Onde tem fumaça...
Mudaria,
na maior tranquilidade e sem o peso da culpa, o verso da consagrada canção de
Caetano Veloso na parte que fala sobre ‘a força da grana...’ para a ‘força do
fogo...’ (aquele fenômeno natural que do mesmo jeito que o dinheiro, ergue e
destrói, faz o bem e faz o mal). Porque de certo vale. Conta para mim como uma
certeza absoluta, o uso do fogo como uma das maiores artes conquistadas pela
humanidade. Um bem de ofício e de sobrevivência. Estamos aqui hoje porque um
dia nosso ancestral atritou um graveto sobre uma tabuinha e proveu um futuro
aquecido, iluminado.
Por
outro lado, de uma faísca pode ser decretado o fim de muitas e também
reluzentes histórias. A Amazônia em diversos níveis vive iminências de fim a
cada instante. Ainda que por um descuido ou peraltice ou por pura demonstração
de poder e da mais hialina maldade.
O
descuido aliado à peraltice foi responsável por uma das experiências mais
apavorantes que passei (uma delas. Tive outras também marcantes sendo que, de
outra forma e jeito, envolvendo faíscas dolosas).
Aconteceu
a partir de uma brincadeira da molecada que zanzava desocupada pelos arredores
da vila mineira que eu morava. Nessa época, a minha equipe de pesquisa tinha
montado um acampamento, coisa rara, bem perto da vila, da dita socialização. A
turma agora podia, depois do trabalho, jogar uma bola, brincar um bilhar, ver
televisão e apertar umas doses antes de dormir, nos ambientes de lazer que a
vila oferecia. O acampamento também tinha novidades. Os pavilhões foram
divididos em compartimentos para dois ocupantes. Não era mais aquele salãozão
entulhado de redes e tapiris. Construímos também um pequeno escritório em que
mantínhamos os documentos, as amostras e relatórios das campanhas. Todas as
construções em madeira nobre revestidas de pindoba matizada. Cobertura de
palhas verdes, e paredes entremeadas entre pindobas verdes e amarelas. Para
estas instalações destacamos um especialista em capotes. Assim, prevenimos com
uma boa amarração, que não houvesse goteiras no período de chuvas. A cereja do
bolo era a cozinha. Bem capoteada também, emparedada nas cores, trazia a
novidade de uma chaminé e um enorme fogão de barro para dar mais segurança e
opções aos cozinheiros. Nosso acampamento era um mimo. Lugar bom de ficar e
passar o tempo depois do trabalho.
A
cozinha estava no limite do terreno descampado. Depois, vinha uma mata densa e
diversa. Bem suprida. Com árvores altas, coloridas. Até Ipê tinha na área. Além
dessa pequena amostra da floresta ficava o campo de futebol, e mais adiante, a
vila. E foi exatamente nessa fronteira que a molecada aprontou. Uma faísca
cresceu de tal forma que o fogo consumiu boa parte da borda da mata que tinha
até umas culturas como bananeira e caju. Ligeiras e avolumadas, as chamas
avançaram para o nosso acampamento. A sorte foi que estávamos chegando do
trabalho. Agimos imediatamente com as caixas d’água que tínhamos, fizemos
aceiros e molhamos os telhados de palha dos barracos e, principalmente, o
telhado e as paredes da cozinha. Foi um sufoco. Impressionante a dimensão dos
espantos. As bananeiras simplesmente explodiam! Depois de muita luta, nos
batemos com aquela fumaça por um bom tempo ainda e a molecada por certo,
naquele dia, foi dormir com o couro quente, em que pese o argumento de que ‘não
tinha sido de propósito’.
Infelizmente
a fumaça sinaliza uma tradição secular. A limpeza de terrenos para agricultura
obtida a partir da queima da mata nativa. Os últimos dias, no entanto, têm
registrado um fumacio inclemente se estendendo sobre a cidade de Manaus e
também em porções da APA de Alter do Chão, regiões dissociadas de cinturões
agrícolas e espero eu, de traquinagens ‘sem querer’ que geram faíscas. Parece
que a fumaça sinaliza demonstração de poder, malinação ideológica, ódio
ambiental. Fogo que destrói coisas belas.