Gentes
Dou
o maior valor nos sonhos. É coisa de impressionar. Ouvi algures que o sonho,
mesmo aquele que roteiriza uma vida toda, não dura mais que poucos segundos.
Não sei se é válida esta afirmação. Um dia vou me envolver no resultado de
alguns estudos e me certificar desses detalhes, mas sei lá, acho que tira o
encanto. Até lá, às certificações, o termo dos sonhos e das viagens que a gente
faz, enquanto dorme, bom mesmo é deixar rolar.
Faz
poucos dias, coisa de uma semana, sonhei com a primeira vila operária que
morei, quando cheguei a Rondônia. Isso há quase 40 anos. E olha, meu sonho foi
buscar detalhes. Cantinhos, nichos de reflexões, beiradinha de igarapé, recanto
das diversões, minha casinha, as pedras que eu colecionava, as fotos de Belém,
dos amigos e dos amores que me matavam de saudade e que eu deixava em lugar
estratégico, defronte do meu choro diário... Um sonho tão perfeito! Sonorizado
em dolby stereo, colorizado em todos os tons do espectro, com passarinhos
cantando, carro passando ao longe, barulho de panelas na cozinha, lá em cima,
além da ladeirinha e um canto de trabalho da Dona Adélia enquanto preparava os pratos
do dia... o zunido do vento invadindo o talvegue dos igarapés desde lá de longe
até cá embaixo, no cenário do meu sonho, rés o meu travesseiro.
Não
sei vocês, a ser sincero, não sou de lembrar, confesso, mas dizque também, que
dos sonhos, é normal a gente esquecer logo que acorda, por isso corri aqui para
o computador, pra registrar este um, ainda na fresca da manhã. É que exato este
sonho me chegou com uma retórica rígida, munida de realismo espetacular, cheio
de sentidos, tato, cheiros, meu barraquinho...
A
bem da verdade era um bloco de alojamento composto por dois quartos. Chamo de
minha casa porque durante a maior parte do tempo que vivi ali, morei sozinho no
bloco. Era como se habitasse numa casinha com dois quartos. Os blocos ficavam
no entorno de um espaço multiuso que chamávamos de refeitório. Área ampla, de
um salão grande com a mesa se estendendo e dominando todo um lado do
compartimento. Ali, era também nosso local de convivência e recreação. Havia um
bar, com bebida de tudo quanto é qualidade, de cor e teor alcoólico, e olha,
era bem freqüentado, porque o que fazíamos muito por lá era beber. Dava de
tardezinha depois do expediente, todo mundo encostava no balcão, sujo mesmo do
trampo e entornava o caldo. No destaque, uma mesa de bilhar dominava o lado oposto
ao balcão. Era o teatro de operações onde nos debatíamos em acirradas contendas.
Meio largadinha, uma TV pregada na parede, que ninguém nem ligava porque não
tínhamos parabólica e o sinal da região era bem fraquinho, só rolava um chiado
e um chuvisco intenso. Tudo isso fazia parte do agrado, era o chama da empresa
para nos segurar naqueles sertões do oeste brasileiro. Ao pegado, na extensão
do salão, ficava a cozinha que era comandada por dona Adélia, nossa cozinheira,
aquela que nunca errava a mão e produzia nosso cumê com um livro de receitas
(dela mesma) debaixo do braço (e que saborosas lembranças! No sonho, eu senti o
cheirinho dos carinhados pratos que ela criava e, ora veja, o mais fantástico,
a base de quiabo).
De
manhã, acordei mais afeito aos ânimos de Rondônia em 1983, nos estertores do
regime militar, que aos dias plúmbeos atuais malinados por nostalgias
espasmódicas golpistas.
Um
sonho perfeito, tão real, que me cobrou os pés mergulhados no igarapé da
memória. Que me propôs, assim como há 40 anos, lutar sem reservas e sem limites
pela vida. Não vi gentes (nem mesmo D. Adélia), no sonho. Minha gente anda
triste.
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