A rainha do lar
Minha
mãe chegou do Acre com uma penca de crianças agarradas à barra da saia.
Acudiu-se à minha avó (que, viúva, já se batia no controle de um lar com 5
pessoas. Mais a turma da mamãe, somaríamos 10, numa única e compacta casa
alugada, comandada por mulheres)...
(O
Censo de 2022 realizado pelo IBGE registrou um aumento representativo do número
de mulheres na condução dos lares no Brasil. Mostra, a contagem, as mulheres
assumindo quase 50% dos domicílios no país.
Nenhuma
novidade. Na hora de assumir compromissos, prover futuros, cuidar e produzir
afetos, sobra mesmo é para as mulheres. Entendo que por vários motivos. Viuvez,
separação amigável, arrependimentos, desilusões... A razão mais dramática e
aquela da qual tenho mais exemplos no meu dia a dia segue o roteiro das
mulheres que são vitimadas pelos princípios renitentes do patriarcalismo.
Quando a rainha do lar é alvo de abandono, desdém, maus tratos. Desfechos que
resumem quadros reincidentes de agressões, submissões, violência de toda sorte
e resultam no desmembramento das famílias. O homem escapa de tudo. Deixa mulher
e filhos à sorte ou a salteados e minguados lenitivos financeiros e, sem dor,
volta-se a outras aventuras. Resta à mulher, assumir sozinha o controle da
casa. Aí, entra pra estatística).
...
Mamãe, também viúva cedo, alimentava uma beirinha de esperança de uma
providência que poderia vir das ruas de seringa do Xapuri. Que nunca veio. Impôs-se
então estratégias de sobrevivência. Muita coragem, uma resistência incrível, o
jeito ferrenho de conquistar os dias a cada amanhecer. Eram muitas as valências
a que mamãe recorria. Minha avó e o resto da família ajudaram o tanto que deu,
mas minha mãe percebeu que o fardo era nosso, tínhamos que nos aviar por nós. Ousou.
Passamos a morar sozinhos, e também a nos sustentar a partir de nossos suores.
Arrumar o di cumê todo dia, o de vestir, o de calçar, crédito para fiar
mercadorias que dariam o impulso ao nosso empreendedorismo. Não podia arrumar
tudo só ela. Naquela época, tempos duros de governo militar, não se cogitava
qualquer tipo de programa de proteção social. Benefício nenhum nos alcançou.
Nada, além das lidas diárias de mamãe, garantia nossa sobrevivência. Sem
reforço nenhum, não teve outra alternativa a não ser contar com a gente, os
pequenos. Tão logo ganhávamos um tutano, caíamos também no mundo do trabalho. E
mesmo com as nossas virações, o ganho era muito pouco. Vivíamos de um dinheiro
vindo da informalidade, de trabalhos em casas de família e ocupações periódicas
em pequenos comércios. Aos doze anos, fui a primeira pessoa lá de casa a ter um
emprego com carteira assinada. Com todo sacrifício, todo mundo estudou (e até
hoje não sei como). E mesmo cursar o ensino fundamental, tirar o segundo grau,
naquele tempo eram metas muito difíceis. Pra se conseguir uma vaga nas escolas
do governo, a gente tinha que dormir na fila.
Eu
era um único homem, um homenzinho, numa casa com quatro mulheres. Como
acreditava mamãe, era um menino ‘intelixente’ que só. Mas viu que não bastava a
sabedoria das coisas. O mundo raso que vivíamos nos dava a sina. Não se
conformava com o fato de trabalharmos. Caía na real quando algum de nós ficava
sem renda. Desinterava nisso ou naquilo de necessário. Logo tínhamos que
arrumar outro trampo.Todo mundo tirou o segundo grau e daí não passamos. Adiante,
alcançamos o emprego formal que nos coube. Que nos exigia metas e alta
produtividade, embora, o ganho pouco. Nossa rainha até o dia em que a vida lhe
valeu, comandou nosso lar com altivez de uma vencedora e ainda empreendendo em
renda mínima e salteada. Até os últimos dias fazia as vendinhas dela, mesmo
que, limitada, dessa vez, à porta da rua. Compôs com dignidade, sabedoria e uma
quantidade de amor imensa, desde lá atrás, desde o dia que, vindos do Acre,
desembarcamos no galpão Mosqueiro-Soure, as estatísticas do IBGE.