Ganhamos Emilinha
Sabe
aquela coisa que a gente poderia ter feito, não fez, depois ficou se batendo,
se mordendo de arrependimento?
Emilinha
Borba e Adelaide Chiozzo estavam em Belém. Dariam uma entrevista na rádio
Cultura pela manhã. Eu morando aqui na Pedreira, bem dizer ao pegado, na certa
cultivando o ócio àquele período do dia, e fanzésimo das duas, bem que poderia
ter batido perna até lá, ao menos para vê-las de longe. Não fui. Nunca vi
Emilinha ao vivo.
Conhecia
Adelaide (“que beijinho doce/que ele tem...”) e Emilinha (“assim se passaram
dez anos...”) das sessões na TV, que em épocas distantes reproduziam no horário
da tarde, filmes clássicos da Atlântida, da Vera Cruz e nos apresentavam um
elenco fascinante que incluía Grande Otelo, Oscarito, José Lewgoy, Eliana,
Anselmo Duarte, Tônia Carreiro, entre tantas estrelas.
Minha
avó era ligada na programação e nos chamava, a netaiada pra acompanhar com ela
a aventuras de Oscarito e companhia. Eram tardes maravilhosas. Que reservavam
dentro de mim, preciosos guardados. O riso farto de minha avó, os elogios que
ela fazia à beleza das atrizes, uma descrição aqui, outra ali, dos acessórios e
balangandãs que o elenco usava nos musicais. Minha avó interagia com as cenas.
Cantava as canções junto com a orquestra. Mamãe ia na mesma pisada. Se estivesse
em casa, eram as duas em frente à TV. Então era um momento em que vivíamos
abrigados às matriarcas, sentindo e reagindo igualzinho a elas. Nos
contaminando de cenas em preto e branco e do desprendimento que a arte do
cinema inocula na gente. Quando digo que sou avovozado, amamãezado, é disso que
falo.
Nessa
leva, virei um admirador atento de Emilinha. Acompanhei reportagens que
narravam a carreira dela. Os títulos de Rainha do Rádio e as disputas com
Marlene (mais tarde eu conheceria com mais detalhes, o trabalho da cantora
Marlene, que, ao contrário de Emilinha, tive a oportunidade de ver em duas
oportunidades aqui em Belém. No teatro com “A Ópera do malandro” e no Projeto
Pixinguinha cantando, interpretando e botando pra chulear no ginásio da UFPA.
Um fenômeno! Uma artista espetacular. Justifica os sucessos que teve nas
disputas pela coroa do rádio. Era um furacão. Virei fã de Marlene, também).
Meu
coração, no entanto, era de Emilinha. Por vários motivos ligados ao talento
dela, mas, mais ainda pela relação afetiva que a cantora proporcionava dentro
da minha família. Esta relação se encorpava mais ainda porque minha mãe era uma
cantora doméstica, de casa, dos instantes suaves... e que me encantava. Numa
época em que Belém passava por eventos de falta de luz toda noite, o falado
blecaute, mamãe nos presenteava com sua voz. Atava a rede na sala, nós nos
arranjávamos pelo chão, nos acomodávamos no batente da porta ou em outra rede
ao pegado e nos dávamos a ouvir mamãe só na capela.
Trago
nos meus guardados do coração, minha mãe cantando “Dez anos”, sucesso disparadíssimo
de Emilinha. Durante muito tempo, e até hoje quando ouço esta canção traço uma
ponte até alcançar a margem dos meus afetos, as tardes assistindo aos filmes
com minha avó, as aparições de Emilinha nos musicais; e os tempos sem luz em
Belém com mamãe adoçando o amargo da vida e clareando o escuro da noite com
aquela voz de nos emocionar, nós, a filharada espalhada pela sala, amparada às
emoções.
Dessa
forma, e com estas marcas gravadas dentro de mim, me definindo, me guiando, quando
iniciei minha trajetória nesta coluna, no final de março de 2006, optei por
fazer uma homenagem a estas mulheres. Emilinha tinha morrido dias antes; minha
avó reconhecia o mundo com dificuldades, entregue ao mal implacável da idade; e
minha mãe, no céu e nos meus sonhos, vibrando em doçuras musicais.
“Perdemos
Emilinha” foi minha primeira publicação aqui na coluna. E assim, de lá a cá, se
passaram 19 anos. Penso que, em verdade, ganhei Emilinha.