Desliga e liga de novo
Comum era em nossos dias antes, quando um
aparelho elétrico ameaçava pifar, a gente usar do macete de desligar logo,
passar um pedacinho e depois ligar de novo. Era um procedimento consagrado na
informalidade e na fé.
A televisão era a mais ativada nesta
operação. Em alguns casos, para a TV, recorria-se à elaboração de desligar
também da tomada, numa esperança de aliviar as dores de todo o sistema. Como,
além da TV e da geladeira, não era assim de ruma que o pobre possuía outros
bens, os resultados obtidos iam sendo catalogados para estes aparelhos com
algum grau de confiabilidade. No frigir dos ovos, funcionava. A operação
desliga/liga de novo dava mesmo uma valência. Não se sabia e nem se procurava
saber o motivo da sobrevida do aparelho obtida com este macete, a obra ficava
por conta da graça e da inabalável confiança que carregamos no coração. Mas,
tudo tem um sentido de ser e haver...
Em trinta anos atuando na indústria de
transformação, em contato com os mais avançados sistemas tecnológicos e circuitos
eletroeletrônicos de ponta, me acostumei com o procedimento de ‘resetar’
comandos. Resetar vem do inglês ‘reset’ que pra gente aqui traduz exatamente o
ato de desligar e ligar de novo. É a ampliação daquela manobra que a gente
fazia intuitivamente lá atrás envolvendo nossos parcos bens. Agora, nesses
tempos digitais, é tarefa rotineira que engloba praticamente todos os aparelhos
e equipamentos presentes em nosso dia a dia. O mais comum nem é a TV ou a
geladeira. É o celular. Missão imperiosa que temos para garantir a eficiência
do bichinho é, de quando em vez, reiniciar o aparelho. Fazer o reset. Que diga,
desligar e ligar de novo.
Penso ser assim no mundo virtual. E também no
mundo de vera; no universo multifuncional, multiemocional, supra-social que
habita a esquina da minha rua, a fila do supermercado, o pequeno
empurra-empurra do ônibus lotado, os olhares desconfiados dos transeuntes, os
enfrentamentos ideológicos, a luta pelo destino de uma nação.
As últimas semanas, passei sem comer, sem
rir, sem falar, com uma das mãos trêmula, e com a outra rija e ‘empunhadora à
proa’. Tava que não me aguentava mais. Tava em tempo de estoporar a face de tão
rubra e aquecida que estava. E olha que me peguei com a Santa. Prometi o possivelmente
cumprível, agasalhei minha cabeça no colo gentil de Nazinha, caminhei com a
Rainha da Amazônia e com nosso povo em procissão de fé e esperança, cantei e
rezei por um futuro de paz. Fervor que não rendeu o que precisava minha alma. O
mundo cruel é difícil de ser suplantado. O mal se articula em murais
resistentes, em contra-ataques ferozes, em fogo impiedoso e nos abala, e nos
impõe táticas de resistência. E nos sugere uma operação salvadora para nossas
TVs e geladeiras.
Dei um desliga e liga de novo alcançando até
a tomada e a chave geral, e a consciência nacional, e a solidariedade universal,
para que a dor do sistema todo fosse superada. Reiniciei. Reiniciamos.
Um alívio. Um choro de superação,
revigorador, amenizador de crise se avolumou em minha face num momento de
grande, de enorme emoção. Nossas mães, nossos ancestrais nos visitaram trazendo
e reativando memórias. Projetamos os ensinamentos de amor para o futuro de
nossos filhos, reviramos as consciências, revertemos ideias de caos e mentiras
que habitavam sorrateiramente as mentes descuidadas. Buscamos no abecedário,
dar a letra, dar o norte, o leste, o sul, o oeste para o bom brasileiro
usufruir de seu território sentimental e físico. Não há fronteiras para o amor
à nossa pátria, ao nosso irmão.
Tem uma hora na vida da gente e na história
dos nossos sonhos, que os aparelhos afetivos, sociais, morais dão aquele sinal
que vão pifar. Aí a gente renova aquele macete. Desliga, espera um pedacinho e
liga de novo. Sai pra rua e sorri um sorriso de alívio para o mundo. Podemos
sorrir.
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