quinta-feira, 2 de junho de 2011

"Meu caminho é de pedras"


AMORES PROTEROZÓICOS

Provocava-lhe a proximidade da primeira

Os deslumbrantes colares da sexta
A quarta, com seus misteriosos rubores...
Censurava-lhe, porém, a paterna relação.

Mas já há algum tempo rendera-se
A ígneos sinais de irresistível paixão.
Sim, era aquela terceira lua
Que com seus suaves e azuis encantos
Estava a explodir-lhe o flamante coração.

E ela, por aquele impossível amor
tão dilacerada,
Temendo, sem prendas,
Restar-lhe solitária e gélida sina,
Parecia a ele ainda mais bela
Assim frágil, perturbada, feminina.

Então, em equinócio tão aguardado
Sol e Terra amaram-se
Proterozoicamente;
Povoando e alindando aquela doce lua
Com algas, fungos e gente.

Foi mesmo assim maravilhosa a Criação
Sem ódios, pecados ou serpente.

                                 Álvaro    ago.2002

quarta-feira, 1 de junho de 2011

'Meu caminho é de pedras'


A Conta Estava Errada
Em 1650 o Arcebispo Ussher, um iluminado religioso irlandês, anunciou o dia, mês e ano em que a Terra foi criada.
Por aqueles dias, o Bispo cumpria a sua missão e respondia às inquietantes perguntas sobre a criação, amparado nos contundentes e definitivos argumentos que a severidade medieval permitia.
Ah, e só para satisfazer a curiosidade, o Bispo declarou que a Terra foi criada na noite de sábado, 22 de outubro de 4004 antes de Cristo. Pelos cálculos de Ussher a Terra estaria hoje com 6 mil anos e uns caroços.
Hoje, sabe-se pelos métodos mais modernos de datação que a Terra tem algo em torno de 4 bilhões e quinhentos milhões de anos.
Errou feio, o zeloso Arcebispo irlandês.
O que separa a cronologia bíblica de Ussher dos métodos de datação radioativos; o que representa o divisor de água (para usar um elegante termo da geomorfologia) da concepção religiosa sobre a criação e as explicações modernas para a formação da Terra  é exatamente o aparecimento da Geologia como ciência.
É a partir do ‘estudo da Terra’, da busca pelo entendimento dos fenômenos com bases racionais que a Geologia passa a responder às perguntas mais intrigantes e a confirmar as nossas mais inocentes impressões.
Por que a água do mar é salgada? Por que nem tudo que reluz é ouro?  Por que o ímã cola na geladeira? Para onde é o Norte? Por que a maré vai e volta? Por que acontecem terremotos, maremotos, vulcões? Tsunamis? A Terra tá aquecendo mesmo? Houve um começo? Haverá um fim?
Estas são perguntas que começaram a ser respondidas, ainda na idade média, por ilustres naturalistas como Nicolau Steno, Abraão Werner, James Hutton, Charles Lyell, Lorde Kelvin, Charles Darwin.
E que podem ser respondidas, hoje, pela Ana Tayla e pelo Jorge Augusto, promessas de uma nova geração de Geólogos que está sendo produzida pela UFPA.
Na próxima quarta-feira, comemora-se o Dia do Geólogo.
Durante um bom tempo, convivi com estes profissionais. No início da década de 80, quando saí da Escola técnica formado em Técnico de Mineração, estava predestinado a compartilhar muitas aventuras com os Geólogos.
Naquela época as atividades eram concentradas mais no âmbito da exploração mineral e data desta fase a imagem imputada aos Geólogos, de depredadores, de consumidores vorazes do meio-ambiente. O que não é verdade. Os Geólogos, pelo menos aqueles que eu conheci e que até hoje me são caros, são pensadores, são criadores e por vezes, são recriadores.
Profissionais como Luiz Gilberto Dall’Igna, Roberto Moscoso de Araújo, Sérgio Kleinfelder Rodriguez, Hélio Ykeda, Amado Mota, Ronan Barbosa, Clóvis Mautity, são personagens que passaram pela minha história no papel de grandes mestres, grandes orientadores. Entusiasmados e apaixonados por uma ciência que tem a missão de “cuidar das feridas da Terra”.  
Jorge e Aninha são da turma de Geologia de 2004. Nos primeiros dias de aula, éramos os únicos a dar as caras pela Federal. Ficávamos trocando prosa pelos corredores. Foram os meus primeiros amigos no curso.
Escolhi estes dois jovens colegas para serem os depositários da modesta homenagem que faço aos Geólogos, que comemoram o seu dia no próximo dia 30 de maio.
Daqui a um tempo, Jorge e Aninha serão Geólogos formados. Terão a responsabilidade de responder, nas circunstâncias mais diversas, por que a água do mar é salgada. Terão a missão de manter o entusiasmo pela profissão pregado pelo mestre Roberto Moscoso. Terão a tarefa de reiterar, com a dignidade herdada dos naturalistas, que a conta do Arcebispo Ussher, estava errada.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Geologia e poesia

Esta foto foi tirada em um afloramento na BR 316. Mostra uma rocha dobrada. É uma demonstração contundente das forças que atuam no interior da Terra...
E mostra outras maravilhas também ...

Uma bela foto
A energia refinada
Objetiva
Da natureza
Um traçado ondulado
De eixo elegantemente horizontal
Com ligeiro e sensual caimento
Flancos suaves
Deslizantes
Sem direção preferencial
Mas achável
Tateável
Oportunamente dúctil
Moldável aos esforços
Compressivos
Indizíveis
Impossíveis
Desejáveis, ao menos
Expostos à superfície
Iluminados pelo sol
Do Equador
Essência da natureza mais bela
Se mostra
Delicada
Delineada
Silente
Presente em boas
E belas imagens 
(Tô falando da Roberta,
aí no canto esquerdo da foto,
é claro)

domingo, 29 de maio de 2011

"Meu caminho é de pedras"

OLHE À SUA VOLTA, HÁ UM GEÓLOGO POR AÍ
"Só uns poucos tomam, por todos os demais, o encargo nobre e pleno de responsabilidade de custodiar a escritura sagrada da Terra, de lê-la e interpretá-la, pois o enlace consciente do homem com sua estrela está confiado a uma ciência em especial... GEOLOGIA".
Hans Closs-(1885- 1951)                                 

No dia 30 de maio comemora-se internacionalmente o Dia do Geólogo. Diferentemente de vários países do mundo, onde a atividade profissional do Geólogo é já entendida em sua enorme importância para o Homem, tem sido regra em nosso país que esse dia passe praticamente despercebido pela sociedade, reflexo do ainda precário conhecimento que esta sociedade tem sobre a atividade de seus geólogos. Diga-se a bem da verdade que esse relativo desconhecimento deve-se em boa parte aos próprios geólogos, em geral mais afeitos a seus círculos profissionais específicos e restritos e despreocupados em dialogar mais abertamente com a sociedade sobre as importantíssimas questões com as quais trabalha.
Simplificadamente, podemos dividir em três grandes planos a atividade profissional do Geólogo, todos eles, como se verá, com estreita relação com o cotidiano e com a qualidade da vida humana no planeta:
Fenômenos Geológicos Naturais, no âmbito do qual o Geólogo investiga fenômenos associados à dinâmica geológica do planeta, como terremotos, maremotos, vulcanismos, variações térmicas planetárias e suas conseqüências, processos regionais de desertificação, escorregamentos e avalanches naturais em regiões serranas, etc., definindo cuidados e providências que devam ser tomados pelo Homem para evitar ou reduzir ao máximo os danos que esses fenômenos, na qualidade de desastres naturais e riscos geológicos, possam causar;
Exploração de Recursos Minerais, plano em que o Geólogo estuda a formação de jazidas minerais de interesse do Homem (ferro, manganês, cobre, carvão mineral, petróleo, água subterrânea, urânio, alumínio, areia e brita para construção, argila para cerâmica, etc., etc.), localiza-as na Natureza, avalia-as técnica e economicamente e planeja, juntamente com o Engenheiro de Minas, sua exploração e a posterior recuperação ambiental da área afetada;
Geologia de Engenharia, dentro do qual o Geólogo estuda as interferências do Homem sobre o meio físico geológico. Dentro desse plano é importante entender que, para o atendimento de suas necessidades (energia, transporte, alimentação, moradia, segurança física, saúde, comunicação...), o Homem é inexoravelmente levado a ocupar e modificar espaços naturais das mais diversas formas (cidades, agricultura, indústria, usinas elétricas, estradas, portos, canais, extração de minérios, disposição de rejeitos ou resíduos industriais e urbanos...), o que já o transformou no mais poderoso agente geológico hoje atuante na superfície do planeta. Pois bem, caso esses empreendimentos não levem em conta, desde seu projeto até sua implantação e operação, as características dos materiais e dos processos geológicos naturais com que vão interferir e interagir, é quase certo que a Natureza responda através de acidentes locais (o rompimento de uma barragem, o colapso de uma ponte, a ruptura de um talude, por exemplo), ou graves problemas regionais (o assoreamento de um rio, de um reservatório, de um porto, as enchentes e escorregamentos, a contaminação de solos e de águas superficiais e subterrâneas, por exemplo), conseqüências todas extremamente onerosas social e financeiramente, e muitas vezes trágicas no que diz respeito à perda de vidas humanas.
Enfim, mesmo com a abdicação do consumismo tresloucado e do crescimento populacional descontrolado, a epopéia civilizatória de chegarmos a uma sociedade onde todos os seres humanos tenham uma vida materialmente digna e espiritualmente plena, exigirá, sem dúvida, a multiplicação de empreendimentos humanos no planeta: exploração mineral, energia, transportes, indústrias, cidades, agricultura, disposição de resíduos... A Geologia é uma das ciências sobre as quais recai a enorme responsabilidade de tornar essa maravilhosa utopia técnica e ambientalmente possível, sem que a própria possibilidade da vida humana no planeta seja comprometida.
Conclui-se, assim, que para se assegurar que a Humanidade tenha um futuro promissor e pleno de felicidade em seu planeta faz-se cada vez mais imprescindível conversar com a Terra. Para esse diálogo, os homens têm seu inspirado intérprete: o Geólogo.
De outra parte, a Geologia é uma geociência maravilhosa. E seu caráter maravilhoso liga-se à sua intrínseca relação com o movimento (Movimento = Matéria + Tempo + Espaço). O sentido maior da Geologia é apreender o movimento, os processos que definiram, definem e definirão o Planeta e seus fenômenos. O fator Tempo pode ser também importante em outras profissões, mas na Geologia é a variável permanente e onipresente em todas suas equações.
Dentro desse espírito, é justo rendermos um tributo ao Geólogo escocês James Hutton, que ao final do séc. XVIII, pela primeira vez rompeu documentada e corajosamente com os estreitos tabus e dogmas religiosos da época, para os quais o mundo atual  era exatamente aquele criado por Deus, cunhando então (o Geólogo inglês Charles Lyell logo em seguida deu primorosa e enérgica seqüência à sua teoria) as bases da teoria do Uniformitarismo ("o Presente é a chave do Passado"); a qual, por sinal, Darwin, dando todos os créditos a Lyell e Hutton,  aplicou ao mundo Biológico. Dizia Hutton: "Desde o topo da montanha à praia do mar...tudo está em estado de mudança. Por meio da erosão a superfície da Terra deteriora-se localmente, mas por processos de formação das rochas ela se reconstrói em outra parte. A Terra possui um estado de crescimento e aumento; ela tem um outro estado, que é o de diminuição e degeneração. Este mundo é, assim, destruído em uma parte, mas renovado em outra".
Ao Geólogo, portanto, com todo o merecimento, cabem as honras e homenagem por mais esse aniversário de sua tão bela profissão.
Geól. Álvaro Rodrigues dos Santos (santosalvaro@uol.com.br)
Ex-Diretor de Planejamento e Gestão do IPT e Ex-Diretor da Divisão de Geologia 
Foi Diretor Geral do DCET - Deptº de C&T da Secretaria de C&T do Est. de São Paulo
Autor dos livros “Geologia de Engenharia: Conceitos, Método e Prática”, “A Grande Barreira da Serra do Mar”, “Cubatão” e “Diálogos Geológicos”
Consultor  em Geologia de Engenharia, Geotecnia  e Meio Ambiente

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Crônica da semana


Lilás
A noite estava fria, a chuva havia estimulado o recolhimento e as preces. Aos pés da Virgem Santíssima eu rezava ajoelhada com um fervor desmedido (salve Rainha Mãe de Deus/És Senhora nossa mãe/Ó mãe clemente/ó mãe piedosa/Doce Virgem Maria). Pedia, desesperadamente, para que a santa o trouxesse de volta. Sentia saudades e meu peito amargava a solidão e a certeza mórbida de ainda amá-lo. Benzi-me, ergui-me e apeguei-me às lembranças.
O peso da idade já não me machucava tanto. Acendi uma vela para que a sala e o quarto, com a licença da porta entreaberta, ficassem igualmente iluminados. A outra, posicionei à entrada da casa como se a chama houvesse por  esperar alguém. Nessa época de chuva, a noite chegava mais cedo que o comum, avalizada pelos algodoados de nuvens plúmbeas e ameaçadoras: era o tempo apressando-se em escuridão.
Sob a dança vacilante do lume que escapava da vela, percorri um espaço que conhecia bem, um traçado decorado ao longo de tantos anos. E me dispus à frente de uma mobília velha. Tateei as mãos e fui agrupando os objetos de toucador que pude encontrar. Uma cápsula de baton oxidada, a caixinha de rouge que ganhei da minha filha no Natal passado, e uns frascos de extratos artesanais que eu mesma produzi.
Olhei-me no espelho e a penumbra fantasiou um rosto ante o meu. Um rosto ainda admirável de uma mulher madura que não precisa de nenhum cosmético para sorrir. Com um gesto decidido lancei aquela tímida coleção de cosméticos para longe e sorri para a minha louca paixão. Não mais o veria. Em fotografias, nos filmes descoloridos de minhas lágrimas, tampouco nos reflexos impiedosos do tempo. Não mais o quereria. Despejaria a minha angústia, agora, sobre a terra confidente.
Inadvertidamente, corri. Não posso justificar a urgência daquele ato, já que tudo era estático e inabalável naquele ermo. Mas algo me guiava para fora da casa com um quê de razão e pressa. Era uma réstia volátil de luz que suspirava em um horizonte lilás. (Teu nome/com gizes coloridos/escreverei/lilases vezes/na lousa desbotada/de minha memória...este é o meu castigo). A luz se fechou num poema e a vida ainda tentou me acudir no farfalhar aromático que o vento imprimia à roseira lá ao pé do alpendre. Aproximei-me e pus-me a remexer o solo junto à plantinha solidária. Não encontrei nada. Só folhas secas, vermes escarlates, argilas sombrias, gris ilusões, dor e umidade. A chuva passara, mas meu pranto...Não. Não posso esquecê-lo (teu nome...lilases vezes...na minha memória).
Deixei o fio de luz, os vermes encarnados, a rosa graciosa e o alpendre úmido para trás e reduzi-me ao sofrimento. Volvi ao espelho. Agora sem sorriso ou coragem. Só os cabelos prateados e reclamos débeis respondiam aos meus olhos. Injusto e infame este delator. Espelho, espelho meu. Dane-se. Apaguei a vela e fechei a porta do quarto.
Agasalhei os pés com meias grossas de bordados joviais; vesti-me com casacos bem cortados, ornados com ilhoses alegres e passadores anilhados; soltei os cabelos, sem charme, sem coquete, sem civilidade sobre o colo ressentido ; aproximei a cadeira da janela e busquei a luz de modos que, o que restou de clarão na sala, me proporcionasse uma leitura reparadora. Dane-se o espelho. Dane-se essa gente rude e fria sem nome...Danem-se a aurora e os arrebóis. Danem-se os trigais, os girassóis e tudo o que seja leve e colorido.
A ti, te consumi em todos os nomes impuros e sedutores que consegui ler naquela noite. E te li tantas e lilases vezes que, sem fôlego e exausta de tanto que te amei, morri feliz sob o fulgor indulgente de uma vela amiga.




Delcley

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Exposição do Ribba


*visite
a exposição de pintura e peças amazônicas
*Ribamar
Araújo
*"grafismo
amazônico"
*dias:
27, 28, 29 de maio de 2011
*local:
amazônia cacau
*Av.
Boulevard castilho frança s/n
*estação
das docas armazém 02
*mezanino-loja
01-belém-pará
*não perca