sábado, 4 de abril de 2026

crônica da semana

 O alpendre

Nem era assim, minha amiga de rocha mesmo. A coisa foi acontecendo aos poucos. Fazia parte de outra turma. Vez em quando nos topávamos pela noite, no restaurante da japonesa, ali pela beira do rio, no balneário do Pedral. E assim, nessa batidinha, fomos nos envolvendo. Mesclamos as turmas. Dava até de nem maldarmos, e de repente, um estava na programação do outro sem combina. Formamos uma terceira via. Mais diversa, bem mais liberal, avançadinha, diria, para os prazeres mundanos. Um grupo que discutia política, apreciava alguma arte, e fazia questão de se perder pelos escondidinhos alternativos por ali, pelas ruas descendo a Manoel Umbuzeiro. Fechávamos bares, na superação; ainda, fazíamos trilhas, explorávamos cachoeiras, cavernas, acordávamos uns aos outros jogando pedra na janela do quarto e depois é que pampampam, batíamos na porta. Quando dei fé, já tomava conta do sofá da casa da minha amiga, comparecia na horinha certa do almoço, e de manhã, me enxeria para dizque, experimentar as combinações de jerimum com leite e aquelas tapiocas grossonas que a mãe dela fazia. Nos tornamos unha e carne. Tinha ciúmes dela com um sujeito que ela, aqui, ali, namorava. Do sul e que fazia parte daquela outra turma. Calhou que ele não se deu com as novas composições, com a terceira via, daí ela se saiu e namorou um amigo chegado meu. Menos pior.

Foi a primeira a chegar a minha casa, de tardezinha, já a noite caindo.

A casa era um brinco. Um refinado traçado na arquitetura de Altamira. Alugada pela empresa, abrigou o engenheiro residente, depois o administrador e já o projeto em risco, fomos nós, da área técnica pra lá. Com pouco mais, veio uma onda de demissão, e levou o bocado que morava comigo. Fiquei morando sozinho um bom tempo naquela mansão. Eu, na companhia do cachorro e do Verdugo, que era o vigia da noite e passava o turno no alpendre. Um tempo suficiente para roteirizar dias e noites de folgas e folguedos pra lá de animados. Verdugo ficava piriricas diante das liberdades exageradas oficiadas em nossas contumazes celebrações. O detalhe é que esta casa de extremado bom gosto era de um dos primeiros garimpeiros a enriquecer em Serra Pelada. Voltou pra cidade que era o puro ouro, o homi. Contratou engenheiros, arquitetos. Tinha quatro quartos, a casa, jardim, e um simpático alpendre de onde eu via Helena passar todo início de noite. O primeiro dono garimpeiro torrou toda a grana, perdeu a casa, foi morar na Brasília e por fim, trabalhava como cozinheiro do meu acampamento no Xingu. Era baixo, gordinho, cara redonda e ganhou um apelido lá no campo, indo lá e vindo cá no recato, de toda sorte, impublicável.

Naquele meu último dia, a casa esteve foi movimentada. Antes do anoitecer, a turma chegou. Os convidados trouxeram salgadinhos, bebidas e alguns instrumentos. Nos acomodamos na sala, fizemos brindes, iniciamos uma cantoria. Érica logo se desinibiu. Foi se achegando pro lado de Pedro. A moça era bela. Parecia uma boneca. Pele aporcelanada. Pose de miss. Namorava com Júlio, um dos mais cobiçados herdeiros da cidade. Pedro era bonito e pobre. Não deu nem a conta de mais um brinde e os dois sumiram lá pra dentro.

Já a noite se instalara. Minha melhor amiga pediu que eu largasse o violão um instante e fosse lá fora. Era Júlio atrás da Érica. Não entrou, não passou além do alpendre. Era distante da gente, de outra laia. Eu disse que não sabia dela, andava com esta galera mesmo, mas por aqui, não está não, afirmei. Não voltei pra sala. Fiquei no alpendre esperando Helena passar na sua motinha. Quando ela chegou, viu aquela arrumação e deu pra trás. Nem desligou o motor. Falou pra eu me arrumar.

Conheci Helena revelando filmes da minha Olympus Trip 35. Trabalhava numa loja da Sete. Me engracei. Não era bonita, nem sedutora, nem espevitada como as meninas da nossa turma. Tinha um olhar triste, e um jeito extraordinariamente acolhedor. Vivia num mundo muito, mas muito distante do meu. E isso me encantava. Morava ali na estrada do aeroporto, pros meus lados. Quando estava na cidade, todo dia a esperava para nosso namoro de porta. Sempre parava, desligava a moto e se demorava. Falava pouco e se denunciava em banalidades e medos. Não aprofundava assuntos, nem enxerimentos. Jamais ousou avançar o sinal, nunca se adiantou além do alpendre...

Verdugo chegou e isso era sinal de que já estava na hora. Com a ajuda de minha melhor amiga encerrei a festinha de despedida. Fomos recolhendo a turma que estava lá pra dentro. Pedro e Érica estavam exaustos, curtindo a convalescência daquela aventura proibida. A galera foi embora, minha melhor amiga foi com eles, com cara de choro. Depois, peguei minha mochila, fechei a casa e dei a chave para Verdugo. Mandei um tiau pro cachorro e desci pra calçada.

Helena foi me buscar e me levou pro aeroporto na mobylette dela. Nunca arriscou avançar além do alpendre.