sábado, 24 de janeiro de 2026

crônica da semana - calçada partilhada

 Calçada partilhada

Uma perda, meu pai! Deixamos a frasqueira com parte da nossa aviação para aquele passeio, dentro do táxi...

Amar Belém, hoje em dia, também significa ter intimidade com seus estirões e ter jeito de corpo pra contornar encalacres, desfazer anuviamentos e certeza de perdas lá pr’acolá praquelas bandas que não são as nossas. Por agora, temos a internet, os aplicativos de localização, ônibus indo e vindo. Em tempos atuais, nos achamos fácil, no amor.

...Nem sei com que posses e decisões, mamãe arrumou aquele passeio pro Guamá. Tinha mesmo uma amiga que morava por lá. Vibrava na sintonia de mamãe. Era da marretagem. Vivia sozinha com a filharada, se virava no empreendedorismo de rua e contava sempre com as amizades que fazia pelo caminho. Lembro dela muito claramente e me vem o detalhe de ter sido das primeiras mulheres que conheci, dada a colorir os cabelos com cores outras se não aquela natural. Era desprendida. Moderna. A batidinha dela era aqui pela Pedreira. Tinham negócios juntas. Coisas ali da parte de vendas e cobranças. Deu-se então que dessa vez, convidou mamãe e toda a tropa pra passar um dia na casa dela. Concentramos na missão. Mamãe reservou o numerário (pro táxi e outras precisões), fez uma comprinha básica no Sandra, nos pôs todo mundo na pinta, com nossas melhores peças de roupa, deu o beabá do comportamento e nos largamos para o Guamá.

A casa era numa daquelas ruinhas que varam no rio. A amiga esperava a gente num ponto combinado. Descemos do carro, o motorista deu a partida e nos ajeitamos para atravessar a rua. Naquele instante, sentimos a falta da frasqueira (ai, meu Deus, a frasqueira!). Era uma provisão boa para o dia. Até suco em pó tinha. Lamentamos, pesamos o prejuízo, mas no repente, a amiga nos animou dizendo que o táxi voltaria por ali, na mesma pisada. Não tinha como passar adiante dos limites da UFPA. Aquele trecho estava interditado para o término da construção da Perimetral. Voltar para a Pedreira só pela José Bonifácio mesmo.

Amar a cidade é se encontrar no espaço e no tempo. E recuperar a frasqueira perdida do banco detrás do Aero Willys. Segundo o chofer, ele nem maldou que tinha alguma coisa ali atrás.

O Guamá foi a minha primeira experiência nos longes da Pedreira. Aquele passeio me mostrou a extensão do meu território. E também que, assim como na Pedreira, aquela parte da cidade era minada de pontes. A casa da amiga da mamãe era na beira da rua, mas montada sobre estacas em plano elevado pra se livrar dos humores do rio Guamá ali ao pegado. Passamos o dia brincando dentro da casa porque não tinha terra firme na rua que garantisse qualquer diversão. Amar a cidade é se entregar a sentimentos de amizade, de cumplicidade e superações. A amiga da mamãe era uma lutadora. Não tinha marido ou apoio da família. Tínhamos desafios em comum. Passamos o dia lá no Guamá. Folgamos pacas. Consumimos com gosto tudo que levamos na frasqueira e mais ainda o que a amiga tinha preparado para nós. Amar a cidade é se irmanar nas boas lembranças, Guamá.

O traçado final da Perimetral foi concluído ali pelo ano de 1973. Eu era um molequinho bem gito à época. Só andava pras partes com a mamãe.

Dia desses, fui dar uma volta pra’queles lados da Augusto Montenegro. Como mudou tudo ali. Sou do tempo que a Augusto Montenegro nem era asfaltada. Bem mais taludinho, desbravei com meu time do Internacional da Mauriti, o longe da cidade oposto ao Guamá. Completava, no meu mapa sentimental, a ampla territorialidade de Belém que me cativa até hoje. Naquela época, palmilhávamos a Augusto Montenegro uns tantos quilômetros, só para jogar bola. Quando tínhamos jogos em lugares diferentes, tirávamos o estirão entre um campo e outro, no pé.

Amar a cidade é também se indignar por não poder tirar um estirãozinho assim no pé, na Augusto Montenegro, hoje, nem pela calçada. As motos, e até mesmo os carros, não deixam

2 comentários:

  1. Texto sensacional meu amigo Sodré. Rindo horrores do gitinho e do neologismo anuviamento. Texto precioso . Cada vez mais sou teu fã. Grande abraço.

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    1. PAULO EMMANUEL CUNHA DA SILVA24 de janeiro de 2026 às 16:42

      Esqueci de assinar Paulo Emmanuel

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