sábado, 7 de novembro de 2026

crônica da semana - onde tem fumaça...

 Onde tem fumaça...

Mudaria, na maior tranquilidade e sem o peso da culpa, o verso da consagrada canção de Caetano Veloso na parte que fala sobre ‘a força da grana...’ para a ‘força do fogo...’ (aquele fenômeno natural que do mesmo jeito que o dinheiro, ergue e destrói, faz o bem e faz o mal). Porque de certo vale. Conta para mim como uma certeza absoluta, o uso do fogo como uma das maiores artes conquistadas pela humanidade. Um bem de ofício e de sobrevivência. Estamos aqui hoje porque um dia nosso ancestral atritou um graveto sobre uma tabuinha e proveu um futuro aquecido, iluminado.

Por outro lado, de uma faísca pode ser decretado o fim de muitas e também reluzentes histórias. A Amazônia em diversos níveis vive iminências de fim a cada instante. Ainda que por um descuido ou peraltice ou por pura demonstração de poder e da mais hialina maldade. 

O descuido aliado à peraltice foi responsável por uma das experiências mais apavorantes que passei (uma delas. Tive outras também marcantes sendo que, de outra forma e jeito, envolvendo faíscas dolosas).

Aconteceu a partir de uma brincadeira da molecada que zanzava desocupada pelos arredores da vila mineira que eu morava. Nessa época, a minha equipe de pesquisa tinha montado um acampamento, coisa rara, bem perto da vila, da dita socialização. A turma agora podia, depois do trabalho, jogar uma bola, brincar um bilhar, ver televisão e apertar umas doses antes de dormir, nos ambientes de lazer que a vila oferecia. O acampamento também tinha novidades. Os pavilhões foram divididos em compartimentos para dois ocupantes. Não era mais aquele salãozão entulhado de redes e tapiris. Construímos também um pequeno escritório em que mantínhamos os documentos, as amostras e relatórios das campanhas. Todas as construções em madeira nobre revestidas de pindoba matizada. Cobertura de palhas verdes, e paredes entremeadas entre pindobas verdes e amarelas. Para estas instalações destacamos um especialista em capotes. Assim, prevenimos com uma boa amarração, que não houvesse goteiras no período de chuvas. A cereja do bolo era a cozinha. Bem capoteada também, emparedada nas cores, trazia a novidade de uma chaminé e um enorme fogão de barro para dar mais segurança e opções aos cozinheiros. Nosso acampamento era um mimo. Lugar bom de ficar e passar o tempo depois do trabalho.

A cozinha estava no limite do terreno descampado. Depois, vinha uma mata densa e diversa. Bem suprida. Com árvores altas, coloridas. Até Ipê tinha na área. Além dessa pequena amostra da floresta ficava o campo de futebol, e mais adiante, a vila. E foi exatamente nessa fronteira que a molecada aprontou. Uma faísca cresceu de tal forma que o fogo consumiu boa parte da borda da mata que tinha até umas culturas como bananeira e caju. Ligeiras e avolumadas, as chamas avançaram para o nosso acampamento. A sorte foi que estávamos chegando do trabalho. Agimos imediatamente com as caixas d’água que tínhamos, fizemos aceiros e molhamos os telhados de palha dos barracos e, principalmente, o telhado e as paredes da cozinha. Foi um sufoco. Impressionante a dimensão dos espantos. As bananeiras simplesmente explodiam! Depois de muita luta, nos batemos com aquela fumaça por um bom tempo ainda e a molecada por certo, naquele dia, foi dormir com o couro quente, em que pese o argumento de que ‘não tinha sido de propósito’.

Infelizmente a fumaça sinaliza uma tradição secular. A limpeza de terrenos para agricultura obtida a partir da queima da mata nativa. Os últimos dias, no entanto, têm registrado um fumacio inclemente se estendendo sobre a cidade de Manaus e também em porções da APA de Alter do Chão, regiões dissociadas de cinturões agrícolas e espero eu, de traquinagens ‘sem querer’ que geram faíscas. Parece que a fumaça sinaliza demonstração de poder, malinação ideológica, ódio ambiental. Fogo que destrói coisas belas.

crônica da semana - desliga e liga de novo

 Desliga e liga de novo

Comum era em nossos dias antes, quando um aparelho elétrico ameaçava pifar, a gente usar do macete de desligar logo, passar um pedacinho e depois ligar de novo. Era um procedimento consagrado na informalidade e na fé.

A televisão era a mais ativada nesta operação. Em alguns casos, para a TV, recorria-se à elaboração de desligar também da tomada, numa esperança de aliviar as dores de todo o sistema. Como, além da TV e da geladeira, não era assim de ruma que o pobre possuía outros bens, os resultados obtidos iam sendo catalogados para estes aparelhos com algum grau de confiabilidade. No frigir dos ovos, funcionava. A operação desliga/liga de novo dava mesmo uma valência. Não se sabia e nem se procurava saber o motivo da sobrevida do aparelho obtida com este macete, a obra ficava por conta da graça e da inabalável confiança que carregamos no coração. Mas, tudo tem um sentido de ser e haver...

Em trinta anos atuando na indústria de transformação, em contato com os mais avançados sistemas tecnológicos e circuitos eletroeletrônicos de ponta, me acostumei com o procedimento de ‘resetar’ comandos. Resetar vem do inglês ‘reset’ que pra gente aqui traduz exatamente o ato de desligar e ligar de novo. É a ampliação daquela manobra que a gente fazia intuitivamente lá atrás envolvendo nossos parcos bens. Agora, nesses tempos digitais, é tarefa rotineira que engloba praticamente todos os aparelhos e equipamentos presentes em nosso dia a dia. O mais comum nem é a TV ou a geladeira. É o celular. Missão imperiosa que temos para garantir a eficiência do bichinho é, de quando em vez, reiniciar o aparelho. Fazer o reset. Que diga, desligar e ligar de novo.

Penso ser assim no mundo virtual. E também no mundo de vera; no universo multifuncional, multiemocional, supra-social que habita a esquina da minha rua, a fila do supermercado, o pequeno empurra-empurra do ônibus lotado, os olhares desconfiados dos transeuntes, os enfrentamentos ideológicos, a luta pelo destino de uma nação.

As últimas semanas, passei sem comer, sem rir, sem falar, com uma das mãos trêmula, e com a outra rija e ‘empunhadora à proa’. Tava que não me aguentava mais. Tava em tempo de estoporar a face de tão rubra e aquecida que estava. E olha que me peguei com a Santa. Prometi o possivelmente cumprível, agasalhei minha cabeça no colo gentil de Nazinha, caminhei com a Rainha da Amazônia e com nosso povo em procissão de fé e esperança, cantei e rezei por um futuro de paz. Fervor que não rendeu o que precisava minha alma. O mundo cruel é difícil de ser suplantado. O mal se articula em murais resistentes, em contra-ataques ferozes, em fogo impiedoso e nos abala, e nos impõe táticas de resistência. E nos sugere uma operação salvadora para nossas TVs e geladeiras.

Dei um desliga e liga de novo alcançando até a tomada e a chave geral, e a consciência nacional, e a solidariedade universal, para que a dor do sistema todo fosse superada. Reiniciei. Reiniciamos.

Um alívio. Um choro de superação, revigorador, amenizador de crise se avolumou em minha face num momento de grande, de enorme emoção. Nossas mães, nossos ancestrais nos visitaram trazendo e reativando memórias. Projetamos os ensinamentos de amor para o futuro de nossos filhos, reviramos as consciências, revertemos ideias de caos e mentiras que habitavam sorrateiramente as mentes descuidadas. Buscamos no abecedário, dar a letra, dar o norte, o leste, o sul, o oeste para o bom brasileiro usufruir de seu território sentimental e físico. Não há fronteiras para o amor à nossa pátria, ao nosso irmão.

Tem uma hora na vida da gente e na história dos nossos sonhos, que os aparelhos afetivos, sociais, morais dão aquele sinal que vão pifar. Aí a gente renova aquele macete. Desliga, espera um pedacinho e liga de novo. Sai pra rua e sorri um sorriso de alívio para o mundo. Podemos sorrir.