Chove não me molha
Deixa
eu cravar a minha marca de cronista e registrar logo que no dia de Natal, 25 de
dezembro de 2025, não choveu na grande Belém, deu-se o contrário, até abriu um
solzinho do meio-dia em diante que se pôs na maior beleza escarlate, no
horizonte lá pra de’tardezinha. Agora, na véspera, dia 24, foi aquele
pinga-pinga, aquele puxa-encolhe o dia todo, e pra banda da noite se estirou
num pampeiro federal. As ceias natalinas foram, sem dúvida, salpicadas de
bênçãos úmidas.
Bem
anotadinho fique para não acontecer o que aconteceu na noite de Natal. Todos em
nossa reunião de família prestaram reparo naquela chuva caindo di’cunforça.
Calhei de dizer que era normal, exatamente nestes entremeios natalinos, chover.
Choveu foi mina de negação. Algumas opiniões certificavam que há anos não se
via chuva deste calibre nos contornos do 25 de dezembro. Reinei provar por a +
b que não era verdade e que iria buscar nas minhas anotações de cronista,
provas de que a semana do Natal é por natureza e tradição, chuvisquenta. Dei
foi com os burros n’água, cheirei na vara do batista. Não achei publicação
nenhuma minha que dirimisse a dúvida do choveu-não-choveu, nos últimos natais.
Um deslize imperdoável para um cronista que dá muita atenção a essas artes do
clima, ainda mais por agora, em tempos de distúrbios globais. Esse ano de 2025
que se vê agora pelo retrovisor, está registrado. Choveu às pampas na véspera e
aí, no dia 25, o tempo ensaiou, fez graças e arremedos, mas não caiu uma gota.
Para
mim, é uma questão de honra situar no tempo, nossos traços culturais, naturais,
nossas reações e vivências. Tanto que, no meu próximo livro, onde reproduzo
crônicas que suscitam juízos temporais, faço questão de datá-los. E a chuva
nossa de cada dia tem um espaço de destaque nas minhas composições. Bom, menos
uma arenga para o ano novo.
Quem
me dera, meu bom pai, que a gente inticasse um com o outro plena noite de Natal
somente por causa de uma discordância factual situada nos dezembros plúmbeos da
vida. Os ânimos estão é agitados. A convivência social tem se tornado antessala
da discórdia. Por agora, até o vermelho da roupa do papai Noel resulta em jura
de mal a morte entre membros das famílias mais tradicionais e outrora consideradas
unha e carne, daquelas que nada desunia.
Qualquer
deslize, mínima sugestão ou lampejo de tese é motivo capital para que se
capitalizem beligerâncias e contra-ataques. Para melhor segurança, entre os
nossos, e tantos outros pares, recomenda-se, nos tempos atuais que a gente pise
em ovos nos caminhos que se nos apresentam compulsórios e compreendam temas de
interação que não sejam inocentes discorrências sobre chuva intermitente ou
dezembros.
Caso
a mim me fosse dada a graça de controlar o tempo, na certa optaria por um dia
25 de dezembro varado por aquela chuvinha, vá lá que seja, em outras épocas,
tida como a regra meteorológica do dia de Natal. Quereria um dia de Natal
entorpecido, alçado ao limbo da morrinha, da ressaca e do RO. Sem chacoalhos
domésticos, ou alaridos na rua. De agito, só a criançada desbravando corredores
e os cômodos aquietados da casa com os brinquedos que ganharam de presente. Um
dia se realizando naquela mansidão, em nevinha paraense caindo lá fora, e vindo
refletir na irrigação necessária, do meu coração.
Não
choveu no dia de Natal. Na véspera, choveu de entrar pela noite. Está
registrado o fato. Sem zanga, sem débito nas gentilezas ou nos afetos.
E
Quem me dera, meu bom pai, que a gente inticasse um com o outro somente por
causa de vazios doces e de desidratados conflitos. E que tudo ficasse somente
na superfície impermeável da contenda do chove-não-me-molha. Quem me dera!
E
sim, sim, que um solzinho se abra de quando em vez, e no final das tardes se
esconda pra’li, pras bandas da baía, no colorido que mais bem lhe parecer. No contestado
rubro matiz do papai Noel, que seja.