Sonhos altos
Não
era exatamente um sonho. Bem dizer, era um pensamento que se realizava na minha
cabeça antes de dormir, às vezes entrava pelos meus delírios noturnos e virava
uma confusão da idade, de um menino com a coluna moldada conforme o vergado da rede.
Não
variava o tema. Era o futebol com minha patota e nossos adversários no comum
dos dias. Em minhas fantasias, acontecia sempre uma partida de futebol. Nosso
time se definia como invencível, e dado a caprichos. Não admitia pegar gol. E
daí vem o extraordinário. Para não ficar uma integração passional, havia no
roteiro um momento em que o adversário fazia o gol. Acrescento que naqueles
instantes, na antecâmara do sono, havia espaço para o desenvolvimento de um
jogo com todos os elementos da vida real. As cenas continham a descrição do
ambiente, a identificação do outro time, a torcida, horário do jogo, e a
explicação quadro a quadro de cada jogada. O que dava extravagância e impunha
um caráter mágico a esta minha aventura mental era, exatamente, os desfechos.
Como disse, a ilusão não permitia derrota nem gol contra, mas havia o tira-forra
de um gol do adversário a cada episódio imaginado. Então recorria ao
fantástico, ao inusitado. Meu arrebatamento enredava uma negociação, no
decorrer do jogo, dirigida pelo líder do meu time para que o juiz cancelasse o
gol contra nós e um outro gol a favor. O jogo voltava ao placar sem nossa meta
vazada, recomeçava o meu devaneio. Era vitória certeira e nossa trave
permanentemente inviolada.
Que
me ocorra, algo além com aspiração aquecida, desejo férreo, vontade abrasadora,
horizontes ilimitados, estes incrementos não contam na minha conta. O que
vingou foram essas alienações rotineiras aos contornos da rede. Sonho mesmo,
desses dos quais hoje se versa que não devemos desistir, me escapa da memória.
Hoje
penso que deveria sim ter sonhos mais aqueles de substanciosos. Ali no rumo da
felicidade irrestrita e alegria geral. O que me faltou foi um para-pra-acertar
entre razão, espaço e tempo.
(Dias
atrás vi uma entrevista de um jovem morador de favela no Rio de Janeiro que se
destaca nas redes sociais por mostrar na vera, como é a vida morro acima.
Algumas edições estão entre as mais visualizadas por revelarem o sufoco que
vivem para que serviços simples possam alcançar os moradores da comunidade. A
entrega de uma geladeira, por exemplo, com os carregadores vencendo becos
estreitos e acidentados ou uma simples caixinha do correio, exigem uma
mobilização qualificada e voluntariosa. O garoto é enfático quando admite que
não há glamour ou romantismo naqueles aperreios. Deu exemplo da família e
causou impacto quando em algum momento se disse impedido de ter sonhos.
Potencializou a reflexão dizendo que seus sonhos foram roubados).
É
duro admitir, mas, e até a partir dos relatos que ouvi na entrevista do garoto
na TV, o justo e certo é que minha ocupação com os rasos mundanos, como um jogo
de futebol de rua, na calada da noite, era uma compensação pela a ausência de
estímulos para sonhar sonhos grandes, altos e longes. Meus sonhos, morando num
quarto-sala-cozinha com cinco pessoas, tendo que correr atrás do di cumê todo
dia, medindo força e energia remanescentes a cada instante para garantir a sobrevivência,
também foram sequestrados. E me acostumei assim. A quimera me é tão distante! O
real me consumiu e, por hábito, reluta me largar, me consome em urgências e
precisões mesmo que abrandadas.
Agora,
na batida da campa, vencidas algumas batalhas, ao ajeitar a cabeça no
travesseiro, reivindico o merecimento de ir-me além da conquista ao direito de ter
um jeito menos penoso para que uma encomenda do correio chegue à minha porta.
Estou apto para cultivar um sonho grande de felicidade, de paz, de ano bom pra
todo mundo, sem ecos de violência, sem enxurradas de mentiras, ódios espumando
pelos cantos da boca. Um sonho de não desistir dele.