terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

crônica remix- aguerra do

A Guerra do Fogo
A descoberta do fogo foi um grande passo para a humanidade. Só não entra na minha cabeça como os nossos antepassados conseguiram produzir o fogo esfregando um pauzinho no outro.
Se eu tivesse nascido há uns 100 mil anos, eu tava na roça. Não ia me garantir sem uma caixa de fósforo.
O filme A Guerra do Fogo, no entanto, mostra bem direitinho, para incrédulos dependentes como eu, a saga de nossos ancestrais para dominar o fogo.
A Guerra do Fogo é uma produção franco-canadense de 1981. Tem roteiro de Anthony Burgess e direção de Jean-Jacques Annaud. Não apresenta um cast de colunáveis, mas também, se lá houvessem, não ia adiantar de nada porque a caracterização dos personagens, resultante de uma impecável maquilagem, macaqueou os atores com tal zelo que, nem que a gente prestasse bem atenção, daria pra reconhecer algum famoso. Exceção feita ao Ron Perlman que se deixa revelar em algumas seqüências, principalmente naquelas em que está comendo aqueles piolhinhos pré-históricos catados do próprio corpo, coisa bem ao estilo de um outro personagem que ele fez, o Salvatore, em O Nome da Rosa (aquele que comia ratos...argh!).
Na trama, uma reflexão sobre a linguagem. Uma brilhante abordagem sobre os modelos de comunicação primitivos que prescindiam da palavra ou, no máximo, se reduziam às mínimas articulações vocálicas.
Alinhavada pela linguagem gestual, pelos urros e grunhidos, a aventura do homem primitivo é contada como uma busca incessante pelo domínio do fogo.
Num contexto entrecortado por conflitos tribais em disputas selvagens pela posse da chama provedora, lampejos emocionais imputados aos Neanderthais primitivos (como a descoberta do riso e da paixão) e apimentado por uma discutível afinidade genética entre os Neanderthais e o homem moderno, a trama se desenvolve condensada, inerte, amarrada aos instintos dos personagens.
E são os toques reveladores da superação humana e os itens naturais responsáveis pela preservação da espécie, que são tecidos pelo diretor do filme com extrema ousadia e precisão (já pensou, contar a história de duas tribos e suas relações distintas com o fogo, num enredo que não se utiliza de uma palavra sequer? É coisa de gênio).
Assisti ao filme em 1989. Lembro bem do ano porque era época de eleição. A Globo entrou com A Guerra do Fogo, logo após a propaganda eleitoral. E por saber a data, desconfio do teor de verdade do ferino comentário feito por um amigo que diz que eu fui um dos seis fiéis telespectadores que viram o filme até o final. Que maldade!
Argumenta o meu amigo, que é um filme cabeça não muito fácil de assistir, por isso a debandada.
Para mim, o filme é perfeito.
E quer saber, não éramos seis, não. Uma galera estava ligada na telinha, naquele dia.
Fiquei maravilhado com o filme. Só que depois daquela exibição, não mais ouvi falar dele.
Ouvi assim, em conversas com amigos, em comentários e resenhas, mas, notícia de outra exibição, necas. Alguns até me diziam que tinham visto anunciar no Corujão para tal dia, mas, eu ia atrás e nada.
Até que, este ano, consegui, na internet, uma cópia em DVD do filme. Tô todo pávulo. De vez em vez repasso uma cena e reflito sobre as suas conseqüências históricas (como a cena de amor paleolítico entre os personagens principais). E, não disse que muita gente tava ligada, naquele dia? Tenho uma lista interminável de pedidos de empréstimo do DVD. Para diversão, trabalhos acadêmicos, debates...
O filme tem o seu quê didático também. Ensina até a fazer o fogo. Só que com gravetinho eu não dou conta não...Tem um fósforo aí?

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

crônica da semana- te sossega

Te sossega, pequeno, cria termo
Às vezes, a gente se vê em situações-limites em que uma decisão precisa ser tomada, um jeito nas coisas tem que ser dado, Uma definição para os haveres tem que vingar. Nessas horas bate o nervoso.
Cada um de nós tem seu calibre para esses momentos. Reações historicamente medidas. Mas na maioria das vezes, a nossa resposta foge à regra, não é previsível. Reagimos intuitivamente e quase às cegas da razão.
Dia desses, me vi, com dizia minha mãe, encalacrado. Pressão por todos os lados. Medo e solidão. Mas tinha que ser eu mesmo na parada. E me virei nos trinta. Virei, mexi, e ainda, segundo minha mãe Luzia, pintei os canecos. Fui varando, resistindo às intempéries. Embora eu tivesse que me aviar ligeiro, ainda deu pra me perceber, me observar. Atinar para a minha batida de nervosinho.
Descobri que, quando me ‘vejo no calor da luta’, eu me dano a comer. Quanto mais aperreio, mais fome. Uma fome sem sentido, às avessas e inexplicável. Nesta empreitada recente, para dirimir o sufoco, em poucas horas, enquanto maquinava soluções, acabei com o meu frugal jantar da semana (que se constituía em dois pães, meio pacote de bolacha, uma banana e uma banda de mamão). Andava um pouquinho, dava uma mastigada. Uma ligação, dúvidas incessantes, estresse e mais uma volta pela cozinha. Até um tabletinho de chocolate espanhol que havia ganhado da minha cunhada e que guardava como relíquia, foi no embalo.
Pra gente que está à deriva, é difícil criar termo. Não dá pra controlar o vento nem as ondas, e o usual é sucumbirmos aos tiques. É quase impossível para o ente, sossegar.
As manifestações são as mais diversas. Eu, meio que viro um avestruz e como de um tudo. Outras pessoas dispersam a tensão com expressões físicas ou emocionais.
Minha amiga de trabalho Paty, por exemplo, mexe o pezinho. Ela sobrepõe os pés de forma que o pé que fica embaixo toque sutilmente o chão com a ponta do sapato. Funciona como alavanca. Dali, vem a força para vibrar todo o conjunto de panturrilhas e calcanhares em movimentos verticais acelerados. Para cima e pra baixo. E sem que ela se dê conta da maratona. De cá do meu cantinho penso: “ihhh, tá pegando ali pra’quele lado”. Disparo uma água-com-açúcar verbal qualquer e atenuo o clima com uma pergunta apaziaguadora: “e este pezinho balangando aí?”. Um esforço, faço, para que tudo fique na mais perfeita calma. E para que minha companheira de trabalho se sossegue, crie termo e produza, mas produza na paz.
Mas a manifestação que mais me impressionou, dessas ‘sem’querências’ nervosas, foi a da minha amiga Indy, num seminário que fizemos lá no curso de Geologia.
Havíamos de dissertar sobre um livro clássico e na hora o professor sorteava qual o capítulo exploraríamos. Ou seja, tínhamos de dominar todos os capítulos. Quando chegou a hora dela, a Indy desabou. Foi impressionante. Postou-se a frente do quadro e não controlou as lágrimas. Chorou, falou palavras desconexas de escusas, de desculpas e ponderações. Tentava explicar aquela situação inexplicável. Mas aquela cena, aos poucos foi se transformando numa sinfonia ao contrário e demonstrando o quão maravilhosa é a nossa mente. De um alegro convulsivo, Indy migrou para um adágio adocicado. Sem que ninguém a interpelasse ou a amparasse, Indy parou de chorar, enxugou as lágrimas, abriu seu apontamento. Venceu o medo de falar em público, o tema complexo e deu um show. Nos brindou com  uma das mais competentes apresentações daquele dia. Superou-se, Indy. Aquietou-se, criou termo e ao final do seu trabalho, nos emocionou a todos.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012


Sonho de carnaval
Há tempos tô com vontade de desfilar meu charme numa das nossas Escolas de Samba. Este ano, tô a fim. Há um astral, mesmo que tímido ainda, pairando sobre o nosso carnaval de rua, mas reconheço ser um astral animador anunciando ‘a festa da carne’, e diante do clima,  já fiz uma jura: vou para a avenida do samba.
A Escola vai ser da Pedreira, é claro. Talvez duas, se o preparo físico de jogador de porrinha permitir. Vou tentar me arriscar também num bloco de empolgação. E se tiver um por aí bem ao estilo  revolucionário do velho Agüenta o Tombo, vou que vou com tudo (é um tombo pra cá/é um tombo pra lá...).
O problema é com que roupa eu vou.
Perdoem-me os diretores de harmonia, mas não tem cristão que me faça vestir aqueles balangandãs multicoloridos, aqueles acessórios, tão carinhosamente idealizados pelos nossos talentosos carnavalescos e que, verdadeiramente, enriquecem as fantasias. Não. Não tem quem faça.
Das alegorias de mão, me poupem: os deuses da folia reclamam as mãos soltas para louvá-los. Adereços e penachos que atentam contra a lei da gravidade, nem vem... Chapéu estilizado que ocupe uma das mãos com a missão menor de equilibrá-lo no cocoruto, eu dispenso: nada de coreografia “moça do leite condensado”.
Sobre os ombros, negatofe.
Nem resplendor de papel laminado, ou arco-íris de isopor, tampouco asinhas emplumadas que ficam entesando a gente na inglória missão de fixá-las. Não. Não quero nadica. Na avenida, meus queridos diretores, eu quero ser livre. Quero esvoaçar pagão sobre o asfalto e mostrar no pé a ginga de moleque pedreirense  e o samba que habita meu espírito.
Também nem tanto, né!
Não vou pleitear um lugar no nicho libérrimo que é a ala dos de sunga e brilho. Eu, heim! Com essa barriguinhazona e esses gravetos (vulgo canela fina), nananina. Não quero ser alvo de comentários populares do tipo “que coisa reeedícula”. Pelos mesmos motivos, declino de uma tanguinha na ala dos Tembé. De tanga? Ah, ah, ah, ah...Olha que as coisas vão sobrar...
Devemos nos entregar a liberdade momesca, mas devemos, também, manter o mínimo de lucidez para evitar a bizarrice. Devemos lembrar que haverá, lá na frente, uma rígida quarta-feira de cinzas a nos esperar com o caderno de contas na mão.
Deus Baco que me livre e guarde, em contrapartida, do alto dos carros alegóricos. Ali, sobre aquela plataforminha tremelicante segurando aquela varinha bêbada, e bêbado eu! Lá pras altura eu é que não vou me abalar. Lá em cima, não abriria nem os olhos, que dirá o samba no pé.
Mas taí: um chapéu Panamá, uma camisa listrada, uma calça de cetim... a sapatilha prateada, a barba por fazer, que tal? Ah, de passista, tipo malandro carioca de gestos leves e faceiros (um desafio para os meus sessenta e poucos quilos, admito), eu vou. Livre para alçar vôos sobre as luzes da avenida, para acariciar o povo animado da arquibancada da Aldeia Cabana, para reverenciar o meu povo da Pirajá, bem localizado, à beira da calçada. Obediente para pedir a bênção dos deuses, livre para desenhar no chão da Pedreira, o meu coração de sambista.
Legal, de passista é que eu vou. Livre para me entregar à poesia do carnaval. Com a confortável possibilidade de, foi-não-foi, fazer par com uma alucinante mulata, com o mistério, com o desejo, com a ilusão e com os sonhos de carnaval.
Ah, fazer par com a maravilhosa mulata...
Sim, eu vou de passista. Mesmo que seja em sonho, é de passista que eu vou.  

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Crônica da semana- vai querer...

Vai querer decidir?


Dia desses, eu me vi aperreado. Peguei uma virose que me amofinou às pampas. Antes, a gente se curava desses banzos, logo, logo, com a ‘piula do mato’, (as famosas bolinhas plúmbeas "purgativas à base de cabacinha desenvolvidas pelo doutor cirurgião Mattos, no final do século 19”). Era tiro e queda. Não tinha errada. A gente botava tudo pra fora. Mas hoje em dia, sabe como é. Temos que dar fôlego aos convênios. Abalei-me a Belém para uma consulta. 
Foi em cima, foi embaixo, aquele velho soro, tira a pressão aqui, a temperatura acolá, um captoprilzinho debaixo da língua, um ‘enzame’ de sangue rapidola, só pra não perder o embalo...passa o dedinho na luzinha, deixa tudo pago e... não é que tornei. Deixei o hospital e estava tão entusiasmado com o meu pronto restabelecimento, que resolvi voltar a pé pra casa. Aprumei pra pegar a sombra do Bosque. 
Mas não tem a porqueira do capiroto pra a atentar? Antes de vencer a primeira esquina, quando atravessava a calçada de um posto de gasolina, um desajustado do juízo passou como um raio, tirando um fino nanométrico de mim. Do jeito que vinha na Almirante Barroso, o sulfuroso entrou no posto. Nem um bi bi de buzina deu. O desgramado só não me levou por inteiro porque Deus não quis. Meu nome não estava na lista dos indicados a ter com o Pai, naquele santo dia. 
Meu Jesuscristinho do meu coração, eu sei que é pecado mortal. Que papai do céu ralha, mas naquela hora me deu um ódio tão grande daquele homem. Uma ira nada santa. Não tô dizendo: vinha de passamentos matizados de palidezes e desânimos. Tinha acabado de pular uma fogueira. Estava respirando e amando a vida, e aquele desditoso por um triz quase me despacha sem quê nem pra quê! Não. Reinei naquela hora esfolar o cara vivo. Esmigalhá-lo sob os pés pra ficar só a pasta. Pô, tenho meus filhinhos pra criar. Minha mulher vai se formar daqui a pouco (e vai rolar muita gelada) tenho viagem acertada pra z’oropa e este um querendo cortar o meu barato. Nananina. 
Do trisca em mim, ele parou lá na frente, na bomba, pra abastecer. E cheio da pose. De lá, ficou me tirando, me esnobando. 
Fiquei ali, como se fosse uma estátua indignada, ruminando aquela gabolice. Quando dei que meus 1500 milímetros estavam intactos e fora o susto, nenhuma outra pendência me consumia, larguei minha vingança saramaligna pra lá e continuei o meu caminho sem olhar para aquele mundo incompreensível de sal atrás de mim. Porque sou de paz (e também, porque o cara era um teba e ia me dar um trabalhinho ali, na hora do vamos ver). 
Não gosto de violência. Tô aí na rima dos enta, e apenas um fato, na minha biografia retrata um confronto computando socos e pontapés. Foi na adolescência e foi por causa de bola, no campo de piçarra da Marquês. E só aconteceu porque a pariceirada deu muita corda. Atiçaram, os moleques. Fizeram o risco no chão. Puseram a mãe no meio. O meu contendor, coitado, desconversava, ria risos nervosos e se expunha no máximo à disputa ombro-com-ombro sob a descompromissada pergunta “vai querer decidir, vai querer decidir?” 
Até que fomos jogados um contra o outro, e o pau torou. Eu dei a primeira. Era lei: quem dava a primeira ganhava a luta. Até separarem a gente, o mundo era apenas uma sugestão para mim. Não via nada, não ouvia nada, não sentia nada. 
Dali fui pra casa com o olho roxo, o beiço por acolá de inchado, zonzo, em suma, todo escambimbado. Peguei um carão da mamãe e um castigo de não ir para as matinês do Paraíso por dois domingos. Até hoje não entendo como fui considerado o vencedor daquele briga. Mas enfim, era a lei. 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

crônica remix- uma pedra

UMA PEDRA NO MEU CAMINHO

O meu primeiro mineral foi um diamante. Apareceu rolado, do leito de um pequeno curso d’água que corria no fundo da vila em que eu morava, na Pedreira. Encontrei a pedra, enquanto atalhava, pelos quintais lamacentos, o caminho que levava a um campinho, ali na baixa da Pedro Miranda. No início da tarde, havia arriado um pampeiro daqueles e a enxurrada tinha entulhado o pequeno igarapé com uma diversidade de detritos e muita areia.
Quando eu e minha patota cruzávamos o igarapezinho, avistei ali, insubordinando-se em meio àquele monte de areia, o meu precioso. Categórico, absoluto. Imponente, provocante. Luzindo decidido, a oferecer-se para mim.
Nos tempos em que achei um diamante, o meu bairro tinha um quê de bucólico e produzia em si, prazerosos argumentos árcades: Era a Pedreira do Samba e do Amor. Aquela pedra apareceu para mim, no tempo em que os primeiros mistérios apresentavam-se atraentes, velozes. Ora inocentes, ora condenáveis (mas sempre mistérios, e sempre atraentes). Surgiu no meu caminho quando eu era um garoto que usava suspensórios, bermudas da “Jaú Júnior”, não chamava palavrão e acreditava na ilusão de ter nas mãos, um diamante que nem aquele do João, o virtuoso personagem do Tarcísio Meira, na novela “Irmãos Coragem”.
Mas tudo flui, previne o filósofo grego, desde a antiguidade. O mundo, as coisas do mundo, são dotados de movimento eterno. E aquela tarde foi ganhando outro sentido. Ajustando-se aos caprichos (nem tão caprichosos) da razão.
Tudo se movimenta, tudo muda.
A minha Pedreira de outrora exibe-se agora, mais pelo medo e pela solidão do que pelos prazeres do samba e do amor.
Os quintais lamacentos povoados de chamichuga não resistiram aos ataques da especulação imobiliária. Do campinho onde a minha patota esbanjava caté, com a bola no pé, erguem-se agora, dois desengonçados xeno-espigões. E os cursos de água que animavam de surpresas as nossas tardes assumem, desgraçadamente, a vocação para esgoto a céu aberto.
Depois daquela tarde chuvosa, a minha ilusão foi posta à prova. As minhas impressões submeteram-se às avaliações técnicas. As minhas fantasias sucumbiram ao rigor científico.
Dali em diante, a minha pedrinha, sob a luz da verdade, ganhou status de grão arredondado, agregou dimensão de seixo, revelou-se em brilho vítreo e definiu-se transparente. Ganhou identidade atômica no silício e no oxigênio e um nome: quartzo.
Daquele passado, nos quintais da Pedreira, até aqui, o meu diamante, sob as amarras inequívocas dos conceitos, transubstanciou-se em quartzo. É como se, ao longo do tempo, a minha carruagem fosse, inevitavelmente, se transformando em abóbora...
Hoje, o garoto que varava os quintais, resigna-se, por fim, consolado pela consciência do homem maduro. Sem ressentimentos ou traumas porque acode-me, providencialmente, a psicologia quando diz que dentro da gente, respira, subversivamente, uma criança. Portanto, embora no meu presente, eu reconheça que aquela pedra que cruzou o meu caminho, numa tarde chuvosa da Pedreira de antes, era, na verdade um quartzo, no fundo da minha alma, resiste a convicção infantil a certificar: era um diamante. O meu precioso diamante. E quer saber, mais belo, mais brilhante e mais bonito do que qualquer outro já imaginado.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

crônica da semana - Olê, olá

Olê, olá, Belém

Nesse finzinho de janeiro, mês que se comemora o aniversário de Belém, quero fazer uma homenagem a este pequeno que é incorrigível, destrambelhadamente apaixonado pela mangueirosa. A música dele, todo ano a gente canta: “Olê, olá, Belém/minha namorada que me trai também...nem bela e nem formosa/cabocla desajeitada e pequenina/simples como a beleza de uma rosa/mundana que não pertence a ninguém”. Um samba, uma confissão de amor que, tenho pra mim, figura entre as três declarações mais mimosas que a cidade já recebeu (as outras duas, entendo que estão contidas nos versos de “Flor do Grão Pará”, do Chico Sena e no poema inspiradíssimo de Adalcinda Camarão, “Bom dia, Belém”). 

Não somos íntimos. São contadas as vezes que nos topamos teti-a-teti. Uma vez na escada do prédio da Biologia, na UFPA, onde evidenciou-se a impressão de que nos conhecíamos de algum lugar, e nada mais que isso. Uma outra vez num happy hour com poesia, num dos pontos chiques da cidade. E ainda a última, no lançamento do livro do poeta Renato Gusmão. Poucas vezes. Mas plenas de agradáveis surpresas. Credito este vago de encontros aos caprichos do tempo e das oportunidades (porque escapamos de conviver mais intensamente naquela época em que ele, o compositor já consagrado, Alcyr Guimarães, lançou seu olhar dadivoso para o nosso ‘Grupo Musical Hera da Terra’. Foi um tempo bacana. Alcir participou de alguns shows, produziu, se interessou, aproximou-se da Déia Palheta, uma das nossas estrelas...fizeram trabalhos juntos. Mas olha só a arte do desencontro, eu fazia parte do grupo, só que nessa época, estava fora de Belém, na lida pelos ermos da floresta. Perdi). 

Sou fã. Do cantor, do compositor, do amante das artes. Do mestre. Mas sou fã, mesmo, do cara, do camarada, do amigo Alcyr. E muito pela surpresa dos raros encontros. 

Naquele happy hour, por exemplo, fiquei besta de ver como o Alcyr é franco no termo e no traço. Nunca tínhamos nos falado. Estávamos numa mesa com vários ilustrados (e eu era só um pão de sal em meio a tantos croissants), mas ele se ajeitou ali do meu lado, me deu ibope. Trançou conversas, contou ‘causos’. De prima me chamou pelo nome e sobrenome, fez-se presente numa folga tal que, se um desavisado abstraísse aquela cena, intuiria que nos conhecíamos desde a mais tenra infância. Agora ‘mire e veja’ a minha pavulagem. Passei dias com cara e jeito de metidão só porque tinha encarreirado uma prosa com o grande Alcyr Guimarães, pelas quebradas da Matinha. 
Ele é assim mesmo. Chama atenção pela humildade. No lançamento do livro do Renato, este detalhe no caráter do Alcyr aflorou novamente. O espaço estava lotado, cadeiras ocupadas. A gente vê, nessas horas, o frigir das vaidades. Eu, pra frente que sou, fui me enfiando, ganhando terreno, me aquietei num cantinho. Peguei meu autógrafo e fiquei por ali apreciando as atrações da noite. Quando olhei pra trás, encostado numa coluna, em pé, silencioso, discreto, quem me estava? O mestre. Só saiu de lá quando alguém demandou um violão e ele prontamente se ofereceu pra tocar. Retirou-se (desconfio que foi lá no Jurunas buscar a viola) e quando voltou, pôs-se à disposição para acompanhar os cantores e as cantoras que iriam dar as canjas da noite. Achei aquela sequência de discrições bem postadas e entregas desmedidas, uma revelação. Uma lição. 
Lamento não poder ter e haver com o Alcyr mais vezes. Sorver, mais frequentemente, um tiquinho do talento e da candura dele. Mas esta distância dócil e indolor, acaba nos unindo. Algo nos faz perto. Olê, olá, Alcyr, amamos Belém. 

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

crônica remix - a parede

A parede da memória
Estive aí pensando sobre a capacidade que a gente tem de lembrar das coisas. Acho que por causa do enredo daquela novela da Globo na qual a trama se desenrolava a partir do roubo de uma criança ocorrido em 1968 e (caramba!), uma pá de tempo depois, o rapaz, irmão  da bebê raptada, dizia lembrar de tudo, tintim por tintim . Égua da memória!
Eu, por mim, não teria esta competência, mesmo porque tenho uma capacidade reduzidíssima de guardar as coisas. Até eventos acontecidos na biqueira, tipo  ano passado ou mesmo ontem de tardinha, já me são um sacrifício lembrá-los.
Aí, ante esta dificuldade, e como eu não tenho traumas  catalisadores como o pequeno da novela, crio uns mecanismos, arranjo uns truques que me voltem à cena.
Vou, digamos assim, tateando créditos, fuçando evidências, embaralhando ficção e realidade, até que a história se mostre coerente, verossímil , daquelas que não tem errada.
E se, no final as coisas se encaixam é porque estão numa lógica. Assim, a história, qualquer que seja, pode até estar longe na memória, fugir um pouco da realidade e ter uma pitadinha de vontades diluídas no mar de nossas frustrações, mas não fica nem um pouco destrambelhada . E esta passagem, eu juro de pé junto que aconteceu:
Era uma noite umedecida pela chuva fina, lá pelos idos de oitenta e poucos. Mês de julho. A debandada para as férias em Mosqueiro esvaziara a minha turminha da tertúlia na New Wave e eu voltava sozinho para casa.
Ali na baixada da Pedreira, o alagado era um só. Eu tinha que saltear as passadas entre os caminhos de terra firme e os estirões de pontes mal cuidadas que iam desde a Itororó até os altos muros da Escola Salesiana.
Grilos cantavam afoitos, pirilampos animados iluminavam tufos alastrados de capim, sapos coaxavam roucos em homenagem ao pampeiro que desabara sobre a cidade desde a tarde e que àquela hora da noite era só uma garoinha.
Ninguém na rua, mas eu não tinha medo. Já estava acostumado àquela batidinha noturna.
Quando enfim, eu dei na esquina do Centro Auxilium, que susto! Uma nave enorme, de fuselagem reluzente e luzes faiscantes pairava sobre a solidão da Alferes Costa. Flutuava a uns dez, vinte metros de altura, no máximo. Estava bem pertinho de mim. Pela janela, dava até pra ver uns equipamentos de controle e alguns ET’s verdinhos tagarelando e apontando insistentemente para mim. Explodi apavorado: “Égua, moleque, é o Chupa-chupa!” Depois as luzes foram ficando mais fortes, mais fortes, eu ficando encandeado, as luzes ofuscando tudo em volta, eu fui saindo de mim, me entregando a umas sensações estranhas...Depois, os sentidos sumindo...Sumindo...
Fui abduzido.
Isso aconteceu há pelo menos uns vinte anos. A minha memória, como disse, não é lá essas coisas. Então, que fique claro: a cantoria dos grilos e sapos, os pirilampos animados, os muros altos da Escola Salesiana, o alagado da rua foram mentirinhas criadas para apimentar a história. A solidão  da rua, as luzes faiscantes, uma reação apavorada e tudo o mais, são a mais pura verdade. A absoluta verdade. Juro.