente, mais do que a gente pensa, regula a batidinha diária de muita gente aqui, ao rés do chão.  
Lá pelas tantas, quando relacionava as fases da lua com a amplitude das marés, um dos alunos me interrompeu e manifestou a impressão de que eu era demasiadamente entusiasmado com o assunto. Eu confirmei este encanto e ele de pronto sugeriu que, então, eu poderia ser considerado um lunático, porque viajava pelo mundo da lua. Verdade. E lá vai mais uma aí para a conta das minhas estultices: De uns tempos pra cá, desde que assisti ao filme “1492- A Conquista do Paraíso”, cismei com uma cena. O filme conta a história de Cristóvão Colombo, suas aventuras e desventuras na América. O Diretor Ridley Scott (consagradíssimo pelo clássico oitentista Blade Runner) põe, logo no início do filme, o genovês Colombo sentado à beira do oceano fitando o horizonte. Na sequência, um barco é enquadrado navegando em direção ao sol, até desaparecer no abismo de água. Daí, a gente tira a dedução do Colombo sobre o formato da Terra e o filme segue.  
O que me impressionou mesmo, na cena, foi aquele realce, aquela riqueza plástica com que o diretor retratou o horizonte. Aquela paisagem ensejou um espetáculo silencioso que me arrebatou. Que me mundiou. E até hoje me inquieto com aquele fim de mundo chamado horizonte. De lá pra cá, tenho me empenhado em descobrir onde, na prática, é o horizonte. Onde é o lugar em que o mar encontra com o céu. Olha só, com o que doido se bate. E tô aí, há um tempão tentando, a revés de ás, de través de bês, me aperreando, me arreliando, desouvindo chacotas, despachando pilhérias e encarnações. E eu me abicorando por causa disso. Me desaviando ensimesmado, macambúzio, e dessemelhado. Misantropo das artes, das desobrigas e das gentes.  
E, sabe, esta solidão e este apagão social até que me valeram: neste vai não veio, descobri que há um jeito da gente calcular a distância do horizonte. E não era esta a minha aflição? Pronto, meus problemas acabaram. Está tudo lá na internet. Tudo direitinho, tudo ajeitadinho, pra gente se desopilar e ser feliz de novo. É até bacana de calcular. Basta formar um trianglinho retângulo básico, aplicar o teorema de Pitágoras e estar de par com uns conhecimentos prévios indispensáveis; alguns fáceis, como saber a própria altura; outros mais aquele de difíceis, como saber o raio da Terra ou ser capaz de resolver umas continhas de mais, de vezes e uma inofensiva raiz quadrada. Coisa pouca.  
Se não quiser ter esta dor de cabeça, ou não se sentir à vontade para este encontro com a matemática. Nada a temer. Há sites que já trazem uma tabela para distâncias ao nível do mar (mais ou menos uma praia como aquela em que o Colombo do Ridley Scott teve um lampejo). Ali, da escadinha do Ver-O-Peso, dá pra achar o horizonte. Ele escapa da cortina de árvores e desenha a linha d’água entre a ilha das onças e aquelas pontas de terra perto de Cotijuba. Eu sei. Agora eu sei, exatamente, onde é aquele lugar. Onde, para mim, é o meu mundo novo. A ‘minha América, minha terra à vista’.
(A distância do horizonte é função da altura do observador. Quando mais alto ele estiver, mais longe. Como sou gitito, o meu horizonte é perto. Muito perto).

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

A foto

Biqueira

click de Tatyane Silva

sábado, 5 de novembro de 2011

Crônica da semana - homenagem

Homenagem
Aconteceu coisa de 3 anos atrás. Ali pelo mês de março. O pico do inverno amazônico. A chuva começou por volta das 9 horas da noite. E não parou mais. Varou a madrugada. Inquieto com aquele aguaceiro, bem cedinho me aprumei (tinha que tinha de ir pra aula), aproveitei um raro estio e me abalei pela manhã molhada. Fiz meu caminho em dois tempos. Peguei o (ex) sacrabala na frente de casa até a feira de Santa Luzia e de lá, o UFPA. Foi o custo do ônibus se adiantar um pouquinho na Alcindo Cacela, além do museu, e a rua virou mar. Dali até a praça Princesa Isabel, no recôndito da Condor, era um alagado só. E a água continuou fazendo marola e dando no joelho até ali pelo entorno da universidade. E tome chuva! Desci com a calça enrolada, fui me ajeitando pelas passarelas saltando meios-fios e poças robustas. Consegui chegar na minha sala com 20 minutos de atraso. Com toda derrota, ainda fui o primeiro aluno a chegar. Mas o professor já estava lá, olha, que tempo. Naquele dia, pelo caos instalado na cidade, qualquer casozinho ligado à chuva justificaria uma ausência naquela aula. A coisa tava braba. Mas o Ronaldo não se quedou ao direito de faltar ou chegar atrasado. Como todos os dias, estava ali, rente como pão quente para cumprir o seu dever de servidor público.
Este mês, só pra gente comparar, a coisa descarrilou totalmente. Mas que marmota é essa de dois feriados cairem justinho no meio da semana! Postos de saúde sem atendimento, repartições importantes com ponto facultado, instituições públicas em completo estado alfa. Ô, calendariozinho ingênuo. Deu uma trela pro ócio, e olha só...quem teve um débito nas coisas da vida, nesta semana de finados, teve que esperar até quinta-feira por uma chance de reivindicar os desapertos dos nós (que, nos dias encarreirados já não são fáceis, avalie nestes salteados, desritmados, desengraçados. Já penso como será, na semana da República).
No frigir dos ovos, contando assim, sem tirar a prova dos nove, foram cinco dias sem prestar serviço à comunidade. Não. Não tô pegando no pé dos servidores.  Não me vejo cobrando frequência ou dedicação (embora isso me fosse perfeitamente pertinente, pois que, sou usuário, contribuinte, cidadão e tal e coisa e coisa e loisa). Estou apenas refletindo um sentimento coletivo de desamparo, de abandono e solidão.
Vejo que o grande responsável por isso, é o gestor, é o comandante da administração. É aquele que, com uma canetada tira os trabalhadores do expediente e os coloca nos róis de ira do povo (porque o servidor, por si só, não se auto-faculta o dia de trabalho e nem folga em arengar com a parcela da população, aquela maioria ressalte-se, que precisa de atendimentos e acolhimentos). Tirar o amparo da sociedade com este artifício nefasto de enforcamento de feriado é uma atitude, no mínimo irresponsável, por parte dos gestores da máquina pública (e isso se a gente falar somente das questões assistenciais. Se a gente for levar pro ramo dos negócios, o traço fica vergonhoso de borrado. O Estado perde uma grana. Recursos que poderiam subsidiar desenvolvimento e qualidade de vida). É uma pena que os valores de Estado sejam deixados de lado por causa desses coquetes interesseiros.
Ao contrário do que possa parecer, o que escrevo agora não é uma crítica ao conjunto do funcionalismo. É sim, uma homenagem aos bons profissionais, pelo dia do funcionário público ocorrido na sexta, 28 de outubro e, em especial, ao professor Ronaldo que naquele dia, mesmo debaixo de um toró, estava lá na sala de aula, pronto para cuidar da res publica.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

crônica remix - a classe...


Ao paraíso (a classe operária vai, vai, vai...)
Eu sempre fui comunista. Sempre tive barba, sempre usei embornal verde-líquen-meio-enferrujado cheio de exemplares velhos de jornais clandestinos; sempre quis ir pra ilha de Cuba e sempre gostei de um uisquinho and rock. Não li Marx no original em alemão e nem em português. Aliás, não li Marx. Fora a cartilhinha mimeografada que guardo comigo desde os tempos das reuniões clandestinas na Escola Técnica, pouca coisa sei sobre O Capital.
Há alguns anos, porém, desisti da revolução e resolvi me render ao capitalismo globalizado. Entrei para o mercado de capitais, comprei aí umas açõezinhas de uma poderosa empresa nacional, coisa pouca, só para começar...
Olha só no que deu!
O pobre é ralado mesmo, na hora em que resolve ser capitalista a crise vem e acaba com a festa.
Éraste, jamais pensei que, logo na minha vez, o capitalismo fosse mostrar as suas fragilidades. Que logo agora quando eu estava me animando com os saltitos tentadores da bolsa a tal crise do capitalismo (desde antes anunciada pelos comunistas) iria explodir.
Caramba, Parece uma coisa! É a tal pissica da velha chica que me persegue, e logo agora que eu estava sonhando em ser um magnata do insensível e frio mundo da grana. Já estava me sentindo um operário luxento todo prosa-cor- de- rosa chegando ao paraíso.
Mas quando! Tô na pira. Nem consulta ao banco, faço mais. Toda vez que vou lá me deparo com um cenário cada vez mais assombroso. Vôte, fico à beira de um chiliquito.
A culpa é dos americanos. É o que eu digo sempre, eles só querem ser o que a folhinha do ano não marca. Fazem as deles, dão calote, e parecem aquela madame dos meus tempos de empacotador de supermercado, que aparecia na loja toda emperiquitada, nariz empinado, farta maquilagem, cheia de jóias... Mas quite, tudo michelin das boas, peças facilmente encontradas nas bancas da Santo Antônio ou nas boas lojas do ramo. Só pose. Os americanos mostraram que atrás daquela arrogância residia (aliás, nem residem mais, foram despejados) uma imensa e inflexível bolha imobiliária apta para empastelar a economia mundial (não tô falando, a crise é coisa de americano mesmo: estampido ufanista, indiscreto, grandioso. Não bastaria que arrebentassem a si. Haveriam de levar, ora veja, a mim também, ladeira abaixo com meus reaizinhos cada vez mais raquíticos. Ah, esses americanos!).
Para amenizar o sofrimento resolvi dar uma injeção de esperança nas minhas aplicações, e, um dia desses de maus presságios para mercado, me peguei com a poesia otimista dos anos 70 admitindo que “o que importa é não estar vencido”.
Doce Ilusão. A vida, num momento delicado como este, caprichosamente, não imita a arte e no outro dia as bolsas sofreram uma das maiores quedas da história e veio gente de tudo quanto é tamanho na enxurrada. Americanos, japoneses, britânicos, alemães, até a Finlândia, olha só, que era um país que eu pensei que só existisse no National Geografic veio no meio da quebradeira com um superdotado IDH e tudo. Na fila, na fila.
No dia do Círio, fiz discretamente, um pedido para a santa pr’ela dar uma ajudazinha lá em Wall Street (os americanos estão me devendo essa).  Fiz o pedido assim, como quem não quer e querendo, sabe, porque acho que a santa não gosta dessas coisas, desses despudores com grana, desses clamores pelo mercado de capital, acho que não, afinal os membros das primeiras comunidades cristãs dividiam tudo, viviam irmanados, valorizavam a igualdade, a fraternidade...
Sabe, pensando bem, acho que vou procurar minha cartilhinha de comunista e rever algumas lições.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

crônica da semana- quem desconfia

Quem desconfia fica sábio
Eu me pelo de medo de ser injusto com as pessoas e com as coisas. E de ser metidão, ser arrogante. Não aprovo qualquer tipo de ataque gratuito (os descabidos, ressalte-se. Posto que, reconheço ataques justificáveis, dos quais, uma horinha ou outra, temos que lançar mão para nos defender. Porque abilesados, também não podemos ser, né’mesmo?).
Tenho o maior ‘coidado’ nas críticas. Procuro ser embasado, elegante e sutil, para alertar, ou até mesmo atacar, e não machucar (ou não machucar tanto, porque sei o estrago que o veneno das palavras faz).
Já andei detonando com coisas e gentes por aí e a vida me ensinou o caminho da cautela. De vez em vez, ainda reino em fazer uma arenga, uma desgovernada verborragia em homenagem a um desafeto, mas antes de dar o bote, olho pra mim. Meço minhas travas, calculo meus valores. Há o risco de, desgraçadamente, eu e meu desafeto, sermos ali, pertinho que só de iguais em teres e haveres.
E se estão pensando que isto é um testemunho de pureza, digo que nem tanto, mas é uma franca confissão: desconfio dos meus repentes, das minhas crenças, e das minhas vontades. Assim, perscrutando, assuntando, desconfiando, procuro ser sábio. É a minha luta diária, entender o ensinamento do Riobaldo, personagem embrutecido-cândido criado por Guimarães Rosa para nos mostrar que há sabedoria na simplicidade. A frase aí do título é dele.
Um alerta: consigo identificar estas fragilidades na contenção do fluxo verbal, nos outros. E com isso, aprendo também. Dia desses, li de um certo alguém, uma passagem nestes termos: “eu odeio pessoas que falam ‘a gente fomos’; ‘pra mim fazer’; ‘vamos se aprontar’; ‘o pessoal chegaram’...essas pessoas não se tocam, deveriam procurar conhecer mais a língua...”.
E essa pessoa aí que não tem noção do que diz, continuou a desfolhar a sua indignação com o acréscimo, no meio da prosa, desta frase perolada: “não é fácio mesmo essa situação”.
A gente percebe que o nervosismo e a intolerância, na crítica ao modo de falar de nossas camadas populares expõem a natureza desleixada do autor desta declaração. A gente intui que por não saber a fronteira entre a oralidade (“odeio pessoas que falam”) e a linguagem escrita, esta pessoa não tá nem aí para a argumentação científica sobre os fenômenos da comunicação. Nunca leu Ferdinand de Saussure e nem mesmo o nosso amado/odiado Marcos Bagno. Quando sugere que “essas... pessoas precisam conhecer mais a língua”, o autor da devassa piora tudo. Junta alho com bugalho, pois que, segundo o próprio Saussure, Língua e fala compõem sistemas distintos. Por fim, a gente interpreta que uma pessoa que faz uma cobrança, cara por sinal, do o uso da norma culta na língua falada e grafa o adjetivo ‘fácil’ com ‘o’, não se conhece a si mesma. Não percebe (mostra-se intolerante, preconceituosa, metidona) mas é igual a tantos quantos (e talvez isso lhe arda).
O que dá pra desconfiar (e desconfiando a gente vai se ajeitando a ser sábio) é que uma pessoa que demonstra seus descontentamentos com a fala popular, desta maneira, jamais se permitirá o prazer de ler um clássico como “Grande Sertão:Veredas” (de onde tirei o título para esta crônica). Na certa, fechará o livro, e para nunca mais reabri-lo, na primeira ‘parna’, porque vai desentender que lá, do hio ao chio, tá tudo mais que conforme com o siso. Esta pessoa não vai sacar as variações semânticas que tecem de ouro o texto de Guimarães Rosa (que peninha, que peninha!).
Resumindo a ópera, é um serzinho gito de tino e de jeito que pensa que tem, mas não tem um isso que periquito roa; um ente que só quer ser o que a folhinha do ano não marca.
Eu ‘disconcordo’ com alguns dizeres populares, o que não quer dizer que não os ache simpáticos (vez sim, vez também, vou catá-los no meio da multidão para temperar meus escritos). Como escrevo em jornal e sei que tenho uns quantos leitores, tomo todo o ‘coidado’ para definir as fronteiras (até já fiz curso gabaritado, com embainhamento acadêmico e tudo, sob a direção ilustrada da professora Alessandra Mattos Vasconcelos, tratando do delicado nicho das Letras e das Gramáticas). Mas, mesmo quando sisqueço e não cuido, deixo ao calibramento dos leitores. Eles sabem...
Reconhecendo minhas travas...desconfiando, vou clareando minh’alma e me achegando  a sábio, a simples e, ora, ora, às coisas e às gentes...

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Artigo enchentes 2

ENCHENTES: AJARDINEM SUAS CALÇADAS (2)

Com o artigo anterior, ENCHENTES: NÃO TIREM A SERAPILHEIRA, iniciamos uma série de textos dedicados à demonstração da importância das medidas ditas não estruturais no combate às enchentes urbanas. Esses textos estão concebidos para, o mais didaticamente quanto o espaço permite, orientar ações técnicas que podem perfeitamente ser adotadas pela sociedade e pelas administrações públicas desde já, por sua simples deliberação, sem nenhuma necessidade burocrática que os desestimule a tanto.
Hoje falaremos das calçadas drenantes e das sarjetas drenantes. Mas antes vamos recuperar o que, no primeiro artigo, já foi esclarecido sobre as principais causas das enchentes urbanas. E vamos todos também saber que as medidas não estruturais são aquelas que, inteligentemente, atacam diretamente as causas das enchentes e não somente suas conseqüências.
Sobre as principais causas de nossas enchentes urbanas não há hoje mais a menor dúvida sobre quais sejam: a impermeabilização generalizada da cidade, o excesso de canalização de cursos d’água e a redução da capacidade de vazão de nossas drenagens pelo volumoso assoreamento provocado pelos milhões de metros cúbicos de sedimentos que anualmente provém dos intensos processos erosivos que ocorrem nas frentes periféricas de expansão urbana.
Esse quadro determina o que podemos chamar a equação das enchentes urbanas: “Volumes crescentemente maiores de água, em tempos sucessivamente menores, sendo escoados para drenagens naturais e construídas progressivamente incapazes de lhes dar vazão”.
Para se ter uma idéia da dimensão desse problema da impermeabilização considere-se que o Coeficiente de Escoamento - índice que mostra a relação entre o volume da chuva que escoa superficialmente e o volume que infiltra no terreno - na cidade de São Paulo está em torno de 80%, ou seja, 80% do volume de uma chuva escoa superficialmente e segue rapidamente para o sistema de drenagem. Em uma floresta, ou um bosque florestado urbano, acontece exatamente o contrário durante um temporal, o Coeficiente de Escoamento fica em torno de 20%, ou seja, cerca de 80% do volume das chuvas é retido.
Diante de um cenário assim colocado, qual seria a providência mais inteligente e imediata para combater as enchentes (e que estranhamente as administrações públicas, todas muito simpáticas às grandes obras e aos seus impactos político-eleitorais, não adotam)? Claro, sem dúvida, concentrar todos os esforços em reverter a impermeabilização das cidades fazendo com que a região urbanizada recupere sua capacidade original de reter as águas de chuva, seja por infiltração, seja por acumulação. Concomitantemente, promover um intenso combate técnico à erosão provocada por obras pontuais ou generalizadas de terraplenagem. Ou seja, fazer a lição de casa, parar de errar. Parece fácil, mas não é. Essa mudança de atitude exigirá uma verdadeira revolução cultural na forma como todos, especialmente nossa engenharia e nosso urbanismo, até hoje têm visto suas relações com a cidade.
Tomada a decisão dessa mudança cultural, haverá à mão, inteiramente já desenvolvido, um verdadeiro arsenal de expedientes e dispositivos técnicos para que esse esforço de redução do escoamento superficial das águas de chuva seja coroado de sucesso: calçadas e sarjetas drenantes, pátios e estacionamentos drenantes, valetas, trincheiras e poços drenantes, reservatórios para acumulação e infiltração de águas de chuva em prédios, empreendimentos comerciais, industriais, esportivos, de lazer, multiplicação dos bosques florestados, ocupando com eles todos os espaços públicos e privados livres da cidade.
E então chegamos ao ponto. Considerada essa enorme importância em reter águas de chuva faz sentido que nossas calçadas sejam em sua quase totalidade totalmente impermeáveis? Somente a cidade de São Paulo tem cerca de 17 mil quilômetros de ruas. Obviamente, há nesse conjunto ruas e calçadas de todos os tipos, mas vamos considerar que em ao menos metade dessa extensão total haja condição de se implantar faixas permeáveis nessas calçadas, com largura média de 1 metro (sempre com o cuidado de se manter uma faixa cimentada lisa mínima de ao menos 0,80m para o trânsito de uma cadeira de rodas). Teríamos então algo como 17.000.000 m2 (consideradas as duas calçadas de cada via) de áreas francamente apropriadas para absorver e reter águas de chuva.
Para o estímulo á adoção dessa simples e agradável providência, uma boa idéia seria haver um incentivo tributário para o proprietário frontal implantá-las e mantê-las. Medida isoladamente suficiente para evitar enchentes? Claro que não, mas que, se consideradas como parte de um enorme conjunto de outras medidas não estruturais de mesma natureza, seguramente vão mudar a história desses fenômenos urbanos.
Vamos a um outro ótimo expediente, as sarjetas drenantes. As águas de chuva que caem sobre a cidade em algum momento correm sobre sarjetas, hoje paradoxalmente totalmente impermeáveis. Sarjetas orientadamente projetadas para permitir a infiltração e até a acumulação de águas de chuva funcionariam como verdadeiras armadilhas para a redução do escoamento superficial (...) Em um programa de implantação progressiva dessas sarjetas drenantes, e ainda usando o exemplo da cidade de São Paulo, teríamos ao final a colossal extensão de 34 mil quilômetros de um ótimo expediente de retenção de águas de chuva.
No próximo artigo trataremos de outras medidas não estruturais de combate às enchentes, os reservatórios domésticos e empresariais.
Geól. Álvaro Rodrigues dos Santos (santosalvaro@uol.com.br)