Calçada partilhada
Uma
perda, meu pai! Deixamos a frasqueira com parte da nossa aviação para aquele
passeio, dentro do táxi...
Amar
Belém, hoje em dia, também significa ter intimidade com seus estirões e ter
jeito de corpo pra contornar encalacres, desfazer anuviamentos e certeza de
perdas lá pr’acolá praquelas bandas que não são as nossas. Por agora, temos a
internet, os aplicativos de localização, ônibus indo e vindo. Em tempos atuais,
nos achamos fácil, no amor.
...Nem
sei com que posses e decisões, mamãe arrumou aquele passeio pro Guamá. Tinha
mesmo uma amiga que morava por lá. Vibrava na sintonia de mamãe. Era da
marretagem. Vivia sozinha com a filharada, se virava no empreendedorismo de rua
e contava sempre com as amizades que fazia pelo caminho. Lembro dela muito
claramente e me vem o detalhe de ter sido das primeiras mulheres que conheci,
dada a colorir os cabelos com cores outras se não aquela natural. Era
desprendida. Moderna. A batidinha dela era aqui pela Pedreira. Tinham negócios
juntas. Coisas ali da parte de vendas e cobranças. Deu-se então que dessa vez,
convidou mamãe e toda a tropa pra passar um dia na casa dela. Concentramos na
missão. Mamãe reservou o numerário (pro táxi e outras precisões), fez uma
comprinha básica no Sandra, nos pôs todo mundo na pinta, com nossas melhores
peças de roupa, deu o beabá do comportamento e nos largamos para o Guamá.
A
casa era numa daquelas ruinhas que varam no rio. A amiga esperava a gente num
ponto combinado. Descemos do carro, o motorista deu a partida e nos ajeitamos
para atravessar a rua. Naquele instante, sentimos a falta da frasqueira (ai,
meu Deus, a frasqueira!). Era uma provisão boa para o dia. Até suco em pó
tinha. Lamentamos, pesamos o prejuízo, mas no repente, a amiga nos animou
dizendo que o táxi voltaria por ali, na mesma pisada. Não tinha como passar
adiante dos limites da UFPA. Aquele trecho estava interditado para o término da
construção da Perimetral. Voltar para a Pedreira só pela José Bonifácio mesmo.
Amar
a cidade é se encontrar no espaço e no tempo. E recuperar a frasqueira perdida
do banco detrás do Aero Willys. Segundo o chofer, ele nem maldou que tinha
alguma coisa ali atrás.
O
Guamá foi a minha primeira experiência nos longes da Pedreira. Aquele passeio
me mostrou a extensão do meu território. E também que, assim como na Pedreira,
aquela parte da cidade era minada de pontes. A casa da amiga da mamãe era na
beira da rua, mas montada sobre estacas em plano elevado pra se livrar dos
humores do rio Guamá ali ao pegado. Passamos o dia brincando dentro da casa
porque não tinha terra firme na rua que garantisse qualquer diversão. Amar a
cidade é se entregar a sentimentos de amizade, de cumplicidade e superações. A
amiga da mamãe era uma lutadora. Não tinha marido ou apoio da família. Tínhamos
desafios em comum. Passamos o dia lá no Guamá. Folgamos pacas. Consumimos com
gosto tudo que levamos na frasqueira e mais ainda o que a amiga tinha preparado
para nós. Amar a cidade é se irmanar nas boas lembranças, Guamá.
O
traçado final da Perimetral foi concluído ali pelo ano de 1973. Eu era um
molequinho bem gito à época. Só andava pras partes com a mamãe.
Dia
desses, fui dar uma volta pra’queles lados da Augusto Montenegro. Como mudou
tudo ali. Sou do tempo que a Augusto Montenegro nem era asfaltada. Bem mais
taludinho, desbravei com meu time do Internacional da Mauriti, o longe da
cidade oposto ao Guamá. Completava, no meu mapa sentimental, a ampla
territorialidade de Belém que me cativa até hoje. Naquela época, palmilhávamos
a Augusto Montenegro uns tantos quilômetros, só para jogar bola. Quando
tínhamos jogos em lugares diferentes, tirávamos o estirão entre um campo e
outro, no pé.
Texto sensacional meu amigo Sodré. Rindo horrores do gitinho e do neologismo anuviamento. Texto precioso . Cada vez mais sou teu fã. Grande abraço.
ResponderExcluirEsqueci de assinar Paulo Emmanuel
Excluir