Argos
Na
época eu já era algo enxerido pra escrever, e me assanhei, me apresentei, no
restaurante, como um cara que estava a fim de compor uma história esquecida no
tempo.
A
minha passagem por Rio Branco, foi cheia de surpresas. De prima, me assustei
com minha destreza. Me larguei do aeroporto parecendo um nativo. Atravessei a
ponte, chaguei ao centro, tracei roteiros. Tudo de ônibus. Muito achado, eu me
achava.
Estava
de passagem na capital, indo pra Xapuri. Desde minha saída, ainda bebê, do
Acre, aquela era a maior chance de conhecer melhor minhas raízes. Já havia ido
uma outra vez, mas fui de gandaia, aproveitando uma folga de fim de semana, no
tempo que eu trabalhava em Rondônia e
pouco me bandeei às questões atávicas. Fui com uma turma da mineração,
animadíssima, e os apelos etílicos e os souvenires comprados na fronteira com a
Bolívia foram atrativos bem mais sedutores que o reviver de histórias da vida
passada nas brenhas do seringal.
A
fome bateu. Parei num restaurante pra um cumê provedor. Arrematei a refeição
com uma sobremesa docinha pra dar sustância, um tanto de energia e fiquei por
ali fazendo hora com uma cerveja até chegar a vontade de marchar.
Aí
me apareceu a segunda agradável surpresa. Na mesa ao lado, um rapaz traçava um
papo com o dono do restaurante. A conversa da hora era o muro de Berlim, que
naqueles instantes históricos, estava vindo abaixo. Prestei atenção, dei uns
pitacos. Rolou a empatia. Mudei minha cerveja para a mesa do companheiro e
continuamos a conversa em outros e variados temas.
Tinha
um jeito despojado. Reparei na sandália que ele usava, que, para mim, me
pareceu confeccionada com pneu de carro. Cabelo desgrenhado encaracolado, barba
abundante e mal cuidada. Era professor respeitado da Universidade do Acre.
Intelectual. Formador de opinião. Uma pessoa doce, generosa e companheira. A
ele foi que falei que estaria ali para escrever a minha história pedida pelas
ruas de seringa.
Muito
solicito, disse já ter ouvido falar dos Sodreres do Xapuri, me orientou como
chegar à cidade e depois de umas cervejas e muitas idéias em comum, se ofereceu
para me levar até a rodoviária. Antes da viagem, me levou para conhecer a “Casa
do Seringueiro”, prédios históricos, praças, os pontos de movimento e diversão.
Para
chegar à rodoviária, poderíamos fazer o trajeto normal, mas segundo ele, não
havia sentimento neste itinerário. Cortamos o bairro central, a pé, margeamos
um pontal com casas na beira d’ água, pegamos uma canoa e atravessamos o rio
Acre até a outra margem (entendi, por esta aventura, o que ele queria dizer com
‘sentimento’. Tempos depois, quando escrevi sobre esta tarde em companhia do
professor Reginaldo, dei o nome de Argos à canoa que nos atravessou. Fez parte
da minha narrativa, abstrair aquela passagem como sendo a saga de Jasão, afinal,
não estava eu atrás do velocino, da prenda e do argumento para minha
reentronização no reino do látex?).
Aquela
tarde em Rio Branco me apresentou uma alma muito dada, muito digna. O professor
foi um amigo de altíssimo quilate, mesmo me conhecendo um issozinho
assim no ensejo de uma opinião sobre a queda do muro de Berlim. Nosso contato
fugaz me fez perceber que somos amazônidas muito iguais (ele me mostrava aquela
batidinha de ‘tudo índio’ que temos, pelas ruas de Rio Branco) e isso me fez
entender a unidade ativada pelo convívio com esta densa rede de rios, com estas
ricas florestas. A tez amazônica nos horizontaliza a personalidade e nos faz
irmãos. Anos depois me vem a certeza de que histórias ternas e de gentes doutas
e boas como Reginaldo Castela devem ser
contadas.
Pois é caro Raimundo, muros que separam também unem. Barcos que fazem viagens "medonhas" como de caronte, do auto do inferno etc., também podem ser comparados a barcos que unem, imagine que antes da ponte que vc. atravessou existia um "barco!" - catraia, que era estatal, ou mais precisamente, governamental? Deveria ter outras mais rápidas, mas essa era mais barata. A satisfação de poder sementear vínculos tão cheios de amizades amazônicas só nos inspira a seguir minimamente sendo "útil" ou melhor, parceiro de transitar nos labirintos de nossas amazônias. Estou à disposição sempre para novos papos sobre muros, barcos ou pontes. Um abraço e "gracias" pelas gentilezas...R
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