Maior de todos, seu mindinho e o fura-bolo
Vai
da conta do pelo dito e do pelo certo de, no janeiro de cada ano, eu me cuidar,
me ajeitar na cadeira, passar um talco, um extrato, fazer o pelo sinal, pedir a
companhia dos mais inspiradores Orixás, da nossa Santinha, dos cândidos anjos, e
procurar as justas palavras produzidas nas combinações possíveis aqui do meu
teclado e do meu cocuruto para escrever sobre Belém (também conhecida como
‘capital paraense’ ou ‘capital do Estado’). Palavras que abraçam, acariciam,
fazem dengo. Alertam.
É
o mês de aniversário da cidade. Uma data de um simbolismo imenso. Um 12 de
janeiro que se estende desde antes e que vai bem além no mês, animando aquele
orgulhosinho belemense, potencializando afetos, mimando a cidade. Reivindicando
cidadania.
Venho
então, tareando aqui e ali, em direções diversas. Elogiei, fiz versos, declarei
amor, critiquei, revelei esperanças de dias melhores para a cidade. Ocorreu em
um ano aí, que foi bem bacana. Explorei a urbanização desta minha Pedreira
querida. Fiz um traçado temporal e localizei lá atrás um bairro minado de áreas
alagadas. Era um tempo em que as casas ficavam em cima dos cursos d’água ou
mesmo erguidas nos arredores alagados. As ruas e passagens eram formadas por
pontes de madeira, muitas vezes instáveis, apodrecidas e inseguras. Um cenário
que gerava ações absurdamente populistas como políticas públicas, tais como as
urgentes ‘reformas das pontes’. Prefeitos regozijavam-se por entregarem à população
estirões sem fim de estivas com aquele cheiro azedo de madeira nova descascada.
Conta-se
a altura de um mindinho projetado ali pras lonjuras da Guajará, lá onde o rio
encontra o céu, o salto que Belém deu em benefícios urbanos, desde o agrado
daquelas pontes talhadas defronte das nossas casas. Certo é que ainda temos
carências estruturais e principalmente no campo do saneamento básico, caso
contrário, nossa medida não seria o mindinho e sim, o maior de todos. Temos
muito a dedilhar.
O
bolo de aniversário, independente do populismo da vez, deve ser cortado às
ligeirezas, sob a pressão de uma chuva fina de Janeiro, com o Ver-o-Peso ao
fundo ou mesmo em nossa imaginação; e um fura-bolo se adiantando no meio dos
outros, para aquela famosa prova.
Residem
cá dentro de nós, as motivações, os íntimos prazeres, as expectativas modestas,
as lembranças pueris, as aventuras diárias que justificam o que, ao vento,
declaramos como nosso amor por Belém. Vai da gente.
Por
mim, sou da parte das lembranças. Apegado sou e apegado me assumo, a uma Belém
lá detrás. Essa é forte. Imbatível. Domina todo meu arrazoado de afetos. Venho
de uma Belém construtora e se construindo de mãos dadas com seu povo. Uma cidade
cheia de cantinhos enriquecidos de significados. Em cada espaço admirado,
vivido, uma paixão...Um encanto, um revinventar histórico, uma ratificação de
valores essenciais, fundamentais para nossa formação como amantes de Belém.
Olhando para trás, admito que os meios procuraram e ainda perseguem os fins
neste presente possível que vivemos e no futuro de toda sorte desafiador que
temos à frente. Fazemos por onde quando nos reconhecemos como nos construindo
junto com a cidade, em nossos ésses chiados, nos tacacás d’tardezinha, em apertados
nas ruinhas do centro nos período de festas, em pores do sol à beirada da baía,
em ousados chamegos breados de terra úmida da planície. E quando nos entregamos
a este amor que tanto alardeamos. Assim, fazemos juras para que, mais adiante,
a nossa medida seja feita pela projeção ao longe horizonte, do maior de todos.
Deixa
estar que eu, vicici em atavismos, quedo-me às paixões do presente e, pelas
combinações do teclado, intento explicar as formas comuns de amar a cidade. Aceito
a ideia de rever posição, desgrudar dos idos, fitar à frente, desejar e lutar cada
vez mais por uma Belém, que na justa medida ao horizonte, se eleve amada.