Amor impresso
Amar
a cidade significa também, enfeixar razões que creditem à Belém motivos de
sobrevivência e formação de personalidade.
O
meu feixe se compõe a partir daquela visão (inesquecível) das torres do mercado
de ferro do Ver-o-Peso, quando despontamos no horizonte da baía do Guajará,
depois de uma fantástica viagem do rio Acre até aqui.
E
foram tantas as interações, incontáveis e incríveis os aprendizados em Belém!
Com o tempo, o DNA da cidade foi se acomodando em mim, meus compartimentos foram
criando forma ante esta planície úmida, desafiadora, cativante.
Uma
definição de como me vejo hoje, e como o amor entre mim e a cidade se atualiza,
começou a tomar jeito mesmo, ali pela metade da década de 70, no condado da
Mauriti. Era o tempo de olhar o mundo e pensar no futuro. Nesse período, penso
que iniciei meu processo de tomada de consciência. Mirei para um sentido e uma
conivência com Belém. Este movimento resultaria no que hoje realizo como arte.
Minha arte é, nos indos e nos vindos, nos modos e termos, nos cantos e recantos,
um dengo à cidade; o que produzo de literal ou sentimental, mesmo que às vezes
aparente ser uma peça distante, ou descolada da minha Belém, é, tenho plena
certeza, a reiterada confissão de minha paixão por esta terra. Ainda que
anuviada pelas metáforas da vida, minha palavra tem sempre a missão de
homenagear, de reverenciar esta cidade que me seduz, me mundia, me inspira e que
a cada dia me convence que aqui, aqui é o meu lugar.
Houve
de naquele tempo, quando o futuro se desenhava nos horizontes da Mauriti, havia
um movimento expressivo no trecho que eu morava. Tínhamos as patotas. Já à
época eu fazia as minhas classificações. Havia a turma dos grandes. Era o grupo
que já se adiantava na idade. Exibiam a voz já definida, facultavam-se ter
barba. Uma parte já namorava de porta. Organizavam reuniões embaixo da
castanhola, não todo dia, que fazia as vezes de confessionário. Em combinas
especiais marcavam competições elaboradas de petecas. Coisa grande. Duzentas,
trezentas petecas no triângulo, o que no final nunca produzia um vencedor. As
partidas terminavam sempre na algazarra do ‘alaúça’. Eles mesmos avacalhavam.
Vez ou outra formavam na bola da tarde nas disputadas peladas da Marquês. E
quando eles iam, era muito firme!
No
outro extremo, tínhamos a petizada. Os pequenos da Aparecida, do Donatila. A
criançada. Estes não apareciam sob a castanhola. A mãe não deixava. Orbitavam
os outros grupos com discrição. Ficavam mais na deles, brincando de pira alta,
pira s’esconde e fura-fura neném, nos terrenos baldios agregados às vilas ou
invadiam os quintais pelos buracos das cercas.
A
minha turma era aquela intermediária. Adolescentes, voz rouca, hormônios por
acolá. Já ganhávamos o mundo sozinhos para bater bola no gramado da Duque ou
nas areias infindáveis do Areal. Da sombra da castanhola, apreciávamos com
indisfarçável interesse, as meninas passarem para o Justo. Batíamos ponto toda
noite na frente do Paraíso para entabular vulgares conversas, e desafiar a sisudez
da madame que controlava a roleta do cinema, com afrontosas gaiatices. Deu-se
que fui pra Escola Técnica, outros migraram para o segundo grau em outros
bairros. Nos deparamos com a diversidade, outras realidades além da Pedreira.
De nossas experiências, passamos por aquela fase em que todo mundo queria
inventar uma moda bandeada para a criação artística. O violão foi a febre da
rua. Grassou desafinado, passou. Eu me dei com a coisa da arte. Na ETFPA, um
mundo de opções se abriu para mim. Os livros da biblioteca, o teatro do
Barradas, a banda do Nery Filho. Um dia, fiz um poema...
Anos
mais tarde, escreveria minha primeira crônica nascida, listada e catalogada em
Altamira. Falava sobre... a saudade de Belém. Por agora, outros tantos anos
além, ontem até, observo, lancei meu nono livro individual de crônicas.
Meu
amor por Belém, impresso.