terça-feira, 21 de junho de 2011

Curuminha


Amaranta Maria chegou assim, trazendo o charme estilístico da aliteração no nome. Para mim foi uma luz, uma prova da vida eterna, da reedição da esperança. A chegada de Amaranta representou pra mim a confirmação da “ânsia da vida por si mesma”. Minha filha nasceu com os olhos negros e graúdos dos Sodreres e herdou a boca avermelhada e bem desenhada da avó Luzia. Veio ao mundo para prover a minha alma de mais força feminina.

Ganhou o nome das páginas do romance do Gabriel García Márquez “Cem Anos de Solidão”. E é, verdadeiramente, uma menina ilustrada. Tem a elegância da fidalguia e o destempero descortinado da plebe. A tez escandinava inspira certa distância, mas ao mesmo tempo desperta encanto. Amaranta é amável, severa, sensível, implacável, doce e amara... Maravilhosa e sabiamente paradoxal.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

O dia em que o sol para

Em junho vivemos um dos momentos mais fascinantes e importantes para a história da humanidade.  Estamos passando pelo solstício. É fascinante porque, para ser bem simplesinho, é o dia em que o sol para.
O solstício acontece duas vezes por ano. Uma agora em junho, quando ratifica o verão no hemisfério norte e outra, em dezembro quando o sol se bandeia pra cá, para o sul. Nas duas ocasiões, o evento proporciona o dia mais longo do ano em cada hemisfério.
Em termos de deslocamento o solstício significa o ponto de maior afastamento do sol em relação à linha do Equador, ou seja, no hemisfério norte, é quando o sol se impõe sobre o Trópico de Câncer, e no sul, ocorre quando o sol posta-se soberano sobre a linha imaginária do Trópico de Capricórnio. Se a gente for olhar no mapa- mundi (que eu acho que é um material didático que nem existe mais) vai entender porque se diz que é um momento em que o sol para. É que a partir deste ponto, o sol “interrompe” seu percurso de afastamento do Equador, “para” e a seguir volta a movimentar-se para o meio do mundo, novamente.
amanhã o sol está na maior distância ao norte da linha do Equador. É o dia mais longo do ano no hemisfério norte, é o início do inverno e  a noite mais longa do ano no hemisfério sul
O solstício, no norte inspirou algumas crenças e estimulou a curiosidade dos homens. O exemplo da reverência a este evento é a edificação dos círculos de pedra erguidos na Inglaterra, o enigmático monumento de “stonehenge”. 
o misterioso stonehenge. Tem um desses na parte norte do Amapá
Uma construção datada de pelo menos 3.000 anos e que além de ser cultuada pelos druidas (um misto de sacerdote e curandeiro dos bretões), guarda em seus contornos os conhecimentos astronômicos daquela época: a junção entre as duas pedras que limitam o círculo está alinhada exatamente ao ponto em que o sol nasce no dia mais longo do ano. As pedras indicam o solstício de verão.
Aqui no Brasil, também temos o nosso “stonehenge”. Fica em Calçoene (que já está no hemisfério norte), no Amapá. É um arranjo de pedras, também. Não sei se este nosso monumento já atrai peregrinos para celebrar o solstício, mas não acho uma má idéia. Uma dose de magia e mistério serve também para que a gente entenda melhor as afetações do planeta...

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Crônica da semana

Estrelinhas tão cintilantes
Estive domingo no primeiro Arrastão junino do Arraial do Pavulagem.
Por conta de umas ‘questões paralelas’, fiquei um pouco distante do palco. Abriguei-me em uma nesga de sombra ao lado do anfiteatro, e de lá não arredei, já que o sol estava de rachar o cocuruto. Ali tem um relevo bacana. O terreno forma uma elevação que permite a gente ter a visão de pontos estratégicos da praça e, por isso, nos oferece obliquamente a belezura daquela estátua de mármore em que a figura de uma mulher representa a liberdade, e ao lado, as evoluções pávulas e acetinadas do batalhão. É como se, confortavelmente, houvéssemos a fritar o peixe e a olhar pro gato.
Esta característica do relevo aliada a minha sombrinha preciosa (ouro, prata e brilhante), me cativa. Não tem quem me tire dali...A não ser as ‘estrelinhas tão cintilantes’.  Fico por lá, quieto, até quando ouço os primeiros acordes da música “Iniciais BP”. (que eu prezo como o hino do grupo). Quando toca essa música, eu piro e vou lá pro meião arriscar uns passinhos consoantes com a coreografia.
Todo mundo pira, essa é que é a verdade. Esta música entra como uma apoteose. É o ápice. O esplendor. O sentimento que inspira é que ela entra no show para coroar o esforço de uma pá de gente que luta para colocar o folguedo do Pavulagem na rua. Penso que ela tem este quê de restauro, de sublimação, realiza-se como um prazer compensatório.
Para nosotros que nos animamos e nos inebriamos com a canção, ela entra para encher o coração de alegria (porque potencializa o valor da cultura popular, rejuvenesce a fé em coisas boas, revigora desejos e recompõe ânimos). A canção incendeia a multidão. Causa delírios e prazeres tórridos (o sol, né, no zênite, tinindo). No trinado de uma senhora duma guitarra bem tocada, ela se anuncia devastadora. A terra treme, as fitas flutuam ao vento, os corpos erguem-se no ar, as estrelas do dia cintilam. E a gente se entrega alucinado e feliz ao ritmo.
E eu tento traduzir isso com uma palavra. Fenômeno. O Pavulagem é um fenômeno.
Tá bom. Tô sendo parcial, tietando indecorosamente. É verdade que gosto dos meninos do Arraial. Admiro o conjunto da obra que se mostra no Arrastão. Mas há outros motivos para a rasgação de seda (porque agitação e êxtase também foram ingredientes do show do Iron Maiden, por outro lado, tem gente que se descontrola vendo os sertanejos Victor e Léo. Emoção, portanto, é sentimento comum nessas horas). Fico procurando outras origens para aquela sensação de felicidade que nos desperta na manhã seguinte ao domingo de festa (porque há um tanto de fármacos que estimulam a atividade dos neurotransmissores no cérebro e nos regulam o humor com eficácia. A felicidade é uma reação química). Pondero, ainda: não é só no Arraial que vemos um mundo de gente em ebulição.
O segredo do Arraial pra pegar a gente pelo pé (literalmente) permeia os campos da amizade (sempre proporciona grandes encontros), da longevidade (com 24 anos de existência, o Arraial já contabiliza boas histórias), da preservação cultural (a bênção dos santos joaninos protege, por certo, a festa). E o fundamental, o que para mim determina a empatia do grupo com o público: é a afirmação de uma arte sedutoramente sonora e radiantemente poética.
Domingo, lá ‘pelas uma e pouca’, como diz a galera, quando terminou o show na Praça da República, já perfeitamente refeito do transe, banquei a tradução: o Arraial do Pavulagem é um fenômeno. Um delicioso fenômeno junino. Desaloja a gente da sombra, da obliquidade discreta e ilumina com cintilantes estrelas, os escurinhos do nosso coração. Amanhã tô lá.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

O espetáculo do mês

A constelação de Escorpião é uma das mais belas do céu. E é a mais fiel. É um ícone. Aquela que mais se parece com o ser representado.
Agora em junho, tá fácil de achá-la no céu. Ela se destaca pelas duas estrelinhas no final sinuoso da figura, que lembram o ferrão do escorpião, e pelo brilho arrogante da Antares, no centro do traçado.
Desponta ao anoitecer no horizonte Leste.
O Leste, para quem mora em Belém, é ali pros lados da Terra Firme
Para quem está na Vila dos Cabanos, fica na direção do Laranjal
e para quem está em qualquer lugar do mundo, é o horizonte oposto àquele em que se põe o sol. 
'percure' e curta o bichinho.



terça-feira, 14 de junho de 2011

Caminhar com razão


Comecei a caminhar. Já estou nessa pisada há uns quinze dias. Acordo de manhãzinha, antes do sol aparecer, e ainda em tempo de ver a estrela Dalva luzindo poderosa, acima do horizonte.
É a minha resposta a uns ‘pobremas’ que me espreitam sorrateiros. Uma alteração na pressão, aqui, outra ali, e de novo, e a bicha nada de tornar pra’queles saudosos 13 por 7 do bem. Daí, tive que apelar para um remelexozinho no corpo e na vida.
Sempre resisti. Brincava, como todo machinho presunçoso, dizendo que meu esporte preferido era levantamento de copo e que a minha soberba muscular se dava no extremo anterior do pé direito, ali, perto do dedão (para ser mais exato, o ladinho do pé que embala a rede). Não me animava mesmo. E a pança, só crescendo, e o ócio reinando, e o metabolismo alterando. Não tenho bugs, não. Mas tenho a impressão que, com metro e meio de altura, pesando 68 mil gramas, só não vivo dando passamento pelas partes, por obra e graça da providência divina. Por aí a gente tira, um gordinho-baixolinha-preguiçosinho-sortudo. Tô assim, com um perímetro tão anatomicamente desleixado, com as arestas de tal forma aparadas, que se eu cair, eu rolo, numa evolução digna da mais arrojada coreografia ‘mister bolinha’.
Diante desses apelos, atendendo a pressões (inclusive a arterial) vindas de todos os lados, me convenci de que preciso perder uns quilinhos. A minha bronca, ressalte-se, não é estética (porque se assim fosse, teria que chamar a mamãe para fazer outro eu), estou mesmo é interessado em dar minha contribuição necessária e verdadeira para a manutenção da vida. Adoro viver. Preciso (tenho alguns livros pra lançar).
Sucede que nos últimos dias, mudei minha rotina. Vivo mais (acordo às cinco da matina, né), e melhor. E com esse negócio de madrugar, acabei percebendo detalhes de um mundo meio esquecido, mas de toda sorte encantador. O amanhecer é escandalosamente bonito com aqueles tons e contra-tons de azul e laranja (tá certo o Roberto Carlos naquela canção “o amanhecer é lindo laraiá laiá laiá”). Sabe aquela coisa de passarada? Daqui de casa, consigo discernir pelo menos 10 cantos diferentes de passarinhos. Todos muito animados para o dia. Além dos delicados gorjeios ainda dá pra identificar também o sincopado cocoricó de um galo perdido no ermo (olha só, gente, por falar em galo, me vem à cabeça um inconformismo. Não conheço ninguém que crie um galo. Não encontro com um galo sequer ciscando por aqui pelas redondezas, não ouço histórias de galanteios de galo nenhum dirigidos, sem decoro, a galinhas fogosas entre quintais. E toda manhã me pinta a onipresença deste cocoricó chatérrimo. Éraste, parece uma coisa!).
Uma missão que foi aceita meio que na marra, essa da caminhada matinal. Mas que tem resultado em momentos de oportunas reflexões e de reavaliação de condutas corriqueiras. Não sou subordinado a traçados impositivos. Meu itinerário é arbitrário, a minha direção é anárquica. Isso me torna livre. Nessa hora não há conflitos com o espaço (no início, atravessava a rua intempestivamente, subia o meio-fio, cortava caminho... Pra que isso, já?). Para caminhar a gente precisa estar livre para poder se relacionar harmoniosamente com a geografia da nossa batidinha urbana...Coloco meu tênis, meu fone de ouvido e vou bater no rio Murucupi. Falo com aquela árvore extraordinariamente simétrica que separa o rio da mais nova invasão, pergunto pra ela como está a sua simetria e volto...caminhando e aprendendo. E essa experiência de releitura do cotidiano rebato, com espírito renovado, para o resto do meu dia e fico na paz.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Entrevista (Salve o poeta)


 
P:  Por que o senhor escreveu um  poema?

R: Bem, porque eu amo a poesia.

P: Por que o senhor escreveu?

R: Bem , porque eu amo.

P: Por que o senhor?

R: Bem, porque eu...

P: Por quê?
R: Bem...

domingo, 12 de junho de 2011

Dia dos namorados

Tenho mais que Me ater a detalhes românticos Mandar flores sem quê nem Pra quê Uns bombonzinhos de chocolate finos Beijinhos na praça Mãos dadas E um ursinho de pelúcia Com gravatinha borboleta De aniversário
Tenho mais que Desfiar o verbo amar Profusamente e Sob qualquer circunstância Mesmo sob tortura Ou risco de vida Mesmo julgado E condenado pela gramática Eu amo tu Eu amo tu Eu amo tu E ser feliz porque Tu ama eu.
Eu tenho mais que No domingo Descolado Desligado Sereno Livre Um tanto santo Um tanto cego Um tanto atento Um tanto incerto Um tanto breve
Um outro tanto eterno
Neste dia Um tanto melodia Um outro tanto pôr do sol Neste dia  Dia do Senhor Penitente Redivivo Tenho que Querer viver Só de amor.