sábado, 31 de janeiro de 2026

crônica da semana - amor impresso

 Amor impresso

Amar a cidade significa também, enfeixar razões que creditem à Belém motivos de sobrevivência e formação de personalidade.

O meu feixe se compõe a partir daquela visão (inesquecível) das torres do mercado de ferro do Ver-o-Peso, quando despontamos no horizonte da baía do Guajará, depois de uma fantástica viagem do rio Acre até aqui.

E foram tantas as interações, incontáveis e incríveis os aprendizados em Belém! Com o tempo, o DNA da cidade foi se acomodando em mim, meus compartimentos foram criando forma ante esta planície úmida, desafiadora, cativante.

Uma definição de como me vejo hoje, e como o amor entre mim e a cidade se atualiza, começou a tomar jeito mesmo, ali pela metade da década de 70, no condado da Mauriti. Era o tempo de olhar o mundo e pensar no futuro. Nesse período, penso que iniciei meu processo de tomada de consciência. Mirei para um sentido e uma conivência com Belém. Este movimento resultaria no que hoje realizo como arte. Minha arte é, nos indos e nos vindos, nos modos e termos, nos cantos e recantos, um dengo à cidade; o que produzo de literal ou sentimental, mesmo que às vezes aparente ser uma peça distante, ou descolada da minha Belém, é, tenho plena certeza, a reiterada confissão de minha paixão por esta terra. Ainda que anuviada pelas metáforas da vida, minha palavra tem sempre a missão de homenagear, de reverenciar esta cidade que me seduz, me mundia, me inspira e que a cada dia me convence que aqui, aqui é o meu lugar.

Houve de naquele tempo, quando o futuro se desenhava nos horizontes da Mauriti, havia um movimento expressivo no trecho que eu morava. Tínhamos as patotas. Já à época eu fazia as minhas classificações. Havia a turma dos grandes. Era o grupo que já se adiantava na idade. Exibiam a voz já definida, facultavam-se ter barba. Uma parte já namorava de porta. Organizavam reuniões embaixo da castanhola, não todo dia, que fazia as vezes de confessionário. Em combinas especiais marcavam competições elaboradas de petecas. Coisa grande. Duzentas, trezentas petecas no triângulo, o que no final nunca produzia um vencedor. As partidas terminavam sempre na algazarra do ‘alaúça’. Eles mesmos avacalhavam. Vez ou outra formavam na bola da tarde nas disputadas peladas da Marquês. E quando eles iam, era muito firme!

No outro extremo, tínhamos a petizada. Os pequenos da Aparecida, do Donatila. A criançada. Estes não apareciam sob a castanhola. A mãe não deixava. Orbitavam os outros grupos com discrição. Ficavam mais na deles, brincando de pira alta, pira s’esconde e fura-fura neném, nos terrenos baldios agregados às vilas ou invadiam os quintais pelos buracos das cercas.

A minha turma era aquela intermediária. Adolescentes, voz rouca, hormônios por acolá. Já ganhávamos o mundo sozinhos para bater bola no gramado da Duque ou nas areias infindáveis do Areal. Da sombra da castanhola, apreciávamos com indisfarçável interesse, as meninas passarem para o Justo. Batíamos ponto toda noite na frente do Paraíso para entabular vulgares conversas, e desafiar a sisudez da madame que controlava a roleta do cinema, com afrontosas gaiatices. Deu-se que fui pra Escola Técnica, outros migraram para o segundo grau em outros bairros. Nos deparamos com a diversidade, outras realidades além da Pedreira. De nossas experiências, passamos por aquela fase em que todo mundo queria inventar uma moda bandeada para a criação artística. O violão foi a febre da rua. Grassou desafinado, passou. Eu me dei com a coisa da arte. Na ETFPA, um mundo de opções se abriu para mim. Os livros da biblioteca, o teatro do Barradas, a banda do Nery Filho. Um dia, fiz um poema...

Anos mais tarde, escreveria minha primeira crônica nascida, listada e catalogada em Altamira. Falava sobre... a saudade de Belém. Por agora, outros tantos anos além, ontem até, observo, lancei meu nono livro individual de crônicas.

Meu amor por Belém, impresso.

sábado, 24 de janeiro de 2026

crônica da semana - calçada partilhada

 Calçada partilhada

Uma perda, meu pai! Deixamos a frasqueira com parte da nossa aviação para aquele passeio, dentro do táxi...

Amar Belém, hoje em dia, também significa ter intimidade com seus estirões e ter jeito de corpo pra contornar encalacres, desfazer anuviamentos e certeza de perdas lá pr’acolá praquelas bandas que não são as nossas. Por agora, temos a internet, os aplicativos de localização, ônibus indo e vindo. Em tempos atuais, nos achamos fácil, no amor.

...Nem sei com que posses e decisões, mamãe arrumou aquele passeio pro Guamá. Tinha mesmo uma amiga que morava por lá. Vibrava na sintonia de mamãe. Era da marretagem. Vivia sozinha com a filharada, se virava no empreendedorismo de rua e contava sempre com as amizades que fazia pelo caminho. Lembro dela muito claramente e me vem o detalhe de ter sido das primeiras mulheres que conheci, dada a colorir os cabelos com cores outras se não aquela natural. Era desprendida. Moderna. A batidinha dela era aqui pela Pedreira. Tinham negócios juntas. Coisas ali da parte de vendas e cobranças. Deu-se então que dessa vez, convidou mamãe e toda a tropa pra passar um dia na casa dela. Concentramos na missão. Mamãe reservou o numerário (pro táxi e outras precisões), fez uma comprinha básica no Sandra, nos pôs todo mundo na pinta, com nossas melhores peças de roupa, deu o beabá do comportamento e nos largamos para o Guamá.

A casa era numa daquelas ruinhas que varam no rio. A amiga esperava a gente num ponto combinado. Descemos do carro, o motorista deu a partida e nos ajeitamos para atravessar a rua. Naquele instante, sentimos a falta da frasqueira (ai, meu Deus, a frasqueira!). Era uma provisão boa para o dia. Até suco em pó tinha. Lamentamos, pesamos o prejuízo, mas no repente, a amiga nos animou dizendo que o táxi voltaria por ali, na mesma pisada. Não tinha como passar adiante dos limites da UFPA. Aquele trecho estava interditado para o término da construção da Perimetral. Voltar para a Pedreira só pela José Bonifácio mesmo.

Amar a cidade é se encontrar no espaço e no tempo. E recuperar a frasqueira perdida do banco detrás do Aero Willys. Segundo o chofer, ele nem maldou que tinha alguma coisa ali atrás.

O Guamá foi a minha primeira experiência nos longes da Pedreira. Aquele passeio me mostrou a extensão do meu território. E também que, assim como na Pedreira, aquela parte da cidade era minada de pontes. A casa da amiga da mamãe era na beira da rua, mas montada sobre estacas em plano elevado pra se livrar dos humores do rio Guamá ali ao pegado. Passamos o dia brincando dentro da casa porque não tinha terra firme na rua que garantisse qualquer diversão. Amar a cidade é se entregar a sentimentos de amizade, de cumplicidade e superações. A amiga da mamãe era uma lutadora. Não tinha marido ou apoio da família. Tínhamos desafios em comum. Passamos o dia lá no Guamá. Folgamos pacas. Consumimos com gosto tudo que levamos na frasqueira e mais ainda o que a amiga tinha preparado para nós. Amar a cidade é se irmanar nas boas lembranças, Guamá.

O traçado final da Perimetral foi concluído ali pelo ano de 1973. Eu era um molequinho bem gito à época. Só andava pras partes com a mamãe.

Dia desses, fui dar uma volta pra’queles lados da Augusto Montenegro. Como mudou tudo ali. Sou do tempo que a Augusto Montenegro nem era asfaltada. Bem mais taludinho, desbravei com meu time do Internacional da Mauriti, o longe da cidade oposto ao Guamá. Completava, no meu mapa sentimental, a ampla territorialidade de Belém que me cativa até hoje. Naquela época, palmilhávamos a Augusto Montenegro uns tantos quilômetros, só para jogar bola. Quando tínhamos jogos em lugares diferentes, tirávamos o estirão entre um campo e outro, no pé.

Amar a cidade é também se indignar por não poder tirar um estirãozinho assim no pé, na Augusto Montenegro, hoje, nem pela calçada. As motos, e até mesmo os carros, não deixam

sábado, 17 de janeiro de 2026

crônica da semama - seu mindinho

 Maior de todos, seu mindinho e o fura-bolo

Vai da conta do pelo dito e do pelo certo de, no janeiro de cada ano, eu me cuidar, me ajeitar na cadeira, passar um talco, um extrato, fazer o pelo sinal, pedir a companhia dos mais inspiradores Orixás, da nossa Santinha, dos cândidos anjos, e procurar as justas palavras produzidas nas combinações possíveis aqui do meu teclado e do meu cocuruto para escrever sobre Belém (também conhecida como ‘capital paraense’ ou ‘capital do Estado’). Palavras que abraçam, acariciam, fazem dengo. Alertam.

É o mês de aniversário da cidade. Uma data de um simbolismo imenso. Um 12 de janeiro que se estende desde antes e que vai bem além no mês, animando aquele orgulhosinho belemense, potencializando afetos, mimando a cidade. Reivindicando cidadania.

Venho então, tareando aqui e ali, em direções diversas. Elogiei, fiz versos, declarei amor, critiquei, revelei esperanças de dias melhores para a cidade. Ocorreu em um ano aí, que foi bem bacana. Explorei a urbanização desta minha Pedreira querida. Fiz um traçado temporal e localizei lá atrás um bairro minado de áreas alagadas. Era um tempo em que as casas ficavam em cima dos cursos d’água ou mesmo erguidas nos arredores alagados. As ruas e passagens eram formadas por pontes de madeira, muitas vezes instáveis, apodrecidas e inseguras. Um cenário que gerava ações absurdamente populistas como políticas públicas, tais como as urgentes ‘reformas das pontes’. Prefeitos regozijavam-se por entregarem à população estirões sem fim de estivas com aquele cheiro azedo de madeira nova descascada.

Conta-se a altura de um mindinho projetado ali pras lonjuras da Guajará, lá onde o rio encontra o céu, o salto que Belém deu em benefícios urbanos, desde o agrado daquelas pontes talhadas defronte das nossas casas. Certo é que ainda temos carências estruturais e principalmente no campo do saneamento básico, caso contrário, nossa medida não seria o mindinho e sim, o maior de todos. Temos muito a dedilhar.

O bolo de aniversário, independente do populismo da vez, deve ser cortado às ligeirezas, sob a pressão de uma chuva fina de Janeiro, com o Ver-o-Peso ao fundo ou mesmo em nossa imaginação; e um fura-bolo se adiantando no meio dos outros, para aquela famosa prova.

Residem cá dentro de nós, as motivações, os íntimos prazeres, as expectativas modestas, as lembranças pueris, as aventuras diárias que justificam o que, ao vento, declaramos como nosso amor por Belém. Vai da gente.

Por mim, sou da parte das lembranças. Apegado sou e apegado me assumo, a uma Belém lá detrás. Essa é forte. Imbatível. Domina todo meu arrazoado de afetos. Venho de uma Belém construtora e se construindo de mãos dadas com seu povo. Uma cidade cheia de cantinhos enriquecidos de significados. Em cada espaço admirado, vivido, uma paixão...Um encanto, um revinventar histórico, uma ratificação de valores essenciais, fundamentais para nossa formação como amantes de Belém. Olhando para trás, admito que os meios procuraram e ainda perseguem os fins neste presente possível que vivemos e no futuro de toda sorte desafiador que temos à frente. Fazemos por onde quando nos reconhecemos como nos construindo junto com a cidade, em nossos ésses chiados, nos tacacás d’tardezinha, em apertados nas ruinhas do centro nos período de festas, em pores do sol à beirada da baía, em ousados chamegos breados de terra úmida da planície. E quando nos entregamos a este amor que tanto alardeamos. Assim, fazemos juras para que, mais adiante, a nossa medida seja feita pela projeção ao longe horizonte, do maior de todos.

Deixa estar que eu, vicici em atavismos, quedo-me às paixões do presente e, pelas combinações do teclado, intento explicar as formas comuns de amar a cidade. Aceito a ideia de rever posição, desgrudar dos idos, fitar à frente, desejar e lutar cada vez mais por uma Belém, que na justa medida ao horizonte, se eleve amada.

sábado, 10 de janeiro de 2026

crônica da semana - amigo é pra essas coisas

 Amigo é pra essas coisas

A gente se mete em cada uma, né, que parece duas. E a parada é variável, pode ser mais ou menos traumática, quando vem da amizade, ou que seja, quando reflete o grau, o limite da amizade. Vem da parte das harmonias na convivência, dos entendimentos, das ações e das concessões no trivial e ordinário que se operam no convívio.

Famoso aquele caso de dois amigos que partilhavam o almoço. Dois bifes são servidos. Um bifão e um bifinho. Na hora de comer, um deles se avia e fisga o bife maior. O outro se manifesta em educada indignação. Aquele um, desprovido de culpas, tenta reverter o incômodo e pergunta ao outro qual dos dois bifes escolheria, caso fosse o primeiro a se servir; no que o outro, conscientemente responde: o bife menor. Então, justifica aquele um, fica o teve pelo não teve, o dito pelo não dito, a certeza pela incerteza. Peguei o bifão que na certa, no indo e no vindo, seria meu. Sem crise na amizade.

Este é caso batido nas prosas de bar, principalmente na hora dos petiscos, mas que revela o domínio, o conhecimento do calibre de cada um. Diz sobre a tolerância, embora evidencie arroubos circunstanciais compulsórios, do amigo menos guloso, só pra dizer mesmo, pra fazer uma cena. Só para provocar o outro, mas sem intransigir, sem arengar. Reconhece, e lhe é sabida a verdade. Não seria capaz de dar conta do bifão. Isso é amizade sedimentada. Cultivada e vivida nos detalhes. As ações são realizadas para abonar o alcance no controle de caráter e das dimensões do estômago de cada um.

Mas tem ocasiões que, embora ela exista, a gente nem percebe a boa intenção.

Foi numa noite morninha, em Porto Velho. Era um feriado religioso, todo mundo da nossa turma que morava na cidade, estava nas desobrigas. Nós, eu e um amigo do trabalho, não. Estávamos de boa. A fim de aproveitar nossa folga de dois dias na capital. Era comum, todo mês, durante a folga, a gente virar, mexer, pintar os canecos pelos claros e além deles, pelos escurinhos da cidade.

No adiantado da noite, estávamos era no modo ‘escurinhos’, já que para a parte dos claros sociais não apareceu ninguém da patota. Nos batemos para um bar tradicional, caracterizado pelo detalhe de ser a opção de fim de noite. Todas as tribos baixavam lá na alta madrugada. Quase um deserto, se comparado aos dias foguentos fora dos recatos religiosos. Pouca gente. Ocupamos uma mesa, pedimos uma bebida e nos demos apreciar o pouco movimento. Duas pequenas chegaram, puxaram uma prosa. Comentaram que a cidade costumava mesmo respeitar aquele dia santo. Quem saía para a noite era somente a tribo de empedernidos e nós que vivíamos no mato e tínhamos a folga justo na época da penitência. Papo vai, papo vem, a animação com os petiscos, a bebidinha, a música, alguém sugeriu: vamos dançar!

É nessa hora que a gente conhece os amigos, afere o grau de empatia e consideração. Tinha uma garota do meu top e outra bem mais alta, na parelha do meu amigo. Pois ele não pegou foi a pequenina e saiu a riscar o salão, ficando a menina grande pra mim. Ah, sacrista! Eu imaginei a cena. Eu, com o meu desnivelado metro e cinquenta, marcando um som do Nonato do Cavaquinho com uma parceira que dava duas de mim. Nem me levantei. Dei uma desculpa, fechei a cara, emburrei e reinei foi logo ir embora. Pra desopilar, puxei uma prosa fácil com a pequena, e acabamos nos animando na mesa, sem dançar mesmo.

Duas ou três partes depois meu amigo voltou, queixou-se de uma dor no joelho e decidimos encerrar a noite.

No caminho para casa, me percebendo chateado, explicou que fez aquela ‘distroca’ com as meninas porque sabia que eu poderia me assanhar, ele realmente estava com dor no joelho, queria voltar pra casa, mas não queria que eu ficasse só com quem mal conhecíamos, num bar onde baixava todo mundo. Pra adiantar, provocou a zanga.

É aquilo, a parada é da parte das ações e das concessões nas penitentes noites mornas.

 

 

 

sábado, 3 de janeiro de 2026

crônica da semana - chove não me molha

 Chove não me molha

Deixa eu cravar a minha marca de cronista e registrar logo que no dia de Natal, 25 de dezembro de 2025, não choveu na grande Belém, deu-se o contrário, até abriu um solzinho do meio-dia em diante que se pôs na maior beleza escarlate, no horizonte lá pra de’tardezinha. Agora, na véspera, dia 24, foi aquele pinga-pinga, aquele puxa-encolhe o dia todo, e pra banda da noite se estirou num pampeiro federal. As ceias natalinas foram, sem dúvida, salpicadas de bênçãos úmidas.

Bem anotadinho fique para não acontecer o que aconteceu na noite de Natal. Todos em nossa reunião de família prestaram reparo naquela chuva caindo di’cunforça. Calhei de dizer que era normal, exatamente nestes entremeios natalinos, chover. Choveu foi mina de negação. Algumas opiniões certificavam que há anos não se via chuva deste calibre nos contornos do 25 de dezembro. Reinei provar por a + b que não era verdade e que iria buscar nas minhas anotações de cronista, provas de que a semana do Natal é por natureza e tradição, chuvisquenta. Dei foi com os burros n’água, cheirei na vara do batista. Não achei publicação nenhuma minha que dirimisse a dúvida do choveu-não-choveu, nos últimos natais. Um deslize imperdoável para um cronista que dá muita atenção a essas artes do clima, ainda mais por agora, em tempos de distúrbios globais. Esse ano de 2025 que se vê agora pelo retrovisor, está registrado. Choveu às pampas na véspera e aí, no dia 25, o tempo ensaiou, fez graças e arremedos, mas não caiu uma gota.

Para mim, é uma questão de honra situar no tempo, nossos traços culturais, naturais, nossas reações e vivências. Tanto que, no meu próximo livro, onde reproduzo crônicas que suscitam juízos temporais, faço questão de datá-los. E a chuva nossa de cada dia tem um espaço de destaque nas minhas composições. Bom, menos uma arenga para o ano novo.

Quem me dera, meu bom pai, que a gente inticasse um com o outro plena noite de Natal somente por causa de uma discordância factual situada nos dezembros plúmbeos da vida. Os ânimos estão é agitados. A convivência social tem se tornado antessala da discórdia. Por agora, até o vermelho da roupa do papai Noel resulta em jura de mal a morte entre membros das famílias mais tradicionais e outrora consideradas unha e carne, daquelas que nada desunia.

Qualquer deslize, mínima sugestão ou lampejo de tese é motivo capital para que se capitalizem beligerâncias e contra-ataques. Para melhor segurança, entre os nossos, e tantos outros pares, recomenda-se, nos tempos atuais que a gente pise em ovos nos caminhos que se nos apresentam compulsórios e compreendam temas de interação que não sejam inocentes discorrências sobre chuva intermitente ou dezembros.

Caso a mim me fosse dada a graça de controlar o tempo, na certa optaria por um dia 25 de dezembro varado por aquela chuvinha, vá lá que seja, em outras épocas, tida como a regra meteorológica do dia de Natal. Quereria um dia de Natal entorpecido, alçado ao limbo da morrinha, da ressaca e do RO. Sem chacoalhos domésticos, ou alaridos na rua. De agito, só a criançada desbravando corredores e os cômodos aquietados da casa com os brinquedos que ganharam de presente. Um dia se realizando naquela mansidão, em nevinha paraense caindo lá fora, e vindo refletir na irrigação necessária, do meu coração.

Não choveu no dia de Natal. Na véspera, choveu de entrar pela noite. Está registrado o fato. Sem zanga, sem débito nas gentilezas ou nos afetos.

E Quem me dera, meu bom pai, que a gente inticasse um com o outro somente por causa de vazios doces e de desidratados conflitos. E que tudo ficasse somente na superfície impermeável da contenda do chove-não-me-molha. Quem me dera!

E sim, sim, que um solzinho se abra de quando em vez, e no final das tardes se esconda pra’li, pras bandas da baía, no colorido que mais bem lhe parecer. No contestado rubro matiz do papai Noel, que seja.

sábado, 27 de dezembro de 2025

crônica da semana - sonhos 2026

 Sonhos altos

Não era exatamente um sonho. Bem dizer, era um pensamento que se realizava na minha cabeça antes de dormir, às vezes entrava pelos meus delírios noturnos e virava uma confusão da idade, de um menino com a coluna moldada conforme o vergado da rede.

Não variava o tema. Era o futebol com minha patota e nossos adversários no comum dos dias. Em minhas fantasias, acontecia sempre uma partida de futebol. Nosso time se definia como invencível, e dado a caprichos. Não admitia pegar gol. E daí vem o extraordinário. Para não ficar uma integração passional, havia no roteiro um momento em que o adversário fazia o gol. Acrescento que naqueles instantes, na antecâmara do sono, havia espaço para o desenvolvimento de um jogo com todos os elementos da vida real. As cenas continham a descrição do ambiente, a identificação do outro time, a torcida, horário do jogo, e a explicação quadro a quadro de cada jogada. O que dava extravagância e impunha um caráter mágico a esta minha aventura mental era, exatamente, os desfechos. Como disse, a ilusão não permitia derrota nem gol contra, mas havia o tira-forra de um gol do adversário a cada episódio imaginado. Então recorria ao fantástico, ao inusitado. Meu arrebatamento enredava uma negociação, no decorrer do jogo, dirigida pelo líder do meu time para que o juiz cancelasse o gol contra nós e um outro gol a favor. O jogo voltava ao placar sem nossa meta vazada, recomeçava o meu devaneio. Era vitória certeira e nossa trave permanentemente inviolada.

Que me ocorra, algo além com aspiração aquecida, desejo férreo, vontade abrasadora, horizontes ilimitados, estes incrementos não contam na minha conta. O que vingou foram essas alienações rotineiras aos contornos da rede. Sonho mesmo, desses dos quais hoje se versa que não devemos desistir, me escapa da memória.

Hoje penso que deveria sim ter sonhos mais aqueles de substanciosos. Ali no rumo da felicidade irrestrita e alegria geral. O que me faltou foi um para-pra-acertar entre razão, espaço e tempo.

(Dias atrás vi uma entrevista de um jovem morador de favela no Rio de Janeiro que se destaca nas redes sociais por mostrar na vera, como é a vida morro acima. Algumas edições estão entre as mais visualizadas por revelarem o sufoco que vivem para que serviços simples possam alcançar os moradores da comunidade. A entrega de uma geladeira, por exemplo, com os carregadores vencendo becos estreitos e acidentados ou uma simples caixinha do correio, exigem uma mobilização qualificada e voluntariosa. O garoto é enfático quando admite que não há glamour ou romantismo naqueles aperreios. Deu exemplo da família e causou impacto quando em algum momento se disse impedido de ter sonhos. Potencializou a reflexão dizendo que seus sonhos foram roubados).

É duro admitir, mas, e até a partir dos relatos que ouvi na entrevista do garoto na TV, o justo e certo é que minha ocupação com os rasos mundanos, como um jogo de futebol de rua, na calada da noite, era uma compensação pela a ausência de estímulos para sonhar sonhos grandes, altos e longes. Meus sonhos, morando num quarto-sala-cozinha com cinco pessoas, tendo que correr atrás do di cumê todo dia, medindo força e energia remanescentes a cada instante para garantir a sobrevivência, também foram sequestrados. E me acostumei assim. A quimera me é tão distante! O real me consumiu e, por hábito, reluta me largar, me consome em urgências e precisões mesmo que abrandadas.

Agora, na batida da campa, vencidas algumas batalhas, ao ajeitar a cabeça no travesseiro, reivindico o merecimento de ir-me além da conquista ao direito de ter um jeito menos penoso para que uma encomenda do correio chegue à minha porta. Estou apto para cultivar um sonho grande de felicidade, de paz, de ano bom pra todo mundo, sem ecos de violência, sem enxurradas de mentiras, ódios espumando pelos cantos da boca. Um sonho de não  desistir dele.

domingo, 21 de dezembro de 2025

crônica da semana - aí vareia

 Aí ‘vareia’, né papai Noel

Pelo comum, papai Noel passava longe de casa. Errava o caminho, esquecia de entrar nos escondidinhos em que morávamos, ou mesmo não me incluía na lista. Tinha lá seus rígidos critérios para classificar um menino bonzinho durante o ano e eu, com aquele costume suspeito de apanhar camapu no quintal de quando em quando, não representava coisa boa não. Papai Noel, na certa, sabia das descobertas pueris que rolavam entre as ‘cercas embandeiradas’ que separavam nossos quintais.

De contar nos dedos, as vezes que, por uma forra, me achou. Certa ocasião, inspirado pela propaganda ufanista que grassava por este Brasil varonil, e explorando o sentimento da pátria amada ‘ame-a ou deixe-a’, o bom velhinho achou por bem quedar-se aos signos militares e deixou sobre meu par de botas cor de gelo que serenou a noite toda no beiral da janela, um kit completo com arremedos de acessórios militares. O que se deu foi que nem bem despertei, assumi a minha versão o pessiminho da ditadura, me montei nos equipamentos e infernizei o dia, de apito na boca tocando o barulho, cassetetando a canela de quem se aproximava, enlouquecendo a vizinhança com disparos do meu revólver de espoleta barulhento e também, aferindo a resistência do meu capacete, cabeceando a vigas sem reboco da construção vizinha, em combates e fugas imaginárias. Foi um presente de Natal que marcou a minha vida pelo grau de rejeição alcançado com minhas brincadeiras sem graça em homenagem a um regime que à época torturava, sumia, violentava o povo brasileiro. A propaganda nos cegava, nos envolvia, as crianças, os pais... nos alienava. Ainda bem que nos libertamos e não mais papai Noel reincidiu na doutrina. Graças!

Passou, passou, a situação ficou foi vasqueira pro papai Noel. O reflexo da ditadura, sentíamos no arroxo, no aperreio diário da carestia, na certeza de que havia um rico bolo impossível de ser dividido. E na presença sempre inquietante do medo. Só anos depois, minha janela, desta feita abrigando meus chinelinhos roídos em meia lua, foi visitada pelo velhinho. Já havíamos mudado de endereço algumas vezes porque os aluguéis estavam por acolá e a gente só no espremido de grana para sobreviver, pirangava aqui e ali uma morada mais em conta para uma família que somava onze pessoas. A Imprecisão no endereço talvez  teria sido mais um motivo para Noel me largar por uns tempos. Imagino que muita criança recebeu presente nos endereços largados para trás, em meu lugar. Fomos bater na parte não asfaltada da Pedro Miranda. Domiciliado por tempo recorde, encontrável, ganhei uma bola Rivelino. A rua traçada em leito de piçarra era o campo de jogo para estrear a pelota.

Quite. Plena preguicinha silenciosa do dia de Natal, a rua toda nossa e a molecada não apareceu. Havia um motivo. A patota desceu pro campinho de serragem que resistia entre os igarapés da Pirajá. A bola do jogo lá era a desejada Dente-de-leite. Sutilmente fui deixado no vácuo com minha bola Rivelino. Apenas um garoto, daqueles que jogavam de bermuda e chinelos entre os dedos das mãos, se dispôs a brincar comigo. Fizemos um gol a gol. Dei-lhe uma pisa. No meio da competição, ainda perguntei por que ele não conseguia agarrar meus chutes que nem fortes eram. É que essa bola Rivelino ‘vareia’ muito, respondeu meio que justificando a decisão da turma de ir brincar em outra freguesia. Foi um custo pro papai Noel me achar. Quando achou, me trouxe uma bola de trajetória instável, nem de longe lembrava a Dente-de-leite que até para remendar com faca quente era melhor.

Passados uns dias, depois de um chute variado, uma folha de zinco golpeou a minha bola. Não teve salvação. Bandei a bichinha e doei as partes para futuras emendas.

Nos tempos seguintes, papai Noel continuou na mesma batidinha. Me perdia, me achava, e por vezes, ainda que eu me apresentasse como um menino bonzinho, não me incluía na lista (Ah, o camapu!).