Abacaxi bromélia
Tem cor de
abacaxi, coroa exuberante, casca áspera, brota no meio de folhas alongadas, rígidas
e cheias de espinhos, como o abacaxi, mas não é abacaxi. Trata-se de uma planta
da família das bromélias que tem o cultivo voltado para a decoração. Poderíamos
até comer o lindinho, mas dizque é azedo que dói. Tem por fim, enfeitar mesmo,
pois que medindo em torno de cinco centímetros, não dá nem um estalo entre os
incisivos, avalie um suquinho pra família.
Está na minha
conta como aquele que parece ser mas não é.
Este
abacaxizinho nascendo como bromélia no meu jardim até que me colocou dúvidas.
Pesquisei, perguntei a amigos e amigas sobre ele. Esclarecido fiquei. Sobre
outras e relevantes questões da vida, não tenho dúvidas.
Há anos, orbito,
me embrenho entre os bons e até milito na arte. Dei de escrever. Faço versos aqui, ali. Meu caminho foi
construído em contato com as mais variadas manifestações artísticas e,
principalmente, aquelas de força popular.
Sou da rua. É
ter uma reuniãozinha de escritores ou batuqueiros na praça, um show na beira do
rio, tô dentro. Tem um arrastão do Pavulagem? Umbora então nós. Carnaval? Me
leva que vou. Entendendo, percebendo traços, conceitos, interagindo,
construindo laços de amizade e sempre atrás do prazer e do divertimento
saudável.
Em tempos não
tão remotos, acompanhei e participei de boas iniciativas marcadas pela ocupação
de espaços públicos. Eventos que pregavam a diversidade e o reconhecimento de
identidades culturais. Riquíssimos em qualidade, em elaborações. Muitos dos
artistas que nos encantam hoje e que alcançaram boa exposição na mídia,
pavimentaram seu caminho naquelas reuniões.
Encontros
maravilhosos, produtivos, sonoros, plásticos, aqueles. Que aos poucos foram sendo
tão severamente reprimidos ou por agentes da administração ou da segurança
pública, obedecendo à lógica da força. Do ‘te aquieta a pulso’. E tanto e com
tamanho rigor, que os artistas e produtores se viram forçados a sair de cena. E
eu, amante das artes, das peças e praças do povo, me vi órfão das coisas boas
da vida, fui me amofinando, ficando pequenino, azedinho, com aquele sentimento
de parecer ser o que não é, tal qual o abacaxi bromélia.
Depois veio a
pandemia e completou a derrota.
Sem arte, sem
vida. Sem artes, desilusões. Sem o alento da arte, ensimesmamentos e banzo. Este
cenário sem cor e sem graça, sem pano de fundo nem música incidental, esta tela
branca de silêncios relegados aos cantos, ao acanhamento, faz as vezes de um soterramento.
De um afogamento pra dentro da gente. É como se engolíssemos, depois de
mastigar bem mastigadinho, os próprios pulmões.
Às vezes penso
ser coisa da idade. Porque, tá que tá que a idade mexe em tudo na gente. Outro
dia fui fazer um exame de rotina e uma simples pinicada criou logo um catumbi,
arroxeou, sangrou que só, deu febre e pressentimentos, crise de abstinência de
álcool e doces, pânico, panemice, anuviamento, apatetamento e falta de senso,
crise existencial, choro escondido, reflexões sem fim, alarmes falsos de
desfalecimento, síncope, soluços, uma sensação de estrepe no dedinho do pé,
cheiro de queimado no nariz, chiliquitos, dordolho e saudades imensas do rio
Acre, das corredeiras do Madeira, das cachoeiras do Xingu, daquela
lua imensa boiando do Amazonas na orla de Macapá. Da Guajará.
De repente
tornei. Era domingo 15. Venci o medo de sair de casa, procurei meu título,
agarrei e fui votar, na esperança de que tudo isso passe.
Nenhum comentário:
Postar um comentário