sábado, 7 de fevereiro de 2026

crônica da semana - rosquinhas de Abaeté

 Rosquinhas de Abaeté

A uma atenção e outra para os autógrafos, passava o pano no ambiente. Notava uma disposição, uma ocupação do espaço que lembrava de alguma forma uma pintura daquelas famosas retratando encontros ou mesmo pequenas aglomerações. Uma cena entre moderna e renascentista. Prosas nucleadas, pertinentes cada uma a seu cada qual de afinidades. Ali, o grupo dos aquilatados jornalistas; acolá, a militância política, social e minha turminha salesiana; adiante, a família e meus companheiros das lidas operárias; um pouco além, o saber acadêmico e os fiéis leitores. Todos reunidos naquela sexta chuvosa de lua cheia para dar aquele peso emocional ao lançamento do meu nono livro de crônicas. Sobre a mesa onde fazia os autógrafos, os livros disponíveis. E uma terrina até a borda de rosquinhas de Abaeté.

Era promessa de campanha. Nos convites divulgados para a sessão de autógrafos, me comprometi com um pequeno coquetel em que os atrativos principais seriam o velho e sentimental Q-suco de groselha e um punhado de rosquinhas de Abaeté. Resultou que a ideia do açucarado e colorido refresco foi, em boa hora, descartada por questões de novos hábitos e também porque, nesses outros tempos acho que nem existe mais no mercado (pelo menos eu, em favor das dietas, não tenho feito procuração). Agora, os circulinhos de massa salgada, afamados e queridos, que têm o sistema de geração e produção creditado às terras abaetetubenses, estes fizeram a alegria dos presentes.

A proposta de inserir as rosquinhas no cardápio da merenda que programamos à guisa de um coquetel veio como uma reverência, sinal de respeito a este acompanhante essencial que tive sempre comigo nas quantas travessias que fiz da baía do Guajará. O produto é vendido à larga no atacado, em barracas e bancas específicas, diria até, especializadas, não é em qualquer banca não, do Ver-o-Peso. Mas tem uma função social imensa mesmo, quando vendido em pequenas porções pelos ambulantes em sedutoras embalagens transparentes, na hora do embarque para a travessia.

Já foi meu almoço.

As rosquinhas me deram valência na broca várias vezes. Principalmente numa fase extremamente afogueada que passei durante o período que morei em Barcarena. Meu dia contava muito mais que 24 horas. Tinha vez, que nem de comer tinha tempo. Nessa época eu me dividia em várias personalidades. A maioria das vezes, eu era operário. Uma parte, pai de família e cidadão do bem. Em outra, dirigente sindical dos mais agendados e, entremeando tudo, estudante temporão do curso de Geologia na UFPA. E sim, sim, escritor. Já tinha a coluna aqui no jornal. A conta do espaço e do tempo não fechava.

(Aí eu me vejo, hoje, diante de um debate ordinário sobre meritocracia e outras asneiras, capitaneado por ungidos que não têm ideia do que seja uma jornada noturna de trabalho. Essa gente não sabe o que é um couro!).

Havia uma sequência especial de dias que era particularmente desgastante. Acontecia a partir de duas jornadas noturnas que eu completava no trabalho. Aproveitava e durante o dia, me mandava pra UFPA. Era tempo certo de assistir às aulas da manhã e que eu tinha pouca chance de frequentar. Isso resultava em mais de 36 horas sem dormir direito, naquele picado do sono agoniado e cheio de sustos, e ainda, se tornava uma virada que me fazia comer pouco. Nessa aventura, como eu tinha que correr e dar adiantos, saía voado da aula. Quando chegava no Veropa pra atravessar, dizque já almoçava por ali. O menu: um saquinho de rosquinhas ou um completo no JR ou ainda, cinco pupunhas. Comia rápido e me avexava para dormir um picadinho na viagem, porque do outro lado, outra missão me esperava.

A rosquinha e Abaeté durante um tempo cumpriu a função psicológica, nutricional que me proporcionou chegar, na sexta-feira passada, ao meu nono livro. A terrina têi têi, ali na mesa compôs com brilho aquela cena meio moderna, meio renascentista