sábado, 7 de março de 2026

crônica da semana - nosso doutor

 Nosso doutor

Rogério vez em vez me visita em memórias carregadas de significados, umidade matinal da floresta e mais ainda, em filosofias do raso mundano tão densas que sobrevivem por anos, dando causa às mais diversas vivências que experimentei nas caminhadas por esta Amazônia de meu Deus! Rogério era de Humaitá, no Amazonas, um habitante das beiras.

Era meu papo de início de trabalho, diário. Os pequenos se aviando nos preparos, gerando material, praticando o bruto da missão. Enquanto isso, eu acompanhava Rogério arrumando as suas simples tecnologias. Duas batéias, uma imensa e outra pequenina. Uma peneira, um fogareiro artesanal, o talento. O escritório dele era uma tina enorme de metal que todos os dias abastecíamos de água, às vezes, dependendo da característica do material, até duas vezes por dia. A água não podia ficar estragada, como dizia ele.

Rogério avaliava, dava a conta da qualidade da água que ele operava. Era um risco que ele assumia. O ideal era a tarefa dele ser realizada em água corrente ou à margem dos igarapés, com fluxo lento mas renovável; e quase sempre afastado do local da geração. Isso o levava a um trabalho solitário longe da equipe. Preferia se realizar ali nos seus saberes e na companhia dos parceiros. No pé da obra, podia ajudar, forcejar quando a força dele fosse necessária, ralhar com um, com outro mais afoito que lhe passava medições duvidosas. Também, naquele ambiente de esforço e alguma técnica, poderia trocar uma prosa comigo antes do grosso do trabalho começar, picando um fumo, tecendo um fininho e depois preservando o porronca em brasa mansa, quase apagado, nos pitos cadenciados de canto de boca, por um tempão. Podia também, naquele papo de manhãnzinha, tirar onda comigo, das vezes em que a força de todos era demandada e eu me metia no meio da empreitada. Nosso equipamento era uma coisa primitiva, arte de prover desumanidades, engenho bruto. Rompedor de solo absolutamente manual, com tubos pesados, chaves atracadoras de pegadas frágeis, manobras dependentes de muito jeito de corpo. Quando a tubulação prendia, era um sofrimento.

Todo mundo se juntava para liberar a tubulação. Nessa leva, subíamos numa plataforma para pôr força até a veia do pescoço tufar. Eu e Rogério que lidávamos noutras paradas, também. A turma dava sangue, mas eu, nem chegava a tufar a veia do pescoço. Na primeira tentativa, pegava o beco e me arriava por ali no mato suando frio, na baba. E esta era a reflexão que eu fazia toda manhã quando da resenha matinal com o Rogério. Ele me identificava como um esforçado mas acima de tudo, um beneficiado pelo grau de instrução que eu tinha e que não me exigia a força física para sobreviver. Avaliava com muita razão, e afirmava que se eu não estudasse um pouquinho, estaria era ferrado, porque aguentar o trampo bruto, eu não aguentava não.

Rogério engatava nas palavras, mal sabia escrever o nome, divisava poucos horizontes do conhecimento. Mas na batéia, era um gênio. Eu parava com ele, de vez em quando para a prosa, mas muitas e muitas vezes, para admirar a elegância, a altivez com que ele dominava os segredos da separação de minerais usando a propriedade da densidade. Praticava, no tino puro, a ciência. Aprendi um pouco com ele. Se me der uma batéia, ainda hoje, arraso. Embora sem elegância nenhuma.

Aqui, ali, deixava escapar uma confissão, uma frustração. Se reconhecia pessoa de poucos recursos, ralo entendimento. No entanto, recorria a um escape, uma compensação. Dizia ter nenhum estudo, saber quase nada, mas a irmã dele, não. A irmã dele, que morava  em Humaitá, era tilógrafa.

E lá daquele inconsciente criativo, disseminador de exatidões doloridas, Rogério impõe os rasantes de razões em minhas vivências. Não alcancei canudo, graduação ou avanços formais, mas agora neste 12 de fevereiro, após uma defesa brilhante, ganhamos um tilógrafo na família. Parabéns, doutor!